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Home » Starlink no Irã: a rede clandestina que combate o apagão digital | G1
Technology

Starlink no Irã: a rede clandestina que combate o apagão digital | G1

RedaçãoBy Redaçãomaio 5, 2026Nenhum comentário9 Mins Read
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Starlink no Irã: a rede clandestina que combate o apagão digital | G1
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Sahand embala um terminal da Starlink sendo preparado para envio ao Irã
via BBC
“Se uma só pessoa conseguir ter acesso à internet, acho que tivemos sucesso e que valeu a pena”, afirma Sahand.
O iraniano está visivelmente nervoso ao conversar com a BBC, mesmo estando fora do Irã. Ele explica cuidadosamente que faz parte de uma rede de contrabando, que transporta clandestinamente tecnologia de internet via satélite (que é ilegal no Irã) para dentro do país.
🗒️Tem alguma sugestão de reportagem? Mande para o g1
Sahand é um nome fictício. Ele receia pelos seus familiares e outros contatos que estão em território iraniano.
“Se eu for identificado pelo regime iraniano, eles poderão fazer as pessoas com quem tenho contato no Irã pagarem o preço”, explica ele.
Veja os vídeos em alta no g1
Vídeos em alta no g1
O Irã vive um apagão digital há mais de dois meses. O governo do país mantém um dos mais longos bloqueios nacionais de internet já registrados em todo o mundo.
O apagão atual começou após os ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro.
O acesso à internet havia sido parcialmente restaurado apenas um mês antes dos ataques, após outro apagão digital imposto em janeiro, durante a repressão do regime aos protestos que se espalharam pelo país.
Naquela ocasião, mais de 6,5 mil manifestantes foram mortos e 53 mil foram detidos, segundo a Agência de Notícias Ativistas dos Direitos Humanos (HRANA, na sigla em inglês), com sede nos Estados Unidos.
As autoridades afirmam que o governo desligou a internet durante a guerra por razões de segurança, indicando que o objetivo é evitar vigilância, espionagem e ciberataques.
Sem acesso a fontes de informação independentes, os iranianos dependem dos meios de comunicação estatais, administrados pelo regime ou próximos ao governo
AFP via Getty Images
Os aparelhos da Starlink que Sahand envia para o Irã são uma das formas mais confiáveis de escapar do apagão.
Os terminais podem ser acoplados a roteadores e fornecem acesso à internet por conexão com a rede de satélites da empresa SpaceX, de Elon Musk. Eles permitem aos usuários evitar totalmente a internet doméstica iraniana, altamente controlada.
Sahand explica que várias pessoas podem se conectar a cada terminal ao mesmo tempo.
Ele conta que ele e outras pessoas da rede compram os aparelhos e “os contrabandeiam pelas fronteiras” em uma “operação muito complexa”. Mas ele se recusa a fornecer mais detalhes.
Sahand afirma que já enviou uma dúzia de aparelhos para o Irã desde janeiro e “estamos buscando ativamente outras formas de levar mais”.
A organização de defesa dos direitos humanos Witness estimou em janeiro que havia pelo menos 50 mil terminais Starlink no Irã. Mas os ativistas afirmam que o número provavelmente aumentou.
A BBC entrou em contato com a SpaceX para obter mais detalhes sobre o uso da Starlink no país, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
No ano passado, o governo iraniano aprovou leis sujeitando o uso, compra ou venda de aparelhos da Starlink a até dois anos de prisão. E as penas por distribuir ou importar mais de 10 aparelhos podem atingir até 10 anos.
A imprensa afiliada ao Estado iraniano relatou diversos casos de pessoas sendo presas por vender e comprar terminais Starlink, incluindo quatro pessoas (duas delas, estrangeiros) que foram presas no mês passado por “importar equipamento de internet via satélite”.
Os meios de comunicação estatais iranianos também noticiaram que algumas das prisões se referem a acusações de posse ilegal de armas e envio de informações para o inimigo.
Manifestantes em Londres participaram dos protestos reivindicando acesso à internet sem restrições no Irã
SOPA Images/LightRocket via Getty Images/BBC
Mas o mercado para os terminais no Irã persiste, por exemplo, em um canal público do Telegram em idioma persa, chamado NasNet.
Um voluntário de fora do Irã envolvido no canal contou à BBC que foram vendidos cerca de 5 mil terminais Starlink por meio do canal nos últimos dois anos e meio.
O Irã tem um longo histórico de controle da informação, tanto promovendo suas próprias narrativas antiamericanas e anti-israelenses pelos meios de comunicação estatais, quanto restringindo a cobertura das medidas repressivas do regime contra seus críticos.
Durante os protestos de janeiro, mesmo com a internet desligada, houve vazamento de relatos e vídeos de execuções extrajudiciais, prisões e agressões.
As organizações de defesa dos direitos humanos sabem ou acreditam que grande parte dessas informações vieram de pessoas que tiveram acesso às plataformas de redes sociais via Starlink.
O sistema atual de internet do Irã é descrito como sendo “em camadas”.
Todos os iranianos têm acesso a uma rede doméstica controlada pelo Estado. Nela, operam serviços como bancos, transporte e delivery de alimentos, além da imprensa estatal.
