Flamengo, São Paulo, Cruzeiro, Seleção Brasileira sub-20. O currículo de Ney Franco é extenso e conta com títulos importantes, como Copa do Brasil, CONMEBOL Sul-Americana e até mesmo Mundial sub-20. E prestes a completar 60 anos, o treinador adicionou a sua primeira experiência internacional na carreira, passando pelo Al Hussein, da Jordânia, mas que não acabou da forma esperada.
Mesmo com a chance de terminar a temporada do futebol local dando duas voltas olímpicas, com as possíveis conquistas do Campeonato Jordano e da Copa da Jordânia, o técnico brasileiro acabou desligado do clube. Em entrevista à ESPN, Ney contou os bastidores de sua passagem pelo Mundo Árabe, que apesar dos pesares dos pesares, classifica como positiva.

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Contratado em dezembro de 2025, o comandante brasileiro colocou o Al Hussein na liderança do campeonato nacional, somando nove vitórias, dois empates e apenas uma derrota – com 31 gols marcado e 9 sofridos. Além, claro, de manter a equipe da cidade de Irbid na briga pela copa local. E restando apenas dois jogos para o desfecho da liga – um deles contra o lanterna e já rebaixado, Sama Al Sarhan -, foi demitido do cargo.
Ney Franco revelou não ter entendido os motivos que levaram à sua precoce saída, assim como os próprios jogadores e torcedores do clube, e foi sincero admitir que se sentiu desrespeitado após ser comunicado da decisão através de uma mensagem no celular.
“Estamos procurando uma explicação até agora. Eu, a imprensa local, os torcedores e jogadores do clube também. Eu recebi mensagem dos atletas, ninguém entendendo qual foi o objetivo de mudança do clube, para um treinador que recuperou a equipe dentro de uma competição. Quando eu cheguei, a equipe estava em terceiro, a quatro pontos do líder, e revertemos a situação, passamos para primeiro. Todo mundo foi pego de surpresa, a gente fica tentando entender por que isso aconteceu”, disse o treinador.
“No ano passado aconteceu a mesma coisa, o clube estava liderando a competição, com um ponto na frente faltando três rodadas, e eles optaram trocar o treinador, trouxeram um técnico local e deu certo, foram campeões. Agora aconteceu a mesma coisa, optaram pela minha saída e trouxeram o mesmo treinador. A gente fica procurando explicação para isso depois de tanto tempo que trabalhamos com os atletas, que recuperamos a equipe. Sentimos que foi retirado da gente o direito de darmos uma volta olímpica”, prosseguiu.
“A única justificativa é que eles estão correndo de um pagamento final, temos um bônus por títulos. É pena, fizemos um trabalho muito bonito, eu peguei amor pela torcida, pelos locais, somos muito respeitados na cidade. Agora é aproveitar, o mercado abriu para mim no Mundo Árabe, na Ásia. Agora é dar uma descansada, voltar para o Brasil para remontarmos um novo projeto vitorioso, como foi aqui.”
“Sem dúvidas (me senti desrespeitado). Até a forma de me dispensaram, eu recebi pelo celular uma mensagem do presidente do clube. No início da conversa elogiando o trabalho, inclusive me chamando de ‘irmão’, pelo relacionamento que a gente teve aqui. E depois começa a descrever que ele, juntamente com os diretores, optaram pela troca pela forma que a equipe joga, e a gente não entende. Estamos sendo muito elogiados no país pela forma como a equipe joga, a equipe que mais fez gols na história do campeonato, com a defesa menos vazada e o time jogando com toque de bola, sem chutão. Nos cabe aceitar a decisão tomada e mais lição de vida, mais uma história para contar no mundo do futebol. Temos um controle emocional muito grande, sabemos que outras oportunidades de trabalho vão aparecer e tem que virar esta página, e criar outra história, em outro local.”
Sobre os próximos passos que deseja seguir na carreira, Ney não só citou o Mundo Árabe e a Ásia como opções, mas também até mesmo uma possível volta para a América do Sul, incluindo os países vizinhos ao Brasil, onde já inclusive teve oportunidade de trabalhar no passado, no Atlético Nacional.
“Esta oportunidade que eu tive aqui (na Jordânia) abriu um novo mercado para mim felizmente. Logicamente, com este trabalho, eu me apresento no Mundo Árabe, na Ásia, tenho uma possibilidade real de desenvolvimento de trabalho na América do Sul, em equipes vizinhas do Brasil, o trabalho teve repercussão. A gente faz a carreira através do currículo, mais uma experiência aqui, tomara que a gente possa brevemente estar retornando a uma equipe para desenvolvermos o nosso trabalho”, afirmou.
