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Home » Sérgio Buarque de Holanda: casa da família em SP ganha exposição | G1
São Paulo

Sérgio Buarque de Holanda: casa da família em SP ganha exposição | G1

RedaçãoBy Redaçãojunho 1, 2026Nenhum comentário8 Mins Read
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Sérgio Buarque de Holanda: casa da família em SP ganha exposição  | G1
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Casarão da família Buarque de Holanda em SP ganha exposição com acervo raro da Unicamp
Um casarão histórico em estilo normando no bairro do Pacaembu, em São Paulo, guarda parte da cultura e da história do Brasil. Foi ali na Rua Buri, número 35, que o historiador Sérgio Buarque de Holanda viveu e criou seus filhos entre 1957 e 1982.
Agora, o endereço serve de cenário para a exposição “A casa do historiador: Sérgio Buarque na Rua Buri”, que revela a intimidade e as relíquias que conectam a capital paulista a Campinas (SP). As visitas são agendadas por e-mail; clique aqui e saiba como fazer.
A iniciativa é uma parceria entre o Arquivo Público do Estado, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e a Unicamp, universidade que guarda e preserva, há mais de 40 anos, o arquivo pessoal e a biblioteca do escritor, adquiridos logo após a morte dele, em 1983.
“A proposta de hoje é fazer essa homenagem. O professor Thiago Nicodemo, diretor do Arquivo do Estado, queria trazer junto à equipe da Secretaria Municipal de Educação uma revitalização desse espaço por meio desse evento, tanto para o público da própria secretaria e professores, quanto para a sociedade em geral”, explica Daniele Thiago Ferreira, coordenadora da Biblioteca de Obras Raras Fausto Castilho (BORA) da Unicamp.
O objetivo do evento e da exposição é movimentar a memória do local para que a história do autor seja visitada por escolas e pelo público.

