
Caso Kathleen: assassinato de menina que saiu de casa para ir à quermesse completa 20 anos
O assassinato de Kathleen Lucas dos Santos, um dos casos criminais mais chocantes e de maior repercussão da história de Sorocaba (SP), completa 20 anos. Foram dias de agonia e desespero entre setembro e outubro de 2006, período em que a menina de 8 anos sumiu, foi encontrada e sepultada. Kathleen saiu para ir à quermesse, no Jardim Simus, na zona oeste da cidade, e nunca mais voltou para casa.
O g1 reconta o caso que gerou mobilização no município, desde as buscas até o trabalho conjunto entre as polícias, que culminou na prisão de Geraldo Cardoso de Paula, conhecido como Madruga, vizinho da menina, como autor do crime.
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A cronologia do caso
Caso Kathleen: assassinato de menina que saiu de casa para ir à quermesse em Sorocaba (SP) completa 20 anos
Reprodução Jornal Cruzeiro do Sul
Kathleen sumiu no início da noite de quinta-feira (7), em setembro de 2006, após sair de casa, na Alameda das Miltônias, em direção a uma quermesse da igreja do bairro, a cerca de 100 metros de distância. Como ela não voltava, a família e a comunidade se mobilizaram nas buscas, e centenas de cartazes com a foto da menina foram espalhados por vários bairros de Sorocaba. A imprensa entrou no caso, o que aumentou ainda mais a mobilização e a comoção.
Vinte e três dias depois, no sábado (30), uma denúncia anônima levou a polícia a encontrar uma ossada humana em uma vala rasa às margens de um córrego, na Avenida Américo Figueiredo, no Jardim Simus, a aproximadamente 750 metros da casa da menina.
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O corpo estava de cabeça para baixo e vestia apenas roupas íntimas. Ao lado, foram achados um chinelo branco e uma calça jeans com pintura de flores. Na mesma ocasião, uma garrafa com líquido foi recolhida no local para perícia.
Caminho que Kathleen faria para ir até a quermesse
Marcel Scinocca/g1
A identificação e a perícia técnica
Inicialmente, os pais compareceram ao Instituto Médico Legal (IML). O pai, o funileiro João Lucas dos Santos, reconheceu a filha mesmo com o rosto desfigurado e marcas de dentes quebrados. A mãe, Creuza Apolinário, não teve condições de olhar o corpo, mas reconheceu as vestes e detalhes específicos da calça e do chinelo.
A confirmação definitiva ocorreu sem a necessidade de esperar pelo teste de DNA, por meio de exames antropológico e odontológico. O médico legista Orlando Fermozelli Rodrigues Júnior comparou os dados antropológicos preliminares (estatura, ossos e sexo) e confrontou a arcada dentária da ossada com a ficha odontológica da rede municipal de saúde, o que atestou a identidade de Kathleen.
Assassinato de menina que saiu de casa para ir à quermesse Em Sorocaba (SP) completa 20 anos
Arte/Raissa Oliveira /g1
A calça e a garrafa recolhidas foram enviadas ao Instituto de Criminalística (IC), na capital, para exames com equipamentos modernos, para identificar vestígios de sangue de terceiros. Na linha de investigação policial sob o comando do delegado Acácio Aparecido Leite, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), foi instaurado um inquérito para apurar a causa da morte.
A proximidade entre o local onde o corpo foi achado e a casa da família reforçou a suspeita de que o crime tivesse sido cometido por alguém do convívio da vítima. Contudo, a polícia manteve cautela e não descartou outras teses, inclusive a possibilidade de morte acidental relacionada a ferimentos prévios sofridos no dia do desaparecimento, à espera de que a perícia constatasse formalmente sinais de violência. Os investigadores passaram a ouvir parentes, vizinhos e pessoas próximas, e também contavam com canais de denúncia anônima.
Sepultamento e mobilização
Assassinato de menina que saiu de casa para ir à quermesse em Sorocaba (SP) completa 20 anos
Reprodução/Jornal Cruzeiro do Sul
O sepultamento ocorreu em um cemitério da zona leste da cidade, após uma breve cerimônia na capela ecumênica da Ossel, no Jardim Simus. O velório reuniu familiares, amigos e moradores, que vestiam camisetas com o retrato da menina e distribuíram fotografias. Em meio a pedidos de justiça e ao desespero, os pais acompanharam o caixão até o enterro.
Como desdobramento da tragédia, a ONG Criança Feliz organizou uma passeata pela paz no centro da cidade, partindo da Praça Coronel Fernando Prestes, com a participação da família, para cobrar das autoridades a elucidação do crime e a punição dos responsáveis. A situação gerou comoção na cidade, e o caso passou a ter repercussão nacional, em jornais e na televisão.
