As bets ilegais passaram a ocupar um espaço recorrente em investigações sobre lavagem de dinheiro e crime organizado no Brasil. Nos últimos meses, operações da Polícia Federal, de Ministérios Públicos e de polícias estaduais encontraram plataformas clandestinas de apostas associadas a empresas de fachada, intermediadoras de pagamento, contas de terceiros e criptomoedas.
Os casos são diferentes entre si. Em algumas investigações, a suspeita é de que as apostas tenham sido utilizadas para dar aparência lícita a dinheiro obtido com outros crimes, como tráfico de drogas. Em outras, as próprias plataformas são investigadas por golpes contra apostadores. Há ainda operações em que a polícia identificou vínculos entre estruturas financeiras das bets e pessoas apontadas como integrantes ou associadas a facções criminosas.
Não há, portanto, uma única estrutura por trás das bets ilegais. O que as investigações permitem identificar são diferentes mecanismos de movimentação de dinheiro que aparecem repetidamente nos inquéritos.
Tráfico de drogas e apostas
Um dos casos mais claros é a Operação Slots, deflagrada pela Polícia Federal em julho. A investigação começou a partir de indícios de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas e chegou a uma estrutura que, segundo a PF, explorava plataformas ilegais de apostas.
Os investigadores afirmam que os sites eram divulgados por influenciadores e que os pagamentos feitos pelos apostadores passavam por empresas intermediadoras antes de serem movimentados e dispersados. Também foram identificadas empresas com características de fachada e evolução patrimonial incompatível com os rendimentos declarados pelos investigados.
A Justiça determinou o bloqueio e sequestro de até 951,1 milhões de reais em bens e valores. Segundo a PF, os investigados podem responder por lavagem de dinheiro, organização criminosa, exploração ilegal de jogos de azar, tráfico de drogas e associação para o tráfico.
Outro caso é a Operação Narco Bet, deflagrada em outubro de 2025. A PF investigou uma estrutura de lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional de cocaína. Segundo a corporação, parte dos recursos teria sido direcionada a empresas e plataformas relacionadas ao mercado de apostas eletrônicas. A investigação identificou uso de criptomoedas e remessas internacionais.
A apuração deu origem posteriormente à Operação Narco Fluxo, que passou a investigar a movimentação financeira da organização. Segundo a PF, o grupo utilizava empresas de fachada, contas de passagem, dinheiro em espécie, transferências bancárias e criptoativos para ocultar recursos.
Facções aparecem em outras investigações
As relações com organizações criminosas também aparecem em investigações estaduais.
Na Operação Falsa Las Vegas, realizada em São Paulo em maio, o Ministério Público investigou uma estrutura de exploração ilegal de jogos de azar e lavagem de dinheiro. Segundo o MPSP, havia indícios de vínculos entre integrantes da organização e pessoas associadas ao PCC.
A investigação resultou em duas prisões preventivas, no sequestro de 76 imóveis e no bloqueio de até 5,3 bilhões de reais em 46 contas bancárias. O MPSP também informou ter apreendido um helicóptero, veículos e dinheiro em espécie.
No Rio de Janeiro, a Operação Banca Suja investigou uma estrutura de jogos de azar online, fraudes contra apostadores e lavagem de dinheiro. Segundo a polícia, havia ligações financeiras entre o grupo investigado e empresas relacionadas a uma estrutura apontada como ligada ao PCC.
Já na Operação Desfortuna, de agosto de 2025, a Polícia Civil do Rio investigou influenciadores que promoviam o chamado “jogo do tigrinho” e outros cassinos online ilegais. Segundo a polícia, os pagamentos aos divulgadores passavam por uma rede de intermediadoras e fintechs. Entre as pessoas identificadas nos canais de pagamento havia indivíduos com vínculos investigados com o Comando Vermelho e o PCC.
O delegado responsável pela investigação, porém, afirmou que a relação dos influenciadores com o crime organizado ainda estava sendo apurada. A distinção é importante porque aparecer em uma investigação ou ter uma relação comercial com uma empresa investigada não significa, por si só, participação em uma organização criminosa.
O papel das fintechs
As instituições de pagamento aparecem em diferentes investigações porque funcionam como uma camada entre o apostador e a plataforma.
Na Operação Conto da Sorte, deflagrada em junho, a Receita Federal e os Ministérios Públicos do Rio Grande do Norte e de Pernambuco investigaram empresas de apostas que funcionavam sem autorização. Segundo os investigadores, o grupo teria criado dezenas de empresas e instituições de pagamento e utilizado terceiros sem capacidade econômica aparente para ocultar os verdadeiros controladores dos negócios.
