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Como os escritores estão usando IA para reescrever o amor

Redação by Redação
fevereiro 9, 2026
in Tecnologia
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Como os escritores estão usando IA para reescrever o amor
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Em fevereiro passado, a escritora Coral Hart começou um experimento. Ela passou a usar programas de inteligência artificial para produzir romances rapidamente.

Nos oito meses seguintes, criou 21 pseudônimos e publicou dezenas de romances. No processo, descobriu as limitações de usar chatbots para escrever sobre sexo e amor.

Alguns programas se recusavam a escrever conteúdo explícito, uma violação de suas políticas. Outros, como Grok e NovelAI, produziam cenas de sexo gráficas, mas a consumação frequentemente carecia de nuance emocional e parecia apressada e mecânica. O Claude entregava a prosa mais elegante, mas era péssimo em diálogos sensuais.

“Você vai ter corações disparados e peitos palpitantes e coisas bobas”, disse Hart, que mora na Cidade do Cabo, África do Sul. “No final de toda cena de sexo, todo mundo vai acabar enrolado nos lençóis.”

Os chatbots também eram ruins em construir tensão sexual —por exemplo em tramas de “slow burn”, do tipo “será que vai ou não vai rolar”, que os leitores de romance adoram. Quando instruídos a criar uma cena de amor, os bots geralmente pulavam direto para o clímax narrativo óbvio.

Hart descobriu que o chatbot da Anthropic era o mais versátil e desenvolveu maneiras de contornar o puritanismo do Claude. Entre suas técnicas: alimentar o Claude com comandos muito específicos e uma lista de fetiches, e enfatizar que o sexo não estava ali à toa e era crucial para a trama.

Romancista de longa data que já foi publicada pela Harlequin e Mills & Boon, Hart sempre foi uma escritora rápida. Trabalhando sozinha, ela lançava de 10 a 12 livros por ano sob cinco pseudônimos, além de trabalhos como ghostwriter.

Mas, com a ajuda da IA, Hart consegue publicar livros em um ritmo impressionante. No ano passado, ela produziu mais de 200 romances em uma variedade de subgêneros, de romances sombrios de máfia a histórias doces para adolescentes, e os autopublicou na Amazon. Nenhum foi um grande sucesso, mas coletivamente venderam cerca de 50 mil cópias, rendendo a Hart uma quantia de seis dígitos.

Enquanto conversávamos pelo Zoom, um programa de IA que ela estava rodando absorvia seus prompts e esboço e produzia um romance completo, sobre um fazendeiro que se apaixona por uma garota da cidade fugindo de seu passado. Levou cerca de 45 minutos.

Hart se tornou uma evangelista da IA. Por meio de seu negócio de coaching para autores, Plot Prose, ela ensinou mais de 1,6 mil pessoas a produzir um romance com inteligência artificial, segundo ela. Hart está lançando seu próprio programa de escrita com IA, que pode gerar um livro em menos de uma hora e custa de US$ 80 a US$ 250 por mês.

Mas, quando se trata de seus pseudônimos atuais, Hart não revela seu uso de IA, porque ainda há um forte estigma em torno da tecnologia, disse ela. Coral Hart é um de seus primeiros pseudônimos, agora aposentado, e é o nome que ela usa para ensinar escrita assistida por IA; ela pediu anonimato porque ainda usa seu nome real para alguns projetos de publicação e coaching. Ela teme que revelar seu uso de IA prejudicaria seus negócios nesse trabalho.

Mas ela prevê que as atitudes mudarão em breve e está adicionando três pseudônimos que serão abertamente assistidos por IA, disse ela.

Na visão de Hart, os escritores de romance devem abraçar a inteligência artificial ou ficar para trás.

“Se eu consigo gerar um livro em um dia, e você precisa de seis meses para escrever um livro, quem vai vencer a corrida?”, disse ela.

ROMANCE NA VANGUARDA

Sempre que a indústria editorial é abalada por uma mudança tecnológica, geralmente o gênero romance é atingido primeiro. Escritores de romance são prolíficos, e seus leitores são vorazes, então eles foram os primeiros a adotar serviços de assinatura de e-books, autopublicação, redes sociais e lançamentos em série online.

