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Home » Ambiente dos mercados está mais perigoso do que costumava ser, diz Andrew Ross Sorkin
Economia

Ambiente dos mercados está mais perigoso do que costumava ser, diz Andrew Ross Sorkin

RedaçãoBy Redaçãojunho 9, 2026Nenhum comentário8 Mins Read
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Ambiente dos mercados está mais perigoso do que costumava ser, diz Andrew Ross Sorkin
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Andrew Ross Sorkin passou boa parte da carreira observando de perto os momentos mais decisivos — e turbulentos — de Wall Street. Criador da newsletter DealBook, do New York Times, há mais de duas décadas, apresentador da CNBC e cocriador da série Billions, o jornalista se consolidou como uma das principais vozes na cobertura dos mercados financeiros e do poder corporativo nos Estados Unidos. Ele também é o autor de Too Big To Fail, um dos principais registros sobre a crise financeira de 2008 e o colapso do Lehman Brothers.

Agora, Sorkin volta seu olhar para o crash de 1929, momento que transformou a economia americana e deu início à Grande Depressão. Ao reconstruir os acontecimentos que antecederam a quebra da Bolsa de Nova York, o jornalista busca entender como períodos de prosperidade e otimismo podem levar investidores, empresários, reguladores e até a imprensa a ignorar sinais de alerta que, em retrospecto, pareciam evidentes.

Os paralelos com o presente são inevitáveis. Assim como nos anos que antecederam o colapso de 1929, investidores apostam hoje em tecnologias capazes de transformar a economia, enquanto os mercados renovam recordes e atraem volumes crescentes de capital. Mas Sorkin procura ir além dessa comparação mais imediata. Seu foco está nas responsabilidades individuais e coletivas que ajudam a alimentar bolhas financeiras — e nas lições que permanecem válidas independentemente da época, do contexto econômico ou da tecnologia da vez.

Esses temas estão no centro de 1929 – Por dentro da maior crise da história de Wall Street e como ela abalou o mundo, livro lançado nos Estados Unidos em 2025 e que se tornou best-seller do New York Times. A edição brasileira chega às livrarias em 15 de junho, pela Companhia das Letras.

Capa do livro “1929 – Por dentro da maior crise da história de Wall Street – e como ela abalou o mundo” (Divulgação/Companhia das Letras)

Em entrevista ao InfoMoney, Sorkin fala sobre a euforia em torno da inteligência artificial, os riscos de uma nova bolha financeira, o papel da imprensa em momentos de exuberância do mercado e as lições de 1929 para investidores de hoje.

Confira a entrevista:

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InfoMoney: Desde que você lançou o livro, em 2025, muita coisa mudou nos mercados e no mundo, mas os índices continuam renovando recordes. Você acha que os mercados ficaram mais perigosos nos últimos meses?

Andrew Ross Sorkin: Acho que o mercado ficou ainda mais eufórico. A empolgação com IPOs como os da SpaceX, OpenAI e Anthropic capturou a imaginação dos investidores. Os mercados atingiram máximas históricas ao mesmo tempo em que vivemos uma guerra no Oriente Médio, com os preços do petróleo nos níveis mais altos em anos e sem nenhuma perspectiva clara de quando isso vai acabar.

Para mim, existe um descompasso entre todos os riscos existentes e a empolgação do mercado. Quero acreditar que todas essas empresas serão tão bem-sucedidas quanto esperamos que sejam, e que a guerra termine rapidamente — mas o mundo costuma ser muito mais complicado do que isso.

Meu receio é que, em algum momento — e não sei se será este ano, talvez nem no próximo —, algo aconteça. Em um mercado em alta, esse entusiasmo pode durar muitos e muitos anos. Não há motivo para que precise acabar amanhã. Mas, claramente, o ambiente está mais perigoso do que costumava ser.

IM: Usando termos que ouvi em várias entrevistas suas e também no livro: esse ambiente abre espaço para investidores “otimistas” demais?

Sorkin: Acho que uma das coisas que acontecem quando você tem uma arrancada como essa é que ela abafa as “Cassandras” [personagem da mitologia grega que tinha o dom de prever o futuro, mas cujos alertas nunca eram levados a sério]. Os céticos acabam sendo silenciados. E, na verdade, às vezes eles até desistem de ser céticos. Os mercados continuam subindo. E geralmente é quando todo mundo abandona o ceticismo que deveríamos ser ainda mais céticos.

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IM: O livro coloca o National City Bank, o maior banco americano às vésperas do crash de 1929, como uma instituição “grande demais para quebrar”. Hoje, muitos enxergam a Nvidia nesse papel. Com os mega-IPOs em curso, o risco ficou mais distribuído ou continuamos concentrados na mesma aposta: a inteligência artificial?

Sorkin: Acho que, da mesma forma que víamos os grandes bancos como “grandes demais para quebrar” em 2008, as grandes empresas de tecnologia ocupam hoje esse lugar.

