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As empresas de tecnologia que defendem ‘escala 996’, com jornadas de 12 horas, 6 dias por semana

Redação by Redação
fevereiro 10, 2026
in Tecnologia
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As empresas de tecnologia que defendem ‘escala 996’, com jornadas de 12 horas, 6 dias por semana
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Existe um website de recrutamento que é bastante animado e repleto de fotografias de jovens profissionais felizes. Pequenos slogans de incentivo ornamentam suas páginas, como “velocidade insana”, “curiosidade infinita” e “obsessão pelo cliente”.

Lendo com um pouco mais de cuidado, encontramos promessas de inúmeros benefícios: salário competitivo, refeições grátis, academia de ginástica sem custo, assistência médica e dentária gratuita e assim por diante.

Mas, em seguida, vem o preço.

Cada anúncio de emprego tem um alerta: “Por favor, não se candidate se você não estiver disposto a… trabalhar cerca de 70 horas por semana, presencialmente, com algumas das pessoas mais ambiciosas de Nova York”.

O website pertence à Rilla, uma empresa de tecnologia sediada em Nova York, nos Estados Unidos. Ela vende sistemas baseados em inteligência artificial (IA), que permitem aos empregadores monitorar vendedores quando estão fora do escritório, interagindo com clientes.

A empresa se tornou um exemplo típico da cultura profissional acelerada conhecida como 996, também chamada de “cultura da agitação”.

Resumidamente, ela premia longas jornadas de trabalho, tipicamente das 9 da manhã às 9 horas da noite, seis dias por semana. Daí a denominação 996.

Para a maioria de nós, seria extenuante. Mas segundo o chefe de crescimento da Rilla, Will Gao, seus 120 funcionários simplesmente não pensam desta forma.

“Procuramos pessoas que sejam como os atletas olímpicos, com características, sabe, de obsessão, ambição infinita”, explica ele. “São pessoas que querem fazer coisas incríveis e se divertem muito fazendo isso.”

Gao defende que as jornadas de trabalho geralmente são longas, mas não há estrutura rígida.

“Se eu, por exemplo, estiver trabalhando em uma superideia, ficarei trabalhando até 2 ou 3 da manhã e depois irei aparecer no dia seguinte ao meio-dia ou perto disso”, explica ele.

Este tipo de horário se tornou extremamente popular no setor de tecnologia nos últimos anos, por uma boa razão.

O desenvolvimento da IA vem ocorrendo em velocidade alucinante. Companhias de todo o mundo procuram desenvolver a todo vapor formas de poder explorá-la e monetizá-la.

Imensos valores estão sendo despejados em empresas relacionadas à IA. Muitas delas são startups.

Mas, entre todos esses ambiciosos empreendedores, existe sempre o temor de que alguém chegue lá primeiro. Por isso, a velocidade é a essência do negócio.

E os profissionais do setor de tecnologia estão sob pressão de trabalhar mais, por mais tempo, para atingir resultados com maior rapidez.

‘PREGUIÇOSOS NÃO SÃO MEUS AMIGOS!’

A cultura 996 ganhou destaque pela primeira vez na China, uma década atrás.

Ela foi adotada por companhias e startups de tecnologia em uma época em que o país se concentrava cada vez mais em deixar de ser o fornecedor mundial de produtos baratos para se tornar líder em tecnologias avançadas.

A cultura teve defensores poderosos, como Jack Ma, o bilionário fundador da gigante do varejo Alibaba.com.

“Pessoalmente, acho que poder trabalhar 996 é uma enorme bênção”, escreveu ele em uma postagem no seu blog para os funcionários.

“Não são apenas os empresários, artistas, cientistas, atletas, autoridades e políticos mais ambiciosos ou bem-sucedidos que trabalham 996 ou mais”, disse ele, em outra postagem.

“Não é porque eles tenham uma perseverança extraordinária, mas porque são profundamente apaixonados pelas carreiras que escolheram.”

Outro entusiasta foi Richard Liu, fundador do colosso do varejo JD.com. Ele chegou a combater o que considerava o declínio da ética profissional no país.

“Os preguiçosos não são meus amigos!”, escreveu ele em 2019, em um controverso e-mail para seus funcionários.

Mas esta postura gerou reação contrária, incluindo uma onda de queixas online de que as companhias estão ignorando as leis trabalhistas e deixando de pagar horas extras, ao mesmo tempo em que forçam os funcionários a trabalhar em excesso.

Em 2021, este coro de desaprovação não pôde mais ser ignorado e gerou a repressão legal por parte das autoridades.

Na China, a escala 996 não desapareceu, mas seus defensores, de forma geral, passaram a ser muito mais discretos.

Uma exceção marcante foi a ex-chefe de relações públicas do Baidu, Qu Jing. Ela postou uma série de vídeos nas redes sociais em 2024, defendendo agressivamente a cultura do trabalho excessivo.

“Não sou sua mãe, só me preocupo com os resultados”, comentou ela.

Este ríspido desprezo pelo bem-estar dos funcionários despertou forte indignação. Ela se desculpou posteriormente, mas o comentário acabou custando seu emprego.

Ainda assim, esta cultura ainda tem defensores em outras partes do mundo. No ano passado, o fundador da gigante indiana do software Infosys, Narayana Murthy, comentou com admiração a adoção da escala 996 pela China.

Em entrevista na TV, ele destacou que “nenhum indivíduo, nenhuma comunidade, nenhum país se desenvolveu sem trabalhar arduamente”.