Romance também é o gênero mais vendido da indústria editorial. Representa mais de 20% de todas as vendas de ficção adulta impressa, segundo a Circana BookScan, e continuou a crescer nos últimos anos, mesmo enquanto as vendas gerais de ficção adulta estagnaram.

O gênero pode ser especialmente vulnerável à disrupção pela IA, por todas as razões pelas quais os leitores o amam. O romance depende de fórmulas narrativas familiares, como a garantia de um final “felizes para sempre”. E os romances são frequentemente construídos em torno de tropos populares —como inimigos que viram amantes ou proximidade forçada— que podem ser alimentados em um chatbot.

A IA continua controversa na comunidade de romance. Um grupo vocal de leitores se opõe ao seu uso e é rápido em denunciar transgressões suspeitas. Um furor eclodiu nas redes sociais no ano passado quando duas autoras de romance publicaram obras com prompts de IA acidentalmente deixados no texto.

“Você é uma oportunista aproveitadora usando uma máquina de roubo”, escreveu a escritora de fantasia Rebecca Crunden em uma mensagem cheia de palavrões no Bluesky.

Muitos leitores parecem compartilhar seu desgosto, disse ela em uma entrevista: “O comentário que eu continuo vendo é: ‘Por que deveríamos pagar por algo que você não se deu ao trabalho de fazer?'”

PREPARANDO AS CENAS

No início de dezembro, Hart acordou pouco antes das 2h da manhã na Cidade do Cabo para dar uma aula sobre como escrever cenas de sexo com inteligência artificial. Cerca de 20 pessoas de todo o mundo se conectaram para o curso: “Escreva Sacanagens Comigo”.

Logo no início, Hart fez uma nota de cautela.

“Se você está esperando uma cena de sexo perfeita da IA no primeiro rascunho, baixe muito suas expectativas”, disse ela, alertando que as restrições “puritanas” que barram material adulto em alguns programas populares de IA representavam um desafio.

Hart compartilhou uma variedade de prompts que podem persuadir um chatbot a deixar de lado suas reservas, como dizer à IA que o sexo era uma parte essencial do arco narrativo.

Prosa estranha ou repetitiva apresentava outra armadilha. Deixados por conta própria, os chatbots recorrem a fraseados estranhos ou eufemísticos, disse Hart, observando que um programa de IA havia recentemente escrito “sua virilidade túrgida” para descrever a ereção de um personagem.

Para evitar que o programa abuse de suas palavras favoritas —incluindo estremecer, desmanchar, enroscar e explodir— Hart recomendou compilar uma “lista de frases cringe” e proibir o chatbot de usá-las.

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TRANSMITINDO INTIMIDADE HUMANA

É impossível medir quantos romances são produzidos com inteligência artificial.

Muitos autores não revelam que usam chatbots, por medo de alienar leitores. Uma pesquisa com mais de 1,2 mil autores de vários gêneros mostrou que cerca de um terço estava usando IA generativa para criar narrativas ou escrever, e a maioria disse que não revelava seu uso de IA aos leitores, segundo o BookBub, um site de descoberta de livros que divulgou a pesquisa em maio passado.

Até alguns autores que se opõem publicamente à tecnologia estão secretamente se inscrevendo nas aulas de Hart, disse ela.

A rápida incursão de histórias geradas por IA está perturbando alguns no mercado de romance. Editoras e autores temem que livros de escritores reais estejam se perdendo no mar de lixo digital, à medida que romances habilitados por IA inundam o mercado.

“Isso entope o ecossistema editorial do qual todos nós dependemos para ganhar a vida”, disse Marie Force, uma romancista best-seller que não usa IA e ficou perturbada ao saber que mais de 80 de seus romances foram usados para treinar o chatbot da Anthropic. “Torna difícil para autores mais novos serem descobertos, porque o pântano está infestado de porcaria.”

Muitos fãs também se incomodam com a noção de histórias de amor geradas por computador.

Zoë Mahler, uma leitora ávida de romance que lidera dois clubes do livro na Ripped Bodice, uma livraria de romance em Nova York, disse que nunca pegaria conscientemente um romance gerado por IA.

“Romance é sobre conexão humana, e não há nada mais humano do que ser vulnerável e se apaixonar”, disse ela. “Por que eu iria querer ler uma história escrita por uma máquina tentando emular isso?”

