A obra "Escreviventes" (Pallas Editora), lançada durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), resulta de um diálogo entre as renomadas autoras Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz. Gravado em um quilombo urbano no Rio de Janeiro, o encontro abordou temas como literatura, memória, racismo, maternidade, envelhecimento e amizade, revelando como as vivências pessoais influenciam a escrita literária de ambas.
O Conceito de Escrevivência e a Potência da Memória
Conceição Evaristo esclarece que sua "escrevivência" abrange não apenas memórias e relatos autobiográficos, mas também criação e ficcionalização, pois o conhecimento da realidade é fundamental para elaborar a ficção. Ela exemplifica essa abordagem com a capacidade de "ficcionalizar uma memória que a gente não tem", mencionando o romance "Um Defeito de Cor", de Ana Maria Gonçalves, que narra a busca de uma mulher africana pelo filho no Brasil, inspirada em figuras históricas como Luiza Mahin.
Em um momento simbólico, a obra antecipa as celebrações dos 80 anos de Conceição e 60 anos de Eliana em 2026. A autora destaca que tanto o livro quanto o futuro documentário homônimo, que inaugurará a coleção Memórias Brasileiras com estreia prevista para 2027, serão essenciais para registrar e valorizar o percurso de escritoras negras na história da literatura brasileira, preenchendo lacunas históricas.
A Urgência dos Registros e os Desafios no Audiovisual
Eliana Alves Cruz enfatiza a carência de materiais documentais sobre a vida de autores negros, citando Lélia Gonzalez como exemplo, e ressalta a importância de cada oportunidade para registrar suas histórias e legados. Ela pontua que, apesar da relevância desses autores, a falta de registros detalhados sobre suas trajetórias impede um reconhecimento pleno, tornando iniciativas como "Escreviventes" cruciais.
Apesar dos avanços na democratização da literatura no Brasil, impulsionados pela tecnologia e e-books, Eliana lamenta as significativas dificuldades enfrentadas por projetos que buscam adaptar a história e a memória negra para o formato audiovisual, evidenciando um cenário desafiador para a produção cultural nesse segmento.


