Presidente de 1956 a 1961, Juscelino Kubitschek é o segundo nome mais homenageado em logradouros do país entre aqueles que governaram o Brasil no período republicano.
Levantamento realizado pela Folha com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que o político mineiro tem 1.339 menções em avenidas, ruas, alamedas, praças, travessas, praças e outros espaços de uso público nas cinco regiões do país. Fica só atrás de Getúlio Vargas, que dá nome a 2.593 logradouros.
A memória de JK está fixada nas mais diferentes vias do país, de uma das principais avenidas da zona sul de São Paulo à ponte que liga o centro à região leste de Teresina, no Piauí.
Em geral, os nomes de ruas e outros espaços públicos dentro dos limites de um município são decididos pela Câmara de Vereadores. Em 2019, porém, o STF reconheceu também a competência do prefeito para a denominação de logradouros. No caso de rodovias federais e estaduais, a incumbência recai principalmente sobre os deputados das duas esferas, mas a iniciativa também pode partir do Executivo.
“De certa maneira, Juscelino era considerado um seguidor de Getúlio. Não era do PTB [legenda mais identificada com o getulismo], mas do PSD, um partido também criado por Getúlio”, afirma a socióloga e cientista política Maria Victoria Benevides, autora de livros como “O Governo Kubitschek – Desenvolvimento Econômico e Estabilidade Política”.
Ao longo do seu mandato, JK teve o apoio do PSD e do PTB, dois dos três mais fortes partidos da época. Na oposição, estava a UDN, que fecha a trinca das legendas mais competitivas daquele período.
“A mística do desenvolvimentismo, que tinha começado com Getúlio, se reafirmou com muita força no governo Juscelino”, complementa a socióloga.
Ela lembra ainda que esses dois ex-presidentes morreram de forma dramática, deixando marcas no imaginário nacional. Getúlio se matou em agosto de 1954, e Juscelino morreu em 1976, também em agosto, em um acidente de carro que muitos consideram ter sido um atentado político.
Mas a presença significativa do político mineiro nas placas dos logradouros não se explica apenas por seus pontos em comum com Getúlio. Benevides ressalta a “capacidade de Juscelino como um político conciliador e também os resultados concretos que deixou, como o crescimento dos empregos”.
No levantamento, o terceiro lugar fica com o alagoano Floriano Peixoto, que comandou o país de 1891 a 1894, sucedendo a Deodoro da Fonseca.
A quarta posição cabe a Castello Branco, que é, por larga margem, o mais homenageado em logradouros entre os presidentes da ditadura militar. O marechal cearense governou de 1964 a 1967.
“No âmbito popular (não me refiro à visão acadêmica), Castello não é lembrado como um ditador da tortura, da perseguição, da morte. O período dele não teve explosões de violência”, diz a socióloga.
“A população não tinha uma relação de amor com ele, como acontecia com Getúlio e Juscelino, mas havia respeito”, afirma. Para ela, os outros presidentes do regime militar não gozavam do mesmo prestígio.
Nomes de pessoas vivas em logradouros são outra curiosidade do levantamento, já que uma lei federal de 1977 vetou essa possibilidade. Como se vê, a determinação nem sempre é respeitada.
Há espaços públicos que homenageiam os ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff e o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva.
Nesse rol dos celebrados em vida em placas pelo país, Sarney é quem lidera, com 126 menções.
METODOLOGIA
A reportagem utilizou a Base de Faces de Logradouros do IBGE, atualizada para o Censo 2022, para chegar a todos os nomes de endereços únicos no Brasil por meio da linguagem de programação Python. A partir do resultado, foi feito o cruzamento com a lista de todos os presidentes que ocuparam o cargo, ainda que interinamente ou em juntas.
Além das correspondências exatas com cada nome completo, também foram filtradas variações de grafia e composições com o cargo. No caso do primeiro presidente da ditadura, por exemplo, foram considerados tanto “Humberto de Alencar Castello Branco” quanto variações como “presidente Castello Branco”, “marechal Castello Branco” ou “Humberto Castelo Branco”.
Foram excluídos casos em que “Castelo Branco” aparece com apenas uma letra “l”, sem patente militar ou título de presidente, já que o nome pode referir-se a uma construção ou a uma cidade de Portugal. Há 742 registros de “Castelo Branco” desconsiderados. Seguindo a mesma lógica, há ainda 187 “Costa e Silva” e 24 “João Figueiredo”, que podem ou não estar relacionadas aos outros dois presidentes do período da ditadura.
Em casos como o de “Juscelino Kubitschek”, apesar de diversas variações de grafia terem sido consideradas, alguns logradouros podem ter ficado de fora devido a erros de digitação na base.
Como os dados do IBGE estão atualizados até 2022, alguns nomes de logradouros podem ter sofrido alterações.
