Devo começar dizendo que sou culpado do mesmo crime que condeno aqui. Talvez crime seja uma definição pesada. Digamos… injúria. Mas a transgressão é a mesma: mentir ou, no mínimo, contar meias verdades sobre sua viagem.
Cheguei ao brilhante documentário “The Spectacle”, de Yasmin van Dorp, que desmascara brilhantemente essa contravenção turística hoje tão comum, a partir dos indicados para o Oscar 2026. Explico.
Com a grande premiação chegando, quis assistir, com a ajuda da internet, a todos os indicados disponíveis. E a lista inclui, claro, os documentários, inclusive em curta-metragem.
Cutucados pela minha curiosidade, os algoritmos me ofereceram outras produções nessa categoria. Some a isso minha história de busca sobre viagens, minha assinatura da The New Yorker e pronto: cheguei ao “Espetáculo” –que faz parte da seleção de documentários da revista.
Dei um clique e levei um tapa na cara. Aliás, um safanão. Em 20 minutos sem narração, “The Spectacle” te oferece apenas uma colagem de imagens de turistas em três destinos superinstagramáveis. Algo que já me fisgou imediatamente.
Porém, a beleza dos lugares –uma pedra suspensa no sul da Noruega; os vilarejos Sámi na Lapônia; balões da Capadócia (Turquia)– é logo ofuscada por ônibus com hordas de turistas que chegam para tirar… a foto perfeita.
Você já viu uma dessas, se não já protagonizou um ou mais registros assim. Pense na Pedra do Telégrafo, no Rio de Janeiro, onde as pessoas parecem sempre desafiar a gravidade. O chão não está tão longe nas imagens que inundam as redes sociais, mas o corte da foto dá a impressão de as pessoas estarem se arriscando num precipício.
No belíssimo cenário na Noruega retratado no documentário, turistas mostram sangue-frio sobre a tal pedra suspensa –até que vemos o punhado de curiosos que esperam sua vez para tirar uma foto “exclusiva”.
Na Capadócia, é preciso astúcia para conseguir uma selfie sem as dezenas de balões que sobem ao mesmo tempo. E a ideia de experiência autêntica é ainda mais irônica numa paisagem de brumas onde os turistas fazem fila para clicar num cantinho isolado.
Como afirmei acima, já trapaceei assim também. Tenho a foto clássica nos Portões do Céu em Bali, na verdade um truque com espelho que os locais usam no celular quando chega sua vez naquela multidão que visita o santuário. E aquele pôr do sol incrível em Uluwatu ou em Tanah Lot, também em Bali? Ah se eu virasse a câmera para o outro lado…
Aquela foto solo no Taj Mahal? Só escolher o ângulo certo. No Cabo da Boa Esperança, África do Sul, não foi fácil esconder as vans de excursão, mas valeu a pena: lá estou eu na foto, impávido como Bartolomeu Dias em 1488.
Nestes tempos de turismo de massa, eu achava que isso era só um pecado menor, perfeitamente desculpável em nome de uma bela imagem. Até eu assistir a “The Spectacle” e me sentir um completo idiota.
Assista você também e tire suas conclusões. Acho que minhas fotos da próxima visita aos templos de Angkor (Camboja), formigueiros de visitantes, não serão mais as mesmas.
Para que serve um bom documentário se não para pensar o mundo de uma maneira diferente?
Que no domingo, a Academia premie os trabalhos que mais chegaram perto desse objetivo. Até lá!
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.




