Se algum dia houver um problema com uma dessas companhias, consigo imaginar o governo vindo socorrê-las — o governo americano ou até outros governos — porque elas se tornaram tão importantes para a economia global que uma quebra teria consequências muito sérias para todos nós.

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Digo isso porque existe talvez até um “put”, por assim dizer, um mecanismo de proteção para algumas das maiores empresas de tecnologia hoje que antes simplesmente não existia.

Digo isso porque talvez exista até um “put” [uma espécie de garantia implícita de proteção ou socorro em caso de crise] para algumas das maiores empresas de tecnologia. Algo que antes simplesmente não existia.

IM: Muita gente se pergunta se existe uma bolha de IA. É a primeira vez que ouço essa perspectiva de uma espécie de barreira que poderia proteger o mercado de um crash ligado à inteligência artificial.

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Sorkin: Embora eu fale frequentemente sobre crises e me preocupe com o risco de queda, a verdade é que, ao longo dos últimos cem anos, valeu a pena ser otimista. E muito. Mesmo quando houve crises, na maior parte das vezes os investidores que conseguiram permanecer no mercado saíram em melhor situação do outro lado.

Entrevistei Jeff Bezos há duas semanas. Perguntei se ele acreditava que havia uma bolha. Ele basicamente respondeu que bolhas, por si só, não são necessariamente ruins para a humanidade — porque, de certa forma, elas são necessárias.

Você precisa de algum grau de especulação para produzir grandes transformações tecnológicas. É quando as pessoas se dispõem a investir em ideias que, à primeira vista, parecem absurdas, mas acabam mudando o mundo. Quem investiu na Tesla ou na SpaceX há 20 anos parecia, para a maioria das pessoas, ter perdido a cabeça.

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É preciso haver gente disposta a fazer apostas que parecem completamente malucas. O que você não quer é que uma cultura inteira pareça ter enlouquecido e passe a investir sem as devidas proteções e sem nenhum ceticismo.

IM: Você fala do surgimento de revistas como Time e Forbes no período anterior à quebra de 1929 e do status quase de celebridade que os empresários das finanças ganharam naquela época. Como escapar dessa armadilha atualmente?

Sorkin: Penso na minha função como jornalista como a de um cético profissional. Se a classe investidora é formada por “otimistas profissionais”, meu papel é ser o cético profissional — apontar, por exemplo, que a governança da SpaceX é muito diferente da de outras empresas ou destacar aspectos potencialmente problemáticos.

Acho que cabe aos jornalistas levantar perguntas e apontar problemas. Não posso dizer se o público vai valorizar isso ou culpar a imprensa por fazê-lo. Mas, se estivermos desempenhando nosso papel corretamente, estaremos cumprindo nossa função.

A parte difícil é que, muitas vezes, sinto que os leitores não querem ouvir críticas. Não querem ceticismo. Querem torcida. Esse papel cabe aos investidores e analistas apaixonados por determinada empresa. O papel do jornalista é tentar colocar sobre a mesa todas as questões — as boas e as ruins.

IM: Você passou oito anos pesquisando documentos daquela época — atas do Federal Reserve, diários pessoais e outros registros. Houve algo em que você acreditava, mas que os documentos acabaram desmentindo?

Sorkin: O que mais mudou minha percepção — e sobre o qual ainda reflito bastante — foi o seguinte: se você lê os diários de pessoas que perderam fortunas em 1929, percebe que elas frequentemente culpavam a si mesmas. Não culpavam outras pessoas por tê-las levado a maus investimentos ou convencido a entrar no mercado. Diziam: “Cometi um erro. Não deveria ter feito isso”.

Achei isso fascinante porque, na nossa sociedade atual, depois de crises financeiras, todo mundo tende a culpar os outros. Nunca é responsabilidade própria. É sempre culpa de alguém. Isso é muito diferente do que eu imaginava.

Outra coisa: havia muita manipulação naquele período. Pessoas faziam coisas que hoje consideraríamos ilegais — insider trading [uso de informação privilegiada para negociar ações], grupos de investidores se unindo para inflar artificialmente o preço de uma ação e depois vendê-la, deixando os demais investidores com o prejuízo.

Como não havia regras, fui procurar personagens que, mesmo assim, considerassem aquilo imoral. Queria encontrar alguém que dissesse: “Não vou participar disso porque me sinto desconfortável”. Não encontrei ninguém. Isso me faz refletir sobre a importância das leis e das regras. Quando elas não existem, até a percepção das pessoas sobre moralidade muda.

Outras descobertas também me surpreenderam. Eu não sabia, por exemplo, que, ao fim de 1929, o mercado havia caído apenas 17%. E fiquei chocado com a origem da expressão “Grande Depressão”: o presidente [Herbert] Hoover detestava a palavra “pânico” e passou a usar “depressão” por acreditar que soava melhor — o que hoje parece um erro colossal.

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