Livros com grifos e o ‘encontro’ com Antônio Cândido
Para compor a exposição, a Unicamp levou de volta ao endereço original livros repletos de anotações marginais e dedicatórias que revelam grandes amizades da história literária nacional.
“Trouxemos alguns livros que representam um pouco da história do Sérgio Buarque, no sentido de como ele fazia esse trabalho de leitura, com as obras bem anotadas. Uma das que trouxemos foi ‘Parceiros do Rio Bonito’, do Antônio Cândido. Eles dois foram grandes parceiros”, conta Daniele.
A sintonia entre os dois intelectuais continua viva em Campinas. “Na biblioteca [de obras raras], os acervos deles ficam em destaque, alocados um de frente para o outro. Esse livro que trouxemos tem uma dedicatória bem bonita do Antônio Cândido para o Sérgio, e veio o original para compor a exposição”, revela a coordenadora.
Além dos livros, a universidade também enviou de volta a São Paulo parte da “memorabília” do escritor. Objetos pessoais que ficavam na casa e foram transferidos para a Unicamp na década de 1980.
De livro de 800 anos a 1º mapa conhecido do Brasil: os ‘tesouros’ da biblioteca com 100 mil obras raras na Unicamp
Fotos na varanda e versos no chuveiro
Casarão de Sérgio Buarque de Holanda recebe exposição com acervo raro da Unicamp
Estevão Mamédio/g1
Além do peso acadêmico, a residência na Zona Oeste da capital paulista respirava arte. A família passou a morar na Rua Buri em 1957, ano em que o compositor Chico Buarque tinha apenas 13 anos. Ali, ele e as irmãs, as cantoras Ana de Holanda e Miúcha, cresceram convivendo com os maiores nomes da MPB.
O acervo levado para a mostra resgata imagens raras. “Temos fotos com músicos como o Toquinho ali na varanda”, exemplifica Luísa Bragion Moretti, jornalista e difusora de acervos do Sistema de Arquivos (SIARQ) da Unicamp.
“Acredito que a Casa Sérgio é um espaço fundamental da nossa cultura. Diversas figuras centrais, como Fernando Henrique Cardoso, Antônio Cândido, Tarsila do Amaral e Vinicius de Moraes frequentavam esse espaço”, pontua o pós-doutor no Instituto de Estudos Brasileiros da USP Luccas Eduardo Maldonado.
“Dá para imaginar, por exemplo, o Chico Buarque cantando no chuveiro, fazendo os seus primeiros versos nos anos que ele morou aqui na juventude”, diz Maldonado, que é pesquisador da obra do historiador e também servidor do Arquivo Público de São Paulo
Sob a mira da ditadura militar: códigos no telefone
Casarão de Sérgio Buarque de Holanda recebe exposição com acervo raro da Unicamp
Estevão Mamédio/g1
O movimento intelectual e artístico na Rua Buri também incomodava. Durante o regime militar, por ser professor da USP, voz ativa na redemocratização e pai de artistas engajados, Sérgio Buarque virou alvo dos órgãos de repressão.
Documentos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) mantidos no Arquivo do Estado revelam que a rotina da casa era monitorada de perto.
“O Dops frequentemente mantinha uma vigilância. Você pega o prontuário do Sérgio Buarque, pega os dossiês, dá para ver que havia uma atenção para quem vinha aqui. O filho Chico Buarque também foi uma figura profundamente vigiada, a Ana de Holanda também”, revela Maldonado.
A suspeita de grampo telefônico era tamanha que a família precisou adotar estratégias para despistar os militares.
“Eles tinham uma suspeita de que estava grampeado e desenvolviam códigos para se comunicar. Falar do aniversário de alguém era um sinal para ‘ficar atento, algo tá acontecendo'”, conta o pesquisador.
Relatos de testemunhas da época reforçam o clima de tensão. Segundo depoimentos históricos coletados pela Unicamp, viaturas da polícia costumavam ficar paradas de forma ostensiva na porta da residência. Mesmo sob vigilância, Sérgio mantinha-se firme.
Em desabafos resgatados por familiares no fim de sua vida, o historiador dizia que “a história do Brasil ainda precisava ser contada do ponto de vista dos desfavorecidos, daqueles que não eram protagonistas e sequer tidos como cidadãos”.
Manuscritos e o bilhete em um guardanapo
Casarão de Sérgio Buarque de Holanda recebe exposição com acervo raro da Unicamp
Estevão Mamédio/g1
A transferência de todo esse patrimônio para Campinas, logo após a morte do historiador em 1982, é cheia de bastidores curiosos. A primeira impressão dos funcionários ao entrar no casarão na época era a de uma “biblioteca total”, com mais de 8 mil livros espalhados por todos os cômodos.
A doação começou a ser desenhada quando uma bibliotecária da universidade, em um jantar informal com a esposa do cantor João Bosco, soube da proximidade deles com a família do historiador.
A bibliotecária escreveu uma mensagem em um guardanapo de papel manifestando o interesse da Unicamp em acolher e preservar o acervo. O bilhete funcionou e a viúva do escritor, Dona Maria Amélia Buarque de Holanda, aceitou o convite.
“Esse acervo foi sendo adquirido por remessas. A Maria Amélia ocupou um papel protagonista na formação da constituição da memória do marido. Ela levava muitas vezes pessoalmente esse material”, contextualiza Luísa Moretti, do SIARQ.
Maria Amélia é descrita como colaboradora intelectual ativa na produção do marido. Anos antes, ela havia chegado a pilotar um Fusca de São Paulo até Assunção, no Paraguai, enfrentando estradas precárias da época, para pesquisar em arquivos e tomar notas que fundamentaram os trabalhos históricos de Sérgio.
Entre os tesouros guardados na Unicamp hoje estão os originais datilografados de ‘Raízes do Brasil’ e cartas trocadas com Mário de Andrade.
Patrimônio protegido e o direito à memória
Casarão de Sérgio Buarque de Holanda recebe exposição com acervo raro da Unicamp
Estevão Mamédio/g1
O casarão da Rua Buri é tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat).
O tombamento reconhece a residência não apenas pela arquitetura, mas pelo valor imaterial como polo de resistência cultural e berço do pensamento social brasileiro.
Para os pesquisadores, a realização da mostra dentro dessas paredes protegidas pelo patrimônio histórico vai além de uma simples homenagem acadêmica: é um lembrete sobre a necessidade de o país olhar para o próprio passado para conseguir se entender.
“Vale vir aqui para aprender um pouco sobre o direito à literatura que todos nós, como brasileiros, temos direito. E além disso, o direito a conhecer a nossa própria história. O Sérgio Buarque foi uma das pessoas que mais se dedicou integralmente a compreender a nossa história. Conhecer o trabalho dele, conhecer essa casa e tudo isso, é conhecer um pouco de nós mesmos”, diz Lucas Maldonado.
Como consultar o acervo em Campinas?
O fundo de Sérgio Buarque de Holanda é público e está dividido em duas frentes na Unicamp, ambas abertas a pesquisadores e à sociedade mediante agendamento:
Parte Documental (SIARQ): cartas, fichários de pesquisa e fotos. O Sistema de Arquivos está finalizando a digitalização total do fundo. “Hoje nós temos aproximadamente 2,7 mil itens disponíveis na internet em ótima resolução, e até o final do ano vai ter totalmente isso no site do SIARQ”, detalha Luísa Moretti.
Parte Bibliográfica e Objetos (BORA): mais de 8,5 mil livros com grifos e a memorabília do escritor. “Nós temos um trabalho de visitação mediada e consultas que podem ser feitas por agendamento. No portal da biblioteca temos os formulários e contatos”, explica Daniele Ferreira.
Serviço da exposição
O quê: Exposição “A casa do historiador: Sérgio Buarque na Rua Buri”
Onde: Rua Buri, 35 – Pacaembu, São Paulo – SP
Agendamento por e-mail e contato para tirar dúvidas: coped@sme.prefeitura.com.br // (11) 3396-1164
Foto mostra Sérgio Buarque de Holanda com berrante; acervo está exposto em casarão de SP
Estevão Mamédio/g1
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