A operação também apura possíveis crimes tributários, financeiros e lavagem de dinheiro. A Justiça autorizou medidas para apreensão de bens e direitos de até 145 milhões de reais.
Na Paraíba, uma operação coordenada pelo Gaeco do Ministério Público e pela Polícia Civil identificou, segundo o Ministério da Fazenda, dezenas de pessoas físicas e jurídicas interligadas em uma estrutura de apostas clandestinas. Os investigadores apontaram uso de empresas de fachada, sedes fictícias e intermediadores financeiros para movimentação de recursos, ocultação patrimonial e dispersão de valores.
A investigação apura crimes como exploração ilegal de loteria, organização criminosa, lavagem de capitais e fraude eletrônica. Mais de 100 milhões de reais foram bloqueados.
As investigações não significam que as fintechs envolvidas tenham, necessariamente, participado conscientemente dos crimes. O ponto investigado é justamente saber quem controlava as contas, quais serviços foram prestados e se havia conhecimento ou participação na origem e no destino dos recursos.
O que dizem as associações
As entidades que representam o setor de apostas autorizadas afirmam que o problema está concentrado no mercado clandestino.
O presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), Plínio Lemos Jorge, disse à Folha em abril que as operações policiais contra bets ilegais não eram surpresa para o setor. Segundo ele, as empresas regulares vêm tentando distinguir o mercado autorizado das plataformas clandestinas, que, na avaliação da associação, concentram os problemas relacionados a fraude e crime organizado.
A própria ANJL, porém, afirmou na entrevista que não consegue dimensionar quanto das operações investigadas corresponde efetivamente a crime organizado e quanto corresponde a fraudes praticadas contra apostadores.
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) também sustenta que as plataformas clandestinas são um dos pontos de contato entre apostas e criminalidade. A entidade afirma que investigações recentes apontam utilização dessas empresas para lavagem de dinheiro e defende maior responsabilização das instituições financeiras e de pagamento que processem recursos para operadores ilegais.
As associações representam empresas que atuam no mercado autorizado e, portanto, têm interesse direto na diferenciação entre os operadores regulares e os clandestinos. As informações sobre as ligações com organizações criminosas, por outro lado, precisam ser verificadas nos inquéritos e nas operações das autoridades.
Um problema que vai além das bets
O uso de fintechs em estruturas criminosas não começou com as apostas.
A Operação Carbono Oculto, deflagrada em 2025, revelou uma investigação sobre o uso de instituições de pagamento como parte de uma estrutura financeira atribuída ao PCC. O caso não tinha as bets como objeto principal, mas ajudou a colocar as fintechs no centro das discussões sobre lavagem de dinheiro.
É nesse ponto que as investigações sobre apostas ilegais e crime organizado se aproximam. Em vez de depender apenas de dinheiro em espécie ou de contas bancárias tradicionais, estruturas criminosas podem utilizar empresas, instituições de pagamento, contas de terceiros e ativos virtuais para movimentar recursos em diferentes etapas.
A aposta ilegal pode ser uma dessas etapas, mas os casos investigados mostram que ela não é necessariamente a origem do dinheiro.
O que já se sabe
Até agora, as operações policiais permitem afirmar que há casos concretos em que plataformas ilegais de apostas aparecem dentro de investigações de lavagem de dinheiro e de organizações criminosas.
Também há casos em que autoridades identificaram dinheiro relacionado ao tráfico de drogas sendo direcionado a estruturas ligadas às apostas, além de investigações sobre plataformas utilizadas para aplicar golpes em apostadores.
O que ainda não é possível afirmar, a partir das operações divulgadas, é que exista uma ligação única entre o conjunto das bets ilegais e as grandes facções criminosas brasileiras.
A evidência disponível aponta para algo mais fragmentado: diferentes grupos utilizando o mercado clandestino de apostas, e sua infraestrutura financeira, para finalidades distintas. Em alguns casos, como mecanismo de lavagem; em outros, para fraude; e, em determinadas investigações, em estruturas nas quais aparecem pessoas associadas ao tráfico ou a facções.
Esse cenário explica por que as autoridades passaram a mirar não apenas os sites, mas também a cadeia financeira que permite que eles recebam, movimentem e retirem dinheiro do país.
Desde 2025, o governo federal vem adotando medidas para bloquear operadores não autorizados e seus meios de pagamento. Em setembro, a Secretaria de Prêmios e Apostas publicou regras específicas para prevenção, identificação e repressão de transações relacionadas à exploração irregular de apostas.
A questão ganhou nova dimensão em 25 de setembro, quando o governo editou medida provisória que proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no país.
No dia seguinte, o governo informou que havia derrubado centenas de sites considerados irregulares e ampliado o monitoramento de canais digitais utilizados para divulgar apostas.


