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Home » Alice Evans: Onda conservadora vai além de Bolsonaro – 16/05/2025 – Poder
Política

Alice Evans: Onda conservadora vai além de Bolsonaro – 16/05/2025 – Poder

RedaçãoBy Redaçãomaio 17, 2025Nenhum comentário7 Mins Read
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Alice Evans: Onda conservadora vai além de Bolsonaro – 16/05/2025 – Poder
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Enquanto pesquisava por que alguns países são mais igualitários que outros em questões de gênero, a cientista social britânica Alice Evans percebeu que, entre a geração Z (nascidos entre 1997 e 2010), as mulheres tendem a ser mais progressistas e os homens, mais conservadores.

Pesquisadora da universidade King’s College, de Londres, Evans não encontrou uma resposta única para a polarização política, mas indicou uma de suas causas. Na cafeteria de um hotel na zona sul de São Paulo, enquanto concedia entrevista à Folha, apontou a mesa ao lado, na qual três pessoas permaneciam em silêncio, e observou que todas estavam concentradas em seus celulares.

“Cada um está fechado em sua bolha através dos smartphones, em câmaras de eco ideológicas separadas, e isso pode estar polarizando as coisas, inclusive politicamente”, disse.

O uso excessivo das redes sociais deixa as pessoas cada vez mais imersas em bolhas ideológicas, chamadas “câmaras de eco”, nas quais circulam as mesmas visões, explicou. Enquanto mulheres se empoderam para conquistar mais espaço do que gerações anteriores tiveram, homens recebem conteúdos que apontam a ascensão feminina em diversas áreas como motivo do insucesso masculino.

Segundo Evans, no Brasil o cenário é diferente. Há um aumento de jovens conservadores, entre homens e mulheres, guiado principalmente pela expansão das igrejas evangélicas, em um movimento anterior à eleição de Jair Bolsonaro (PL) em 2018.

“O conservadorismo não surgiu com o governo Bolsonaro, há uma onda mais ampla e anterior a ele, que cresceu com os evangélicos. Onde há evangélicos, não há um movimento feminista forte”, disse.

Por que ainda há disparidade de gênero no Brasil?

Isso varia entre as elites e as camadas menos favorecidas. No Brasil, mulheres pobres vivem em bairros carentes, com transportes precários e sem bons empregos. Uma mulher pobre dificilmente conseguirá um trabalho bem remunerado se precisar sair no meio do expediente para buscar o filho na escola. Ao invés disso, ela vai trabalhar em um pequeno negócio ou na informalidade. Já uma mulher da elite, apesar da disparidade salarial em relação a um homem, pode ir de carro ao trabalho e tem o auxílio de uma babá ou faxineira. Sempre que falamos sobre gênero, precisamos falar sobre desigualdade e raça.

E no resto do mundo?

Na Europa, há lacunas menores porque a maioria das pessoas tem acesso a escolas públicas de ensino integral. Outro aspecto importante, no Brasil, é a violência. Jovens que crescem em locais de alta criminalidade talvez não tenham um futuro seguro: quando as perspectivas de emprego são mínimas, a criminalidade vira uma possibilidade de ganhar dinheiro. Se todos os homens ao redor de um rapaz são durões, ele aprende a ser assim também. E não há como confiar no Estado se ele for abusivo, agressivo ou inútil.

Por que as mulheres mais jovens estão cada vez mais progressistas e os homens mais conservadores?Hoje as pessoas têm acesso a conteúdos do mundo todo. Quando conversei com meninas jovens em Puebla, no México, elas me disseram que seu programa favorito era “Maravilhosa Sra. Maisel” [série do Amazon Prime]. Elas preferem assistir a séries feministas em streamings do que novelas antiquadas que passam na TV. Os smartphones permitem que cada indivíduo crie sua própria bolha e assista ao que quiser, e muitas mulheres jovens optam por assistir a conteúdos mais progressistas, enquanto os homens são incentivados a assistir esportes como luta livre e futebol. Cada um está fechado em sua bolha através dos smartphones, em câmaras de eco ideológicas separadas, e isso pode estar polarizando as coisas, inclusive politicamente.

Isso também ocorre no Brasil?

