De onde vieram os recursos para bancar a passagem de Flávio Bolsonaro pela Argentina o dinheiro para alugar o Gulfstream G400 da empresa Bayres Fly? Esta pergunta interessa aos brasileiros, mas muito mais aos argentinos. Se tiver havido alguma participação de recursos públicos na operação Flávio Bolsonaro, será um desastre para Javier Milei, num momento ambíguo de sua candidatura à reeleição. Caso contrário, a história tende a se dissolver, embora a mídia argentina esteja escavando tudo, em especial por causa do envolvimento direto do assessor presidencial Santiago Caputo, um constante provocador da hostilidade de jornalistas.
Não há dúvidas de que Milei fez uma aposta altíssima ao propiciar a “saída à argentina”, jogando gasolina numa fogueira já crepitante, com as relações bilaterais no ponto mais baixo desde a Guerra do Prata, em 1851. “As autoridades argentinas não se limitaram a deixar Bolsonaro passar. Ajudaram-no a escapar”, anotou o comentarista Carlos Pagni, um dos mais visados por Milei e companhia – sempre uma medalha de honra para jornalistas, seja qual for o governante.
“A peripécia de Flávio Bolsonaro poderia inspirar alguma joia do realismo mágico que incluiria um grande capítulo argentino. Sobretudo porque foi impossível coordenar o discurso da Casa Rosada com o do senador foragido. Os porta-vozes informais de Milei asseguravam que o governo não teve nenhuma intervenção na fuga. Mas Bolsonaro agradeceu essa intervenção”, ironizou Pagni.
“Na fuga, houve alguns detalhes curiosos. A van que levou o ex-candidato até o aeroporto de Puerto Iguazú foi escoltada por um carro da Polícia de Segurança Aeroportuária. Houve dois outros veículos, um dos quais tinha chapa diplomática argentina. A que serviço pertencia? Enigma.”
FRUSTRAÇÃO GRANDE
O furo sobre a ativa participação do assessor presidencial Santiago Caputo, o Mago do Kremlin – referência a um livro sobre um assessor fictício de Vladimir Putin – foi dado pelo jornal La Nación. O New York Times completou o quebra-cabeças: a operação foi comandada por Jason Miller, assessor de Donald Trump, responsável pela mobilização do Gulfstream G400 da empresa Bayres Fly. O presidente argentino colaborou ativamente.
Está Milei seguindo, desde o começo dessa fase de confrontos diplomáticos, uma política deliberada de explorar um sentimento antibrasileiro entre os argentinos? Não é impossível. O presidente argentino não opera sob os parâmetros habituais da política. Uma vitória de Flávio Bolsonaro seria uma grande recompensa para ele e a frustração com a derrota do amigo deve ter sido grande – maior até do que a da média dos eleitores brasileiros do ex-senador.
Também seria um impulso para a reeleição, que será disputada em outubro do ano que vem. No momento – ressaltando que o prazo de um ano é quase equivalente a um século na atribulada política argentina –, as pesquisas dão números contraditórios. Por exemplo, 57,5% dos argentinos querem uma mudança no rumo político do país.
Mas, numa disputa de segundo turno entre Milei e Axel Kiciloff, o governador da província de Buenos Aires, seu maior antagonista, o presidente teria 43% dos votos, contra 40,6% do adversário.
Ou seja, ainda há espaço para Milei ser reeleito, mesmo com o alto nível de insatisfação dos argentinos com uma política econômica que ainda está muito longe de turbinar a criação de empregos e o avanço prometido do país. Brincar de 007 prejudicaria ou favoreceria Milei? Aguardem o próximo furo.
Fonte: Abril