Investigação e comoção
A jornalista Adriane Mendes, que cobriu o caso em 2006, lembra da comoção e do clima de medo que o caso gerou.
“Me lembro do desespero das mães. As outras mães se colocavam no lugar da mãe da Kathleen, porque aconteceu com a Kathleen e poderia acontecer com outra menina. Havia já uma comoção na cidade, que era exatamente aquele desespero das famílias em geral”, conta.
“Não me lembro se, a hora que cheguei, o corpinho da Kathleen já havia sido retirado, mas lembro que era uma coisa terrível. A gente percebia até nos policiais, que, digamos, são preparados para essas situações, que era um clima de tristeza profunda, de horror, mesmo”, relembra Adriane.
Pela Polícia Civil, o delegado Acácio Aparecido Leite foi quem mais atuou à frente das investigações. “Tudo começou quando ele (Geraldo Cardoso de Paula), do nada, inadvertidamente, começou a procurar a família. Ele foi até a mãe e começou a falar algumas coisas. Aquilo, para nós, era um indício muito forte de que ele tinha participado do crime ou mesmo de que era o autor”, diz.
“Então, com o passar dos dias, essa frequência com que ele ia falar com a mãe: ‘Ah, ela sofreu, ah, ela chorou muito, ela sofreu demais, ela foi isso, ela foi aquilo’. Aquilo ligou a nossa luz de alerta, nós passamos a entender que não era uma conversa mole que ele estava para a mãe da vítima, mas sim que ele sabia efetivamente o que tinha acontecido.”
“O que foi determinante no caso foi o encontro do corpo, a materialidade do crime que a gente precisava. Deixamos de trabalhar em um desaparecimento e passamos a trabalhar em um homicídio”, relembra o delegado.
Com o avanço da investigação, Geraldo Cardoso de Paula foi preso, acusado e condenado pelo júri, em 2008, a mais de 28 anos de prisão.
O jornalista Carlos Araújo também atuou no caso. Ele fez um perfil da história, publicado em um domingo, em que mostrou o carinho e a dor da mãe, ainda agarrada às coisas da filha.
“Falei com a mãe dela. Foi uma dor terrível. Sofri como repórter com essa história. Lá se vão 20 anos e lembro como se fosse hoje. Trabalho essas histórias na minha literatura, uma maneira de exorcizar a dor causada pela violência deste mundo hostil. Cobri, como repórter, várias histórias terríveis. Essa foi uma das mais doloridas. Nunca esqueci esse nome. Essa história me marcou muito, especialmente o depoimento da mãe. A dor estava no olhar dela e na voz”, relata.
A mãe, 20 anos depois
A mãe de Kathleen, apesar de ter outros filhos, nunca foi a mesma após a morte brutal da filha. O sentimento de luto é dor que não cura, que não passa. Ao g1, ela contou que mora em Itu (SP) e prefere falar pouco sobre o caso.
“O que eu passei e como eu passei, só Deus é quem sabe da minha vida. Quem estava junto comigo o tempo todo é Deus, para me dar força, para eu continuar vivendo. Só Deus. É a única coisa que eu falo. Deus é maravilhoso na minha vida”, diz Creusa Apolinário.
“Ainda estou passando, porque, enquanto eu tiver vida, enquanto eu estiver respirando, eu sempre vou estar no sofrimento, sofrendo por falta da minha filha, da minha filha maravilhosa, que agora está no céu, com Jesus. Mas eu ainda estou passando. Não passa, nunca passa. Para uma mãe que perde um filho, uma filha, nunca passa. Jamais passa. Eu tenho um Deus maravilhoso que cuida de mim em cada detalhe”, completa.
Na época do crime, Creuza passou vários dias esperando por notícias da filha em uma cadeira em frente à casa. O imóvel, em Sorocaba, está à venda. Geraldo Cardoso de Paula segue cumprindo pena.
Vizinhos de Kathleen Lucas dos Santos ainda se lembram da garotinha caminhando pelas ruas do bairro. Sérgio Gabriel, cuja família morava quase em frente à casa de Kathleen, diz que foram momentos difíceis para todos.
“A menina passava em frente aqui, com a mãe, com a irmã. Era feliz. Foi cruel”, lamenta Valter Ribeiro, que mora há mais de 20 anos no bairro onde tudo aconteceu.
Assassinato de menina que saiu de casa para ir à quermesse em Sorocaba (SP) completa 20 anos
Reprodução Jornal Cruzeiro do Sul
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Fonte: G1