Não tenho dados específicos sobre o Brasil, mas acredito que o cenário seja um pouco diferente aqui. Com o aumento das igrejas evangélicas, as mulheres que as frequentam tendem a promover um discurso mais patriarcal. As igrejas atuam em áreas esquecidas, ajudam famílias com empregos e segurança e trazem um senso de comunidade. Isso é importante, mas essas mesmas comunidades condenam o feminismo e a discussão de gênero nas escolas. O conservadorismo não surgiu com o governo Bolsonaro, há uma onda mais ampla e anterior a ele, que cresceu com os evangélicos. Onde há evangélicos, não há um movimento feminista forte. É importante reconhecer que há múltiplos cenários no Brasil, com mulheres super progressistas e também redutos conservadores, além de toda a questão da violência estrutural.

A redução da desigualdade e da polarização política de gênero só ocorrerá se houver redução da violência?

O combate à violência deve ser prioridade. É bom que o Brasil tenha uma lei do feminicídio, mas, enquanto houver uma cultura de violência, há um desafio maior. Há intervenções em escolas, como terapias cognitivo-comportamentais para meninos, ou conscientização sobre masculinidade, e isso é importante. O problema é que, mesmo que um rapaz faça um curso sobre masculinidade e desconstrução, ele vai retornar para um cotidiano onde precisa agir como durão para se proteger. É necessário mudar a realidade das pessoas.

O que achou da série “Adolescência”, da Netflix?

Dá para traçar paralelos com o Brasil, onde há lideranças influentes pregando respeito aos homens. Isso também entra em uma questão econômica. Com perspectivas de emprego limitadas, um rapaz pode ser atraído por um discurso que promete status e prosperidade. Isso o leva a gravitar em torno dessas lideranças que pregam a masculinidade. Sem status, ele ficará descontente, principalmente se uma mulher estiver ascendendo num lugar que ele acredita ser o dele.

A polarização política entre homens e mulheres pode ter relação com a baixa taxa de natalidade de alguns países?

Sim, e é uma crise. Pesquisas mostram que os brasileiros passam cerca de três horas por dia em seus smartphones, imersos em jogos, apostas esportivas e redes sociais. A tecnologia está superando os relacionamentos pessoais. Se você quiser sair e conhecer gente nova, como vai puxar assunto se não aprendeu a fazer isso? Os homens não se veem mais na obrigação de casar, e as mulheres não querem viver a vida de suas mães e avós, presas em casa cuidando dos filhos ao lado de maridos que não cozinham nem fazem faxina. Enquanto elas passam a exigir mais de seus companheiros, os homens não entenderam que o comportamento deles precisa mudar. É o “leapfrogging”: as mulheres têm acesso a coisas mais progressistas e igualitárias e querem isso no seu cotidiano. E, se os homens não fazem jus a isso, elas decidem não se casar.

O que significa “leapfrogging”?

É um termo usado na economia para quando se copia e adota uma tecnologia que já está mais avançada ao invés de desenvolvê-la a passos lentos. É como um salto cultural. Através do smartphone, as mulheres dão esse salto assistindo a conteúdos feministas que ainda não vivenciam nos seus meios e adotando essas posturas. Por outro lado, por que os homens consumiriam esse tipo de conteúdo?

Esse movimento é exclusivo da geração Z?

Os jovens que cresceram com acesso a smartphones ou durante a pandemia de Covid viveram seus anos de formação passando muito tempo sozinhos em frente às telas, acostumados a não socializar. Mesmo que pessoas mais velhas também sejam viciadas em telas, elas viveram em um mundo analógico, sabem conviver fora das telas. Os mais jovens não necessariamente adquiriram essa experiência. Ser capaz de conversar e flertar é um pouco como a matemática: você só será bom nisso se praticar.


RAIO-X | ALICE EVANS, 38

Cientista social, é pesquisadora do King’s College, de Londres, e estuda gênero, urbanização, transformações sociais e desigualdades socioeconômicas. É autora do livro “The Great Gender Divergence” (“A Grande Divergência de Gênero”, na tradução livre), ainda em produção, e do podcast “Rocking Our Priors” (“Revirando Nossas Convicções”).


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