Antes dos apagões, os iranianos também tinham acesso à internet global. Mas muitos sites e serviços como o Instagram, Telegram, YouTube e WhatsApp foram bloqueados e o governo criou preços de acesso superiores aos da rede doméstica.
Muitos iranianos contornaram as restrições usando redes privadas virtuais (VPNs, na sigla em inglês), que conectam os usuários aos sites através de servidores remotos, ocultando suas localizações. Mas a assinatura destes serviços também aumentava os custos.
Agora, com o apagão, apenas algumas autoridades selecionadas e outros indivíduos, incluindo os jornalistas que trabalham para a imprensa estatal, têm acesso à internet sem restrições, usando os chamados “cartões SIM brancos”.
Os satélites de propriedade da SpaceX (na foto, sendo transportados por um foguete Falcon 9) são usados pela Starlink para fornecer serviços de internet
Getty Images via BBC
Em 2022, Elon Musk anunciou a ativação da Starlink no Irã após graves cortes na internet, durante os protestos gerados pela morte de uma mulher iraniana em custódia, Mahsa Amini.
Desde então, o uso do serviço aumentou, especialmente durante os apagões.
Agora, com as autoridades em busca cada vez mais dos terminais Starlink, Sahand e sua rede aconselham os usuários a empregar VPNs com a tecnologia via satélite, para permanecerem incógnitos. Mas muitas pessoas não podem pagar por este serviço, especialmente em uma época de crise econômica.
Sahand é uma das três pessoas que declararam à BBC que estão envolvidas no transporte clandestino de aparelhos da Starlink.
Ele conta que a operação da qual ele faz parte, incluindo a compra dos terminais, é financiada por iranianos no exterior e por outras pessoas que querem ajudar a fazer os aparelhos chegarem ao país. Sahand afirma que não recebe fundos de nenhum Estado estrangeiro.
Os terminais são enviados para indivíduos que, segundo eles acreditam, irão usar os aparelhos para compartilhar informações em nível internacional.
“As pessoas precisam da internet para poderem compartilhar o que está acontecendo no país”, explica Sahand. “Acreditamos que estes terminais devem estar nas mãos de quem realmente precisa deles para fazer a mudança.”
Os ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel ao Irã continuaram durante os apagões da internet
EPA/Shutterstock via BBC
Um grupo de defesa dos direitos digitais, que pede para permanecer incógnito, declarou à BBC estimar que pelo menos 100 pessoas tenham sido detidas pela posse dos terminais.
Sahand afirma que também conhece pessoas que foram presas por terem acesso ou possuírem aparelhos, mas nenhuma delas adquiriu dele o terminal.
Yasmin, cidadã americana-iraniana também com nome fictício, contou à BBC que um homem, seu parente, foi preso no Irã e acusado de espionagem por possuir um terminal Starlink.
A BBC perguntou à Embaixada iraniana em Londres por que apenas algumas pessoas têm autorização de acesso à internet no país e por que as penas pelo uso da Starlink são tão severas, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
O governo iraniano reconheceu que o apagão prejudicou muito algumas empresas.
Em janeiro, um ministro declarou que cada dia de apagão da internet custa pelo menos 50 trilhões de rials (US$ 35 milhões, cerca de R$ 175 milhões) para a economia do Irã.
O país lançou recentemente um sistema chamado “Internet Pro”, que oferece acesso parcial à internet global a algumas empresas. Um homem que trabalha para uma companhia iraniana contou à BBC que recebeu acesso por meio desta iniciativa.
A porta-voz do governo iraniano, Fatemeh Mohajerani, declarou que a intenção é “manter a conectividade das empresas durante a crise”.
Ela também afirmou que o governo “se opõe totalmente à injustiça nas comunicações” e que, assim que as condições voltarem ao normal, “a situação da internet também irá se alterar”.
“Os apagões das comunicações são uma clara violação dos direitos humanos e não têm justificativa”, declarou ao Serviço Mundial da BBC, em função do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa (3 de maio), a diretora de defesa e política regional do grupo de defesa dos direitos digitais Access Now, Marwa Fatafta.
Ela alerta que os apagões da internet estão se tornando um “novo normal”.
Segundo a Access Now, houve 313 apagões em 52 países em 2025, o maior número global desde o início do rastreamento, em 2016.
Cidadãos de Mianmar, Índia, Paquistão, Rússia e Irã vivenciaram o maior número de apagões da internet no ano passado, segundo o grupo de defesa dos direitos digitais.
A diretora-executiva do Centro de Direitos Humanos Abdorrahman Boroumand, Roya Boroumand, afirma que o vácuo informativo no Irã “permite que o Estado transmita sua narrativa, retratando os manifestantes como pessoas violentas ou agentes estrangeiros, enquanto suas vítimas, incluindo aquelas sentenciadas à morte, e as fontes de informação permanecem silenciadas”.
Esta é uma motivação importante para Sahand.
“O regime iraniano comprovou que, durante um apagão, eles podem matar”, afirma ele. “É super fundamental para os iranianos poder retratar o quadro real da situação.”
Ele destaca que as pessoas que se apresentam voluntariamente para ajudar no transporte ilegal dos aparelhos “estão conscientes do risco”.
Mas Sahand acrescenta que esta “é uma luta” e que “sentimos que precisamos intervir e ajudar, de alguma forma”.


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