Mesmo escritores que abraçaram a IA concordam que ela frequentemente é ruim em transmitir intimidade humana.

“Ela não entende a experiência humana”, disse Sonia Rompoti, uma psicóloga que mora em Atenas, Grécia. “Ela vai te dizer, de forma biológica, o que vai onde, mas não vai adicionar nenhuma emoção.”

Rompoti começou a escrever romances com a ajuda de inteligência artificial em 2024, usando o programa Sudowrite. Como mulher plus size, Rompoti queria ver heroínas com corpos maiores com as quais pudesse se identificar na ficção romântica.

A IA turbinou seu processo de escrita, permitindo que ela produzisse 10 romances em pouco mais de um ano.

Mas, embora o programa tenha tornado a escrita mais rápida e fácil, ele era péssimo para descrever uma heroína plus size, talvez porque existam tão poucas na ficção mainstream, base de treinamento de muitos programas de IA. Sempre que a protagonista curvilínea de Rompoti, uma organizadora de eventos chamada Sienna, aparecia em uma cena, a IA constantemente fazia alusão ao seu peso, observando, por exemplo, que uma cadeira rangia quando ela se sentava. “Quando você destaca que alguém é plus size, o programa exagera, e de repente a pessoa fica gigantesca”, disse ela.

Isso era especialmente frustrante nas cenas eróticas, em que a heroína deveria se sentir confiante e sexy. Rompoti acabou revisando essas passagens para fazer sua protagonista parecer uma pessoa real e não uma caricatura, contou.

“As pessoas não leem romances para ver o que os corpos fazem”, disse ela. “Elas leem para se sentirem representadas.”

UMA PRECE ESFARRAPADA

Cenas de sexo geradas por IA tendem a depender de linguagem erótica genérica, com “ondas de êxtase quebrando” sobre todos. Mas às vezes, os chatbots ficam rebuscados e, como escritores humanos, se apaixonam por sua própria prosa floreada.

Em vários romances escritos com programas de IA, uma metáfora peculiar se repete: no auge da paixão, o herói pronuncia o nome de sua amada “como uma prece esfarrapada”.

Em “Bridesmaids & Bourbon”, de Sydney Marsh, a frase aparece quando Beau, o dono rústico e bonito de uma destilaria, e Taylor, uma madrinha estressada, fazem sexo em um gazebo antes do casamento da irmã dela: “‘Taylor…’ Meu nome era uma prece esfarrapada em seus lábios.” Uma variação mais torturada ocorre durante uma cena de sexo em “Flight Path to Forever”, de Dana Winston, um romance sobre uma enfermeira de voo que se apaixona por um piloto de helicóptero de resgate: “Sloane: seu nome saiu esfarrapado, áspero como uma prece.”

Também aparece na série de romances de Rompoti. Em “Curves to Own”, o amante bilionário de Sienna diz o nome dela com reverência: “O nome dela era uma prece esfarrapada em seus lábios. Sienna.” Em uma cena de amor posterior, ele novamente diz o nome dela como “uma prece esfarrapada, um voto desesperado”, e então, em uma leve variação, ele grita o nome dela como “uma prece irregular”. Rompoti não conseguiu lembrar se a IA havia escrito essas linhas ou se ela as havia adicionado durante as revisões, mas acredita que ela mesma as escreveu durante a edição, disse ela.

“Bridesmaids & Bourbon” e “Flight Path to Forever” foram publicados pela Future Fiction Press, uma nova editora que produz romances gerados por IA. Até agora, a editora lançou 19 romances que foram baixados 20 mil vezes.

A escritora Elizabeth Ann West, uma das fundadoras da Future Fiction, que criou a trama de “Bridesmaids and Bourbon”, acredita que o público seria maior se os livros não fossem rotulados como IA. Os romances, que estão disponíveis na Amazon, vêm com um aviso em sua página de produto: “Esta história foi produzida usando ferramentas de IA dirigidas pelo autor”.

“Se você esconde que há IA, vende bem”, disse ela.

West, que também dá aulas sobre como escrever com IA, recebeu reações negativas de opositores da tecnologia, incluindo ameaças de morte ocasionais nas redes sociais. Mas ela acredita que, com o tempo, a ficção gerada por IA se tornará difundida e popular.

“Com o tempo”, disse West, “os leitores não vão se importar”.


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