O documentário “Cafuné”, lançado pelo coletivo de mulheres da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), expõe a urgente necessidade de políticas eficazes para proteger defensoras dos direitos humanos em comunidades tradicionais. A produção, dirigida por Gabriela Barreto, Maryellen Crisóstomo e Nathália Purificação, integra uma iniciativa mais ampla que busca sensibilizar o governo federal e o Congresso Nacional. O título “Cafuné” simboliza a tentativa de oferecer amparo às mulheres que vivem sob ameaça constante, devido a conflitos agrários e à escassez de políticas públicas.
Demanda por Proteção Coletiva
Selma Dealdina, articuladora política da Conaq, destaca que o projeto propõe um plano de proteção e autocuidado de caráter coletivo e comunitário, a ser oficialmente apresentado aos três poderes em maio. A mobilização se intensificou após o brutal assassinato da ativista Maria Bernadete Pacífico, Mãe Bernadete, em agosto de 2023, que gerou profundo temor entre as lideranças. Dados revelam que, entre 2019 e 2024, 26 pessoas de comunidades quilombolas foram assassinadas, sublinhando a gravidade da situação.
A Conaq estima que pelo menos 100 mulheres quilombolas estão atualmente sob ameaça em todo o país. O documentário é parte essencial da estratégia para visibilizar esses riscos. A elaboração do projeto “Cafuné” contou com o apoio do Instituto Ibirapitanga e da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (Aecid).
Vulnerabilidades e Necessidades Multissetoriais
As prioridades do plano “Cafuné” transcendem a segurança pública, englobando a agilização da titulação de territórios, a prevenção de doenças e o suporte à saúde mental. Uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que a população quilombola adulta morre mais por causas evitáveis. Mulheres quilombolas, especificamente, enfrentam taxas de mortalidade 18% maiores por infarto agudo do miocárdio e 38% por derrame, comparadas às demais mulheres. A precariedade das condições de saneamento básico, com 55% sem acesso a água potável e 54% sem rede de esgoto, agrava essa vulnerabilidade.
Compromisso Governamental e Foco na Saúde Mental
Élida Lauris dos Santos, secretária nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, assegura que as demandas das comunidades quilombolas por proteção coletiva estão em sintonia com os planos do governo federal. Ela afirmou que o projeto “Cafuné” converge com o compromisso do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania de combater o feminicídio e a violência contra a mulher, que são prioridades governamentais.
A coordenadora nacional da Conaq, Cida Barbosa, enfatiza que, embora as demandas variem por região, uma urgência transversal é a saúde mental das ativistas quilombolas. A dificuldade de acesso a apoio psicológico adequado representa uma barreira persistente e inaceitável para essas mulheres.