“O meu currículo é muito bom. Eu já tive uma proposta em 2019 para trabalhar no Atlético Nacional, mas na época eu estava no Goiás, em uma campanha muito boa na Série A, classificamos para a Sul-Americana, e naquela ocasião preferi continuar no Goiás. Mas sempre têm sondagens da Colômbia, até porque eu tenho um histórico por lá, fomos campeões mundiais (sub-20) lá. É um nome bem aceito no país, de vez em quando, tem esta possibilidade. Mas sabemos que a América do Sul é um mercado que se abriu e que não explorávamos, e agora estamos trabalhando esta possibilidade de trabalhar em algum clube da América do Sul.”
‘Susto’ em meio à guerra
Além do inusitado desligamento do Al Hussein, o técnico brasileiro também passou por um outro momento diferente na carreira. Vivenciar de perto uma guerra, inclusive ficando preso em Doha, no Qatar, durante quase uma semana após viagem com o clube jordaniano, em meio ao estopim dos ataques iranianos a uma base em solo qatari.
“Coincidentemente, viajamos à Doha para jogarmos no Qatar, chegamos na sexta-feira à noite, e no sábado pela manhã a guerra começou. E aí sim, foi um momento tenso, que a gente realmente viveu um pouquinho essa guerra de perto. Estávamos até visitando um shopping e começamos a receber alertas no celular que a guerra tinha iniciado, retornamos para o hotel, teríamos um jogo na terça-feira, foi cancelado, e o espaço aéreo foi fechado, então ficamos praticamente uma semana em Doha e ouvimos em alguns momentos barulhos de explosões, mas, felizmente, não tivemos nenhuma visão forte perto da gente. Foi um momento um pouquinho tenso, mas depois de uma semana, conseguimos retornar para a Jordânia”, relatou.
Devido à localização de Irbid, cidade da Jordânia próxima à fronteira com Israel, Ney Franco também vivenciou esta experiência por lá, porém, mais branda. Inclusive, com uma das partidas do Al Hussein precisando ser interrompida após o toque das sirenes, que avisavam sobre o lançamento de mísseis.
“Lá também tinha este sistema de mísseis, principalmente na minha cidade. No primeiro jogo que tivemos do campeonato, quando a sirene tocou o jogo foi interrompido, a gente voltou para o vestiário, mas depois aos poucos, jogávamos mesmo com a sirene tocando e voltou tudo à normalidade. Mas confesso que no início isso mexeu com a gente, mas aos poucos nos adaptamos, os nossos familiares também foram se acalmando.”
Apesar dos momentos de tensão, Ney vivenciou outras experiências. Inclusive, a de comandar no Al Hussein jogadores que devem disputar a Copa do Mundo pela Jordânia. E a ligação com eles foi tão positiva, que além do Brasil, o treinador também revelou que torcerá para o país árabe neste próximo Mundial.
“Eu, como treinador, vou ter uma outra seleção, além da Brasileira, para torcer na Copa do Mundo, que é a Jordânia, você acaba tendo o envolvimento emocional com estes atletas e começa a torcer para estas pessoas. Essa experiência também vai ser bacana, neste momento em que vamos acompanhar a Copa, então eu vou ter jogos do Brasil, estarei sentado na frente da TV, e também os jogos da Jordânia, que quero ver a participação destes atletas que tive a oportunidade de trabalhar aqui na Jordânia.”
Relação com a música e ‘hit’ para o Brasil na Copa
Além do futebol, Ney Franco nunca escondeu ter uma segunda paixão: a música. Rock e MPB estão entre os seus gêneros preferidos, e a relação segue estreita, e vai muito além de “Tava Na Beira do Caos”, composição sua que ficou famosa após tocá-la ao vivo em um programa esportivo na TV brasileira, durante passagem pelo Botafogo.
“A música está no meu dia a dia, o tempo todo estou escutando música, a música me inspira para o meu trabalho, nos meus momentos de lazer, de hobbie. Eu gosto de escrever, gosto de tocar as minhas músicas, aproveito estes momentos ao máximo. Eu adoro MPB, rock, faz parte do meu dia, se tem uma coisa que me emociona na vida, é a música. Eu ainda gosto de escrever, fazer as minhas composições, para mim é um hobbie, faz parte da minha infância e adolescência, como fez parte o futebol. É uma coisa que eu carrego sempre comigo”, confidenciou.
E durante o período na Jordânia, onde não teve a companhia da família, que ficou no Brasil, o treinador compôs até mesmo uma música para embalar a Seleção durante a disputa da Copa do Mundo.
“Eu já fiz várias músicas, músicas minhas com violão, que eu gravo. Inclusive fiz uma música para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo (risos). ‘Vai, Brasil’. Letra minha, violão. Ficou bacana, acho que ficou legal”, finalizou.