A CORRIDA DO OURO DA IA

Mas por que a indústria da tecnologia americana decidiu adotar esta tendência?

A precipitada corrida para desenvolver formas de uso da IA, aparentemente, é um fator importante.

“São principalmente companhias de IA”, explica Adrian Kinnersley, responsável por empresas de recrutamento na Europa e na América do Norte.

“São aquelas empresas que têm algum financiamento de risco de capitalistas, que estão em uma corrida para desenvolver seus produtos e levá-los ao mercado antes que alguém o faça. Isso as levou à ideia de que, se você trabalhar por mais horas, irá vencer a corrida.”

Uma dessas startups de IA é administrada pelo jovem empreendedor alemão Magnus Müller. Ele é um dos fundadores da empresa Browser-Use, que desenvolve ferramentas para ajudar as aplicações de IA a interagir com navegadores da web.

Ele mora em uma “casa de hacker”, um espaço de trabalho e moradia compartilhado. Ali, ele e seus colegas trocam ideias constantemente.

Müller acredita que trabalhar por longas jornadas simplesmente faz parte da vida.

“Acho que estamos tentando construir algo difícil”, afirma ele. “Acho que são os problemas que você está tentando resolver, dar à IA essas capacidades adicionais.”

“É superdifícil e muito competitivo. Muitas vezes, o retorno vem quando você simplesmente mergulha muito fundo em um problema… é quando, de repente, acontecem coisas fascinantes.”

Atualmente, a Browser-Use tem apenas sete funcionários, mas está contratando mais.

Müller conta que está procurando pessoas com mentalidade igual à sua. Alguém que queira trabalhar 40 horas por semana, por exemplo, dificilmente irá se encaixar.

“Realmente, procuramos pessoas que sejam simplesmente viciadas, que adorem o que estão fazendo”, destaca ele.

“É como jogar, sabe? É como se você fosse viciado em jogos… para nós, na verdade, não parece trabalho. Nós simplesmente fazemos o que amamos.”

Mas outros discordam deste posicionamento. Deedy Das é sócio da Menlo Ventures, uma empresa de capital de risco que investe há cerca de 50 anos em empresas de tecnologia.

Ele acha que o erro mais comum dos jovens empreendedores é insistir que seus funcionários trabalhem em horários similares à escala 996.

“Acho que o erro dos jovens empreendedores é que eles observam as horas trabalhadas, por si só, como necessárias e suficientes para se acharem produtivos”, afirma ele. “É aqui que mora a falácia.”

“Forçar seus funcionários a vir e se afobar no trabalho é uma consequência dessa mentalidade.”

Ele acha que esta postura pode alienar os funcionários que têm famílias e os mais velhos e experientes, que “realmente podem trabalhar muito menos e atingir muito mais porque sabem o que estão fazendo”.

Para Das, longas jornadas contínuas irão gerar burnout a longo prazo.

Mas ele concorda que, para os empreendedores, que estão mergulhados no jogo e podem se tornar muito ricos se sua empresa tiver sucesso, as regras são diferentes.

“Sinceramente, eu ficaria muito surpreso se o fundador de uma empresa não estiver trabalhando 70-80 horas por semana”, afirma Das.

“Posso dizer pessoalmente… se estou investindo em um empreendedor em estágio inicial, se ele não estiver trabalhando 70-80 horas por semana, provavelmente não é um grande investimento.”

A acadêmica e escritora Tamara Myles, especializada na cultura dos ambientes de trabalho, afirma que a cultura da agitação é insustentável, especialmente se as pessoas se sentirem forçadas a trabalhar o tempo todo. Mas ela reconhece que existem áreas cinza.

“Aqui, o detalhe é que muitas empresas de tecnologia que adotaram essa cultura 996, na verdade, não estão escondendo isso, estão anunciando”, afirma ela. “Elas estão vendendo a cultura quase como uma medalha de honra ao mérito.”

Mas isso não significa que todos os que concordam em trabalhar desta forma queiram realmente adotar a escala 996.

“Você pode ficar porque o mercado de trabalho está difícil no momento ou você pode estar aqui para obter um visto e depende do emprego. Ou seja, pode haver em jogo uma dinâmica de poder.”

RISCOS À SAÚDE

As pessoas que decidem trabalhar por longas horas podem pagar um preço alto por isso. E a preocupação com os impactos à saúde das longas horas de trabalho certamente não é novidade.

O Japão tem uma cultura de trabalho árduo estabelecida há muito tempo. Os assalariados do país ajudaram notoriamente a economia do pós-guerra com sua total dedicação aos seus empregadores.

Existe até uma palavra para isso em japonês: Karōshi. Ela designa a morte por excesso de trabalho e designa principalmente os AVCs e ataques cardíacos sofridos pelas pessoas que trabalham por longas horas.

Já Karōjisatsu indica pessoas que tiram ou tentam tirar a própria vida devido ao estresse no ambiente de trabalho. Estas duas situações são previstas na legislação japonesa. Teoricamente, as famílias afetadas têm direito a uma indenização do governo. Mas, na prática, é difícil comprovar que a morte se deveu ao excesso de trabalho.

Paralelamente, um estudo publicado em 2021 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) concluiu que longas jornadas de trabalho (definidas como mais de 55 horas por semana) geraram 745 mil mortes por AVC e doenças cardíacas em todo o mundo, em 2016.

A pesquisa concluiu que trabalhar 55 horas por semana ou mais aumenta o risco de morte por doenças do coração em 17%, em comparação com jornadas de 35-40 horas semanais. E o risco de AVC aumenta em 35%.

O LIMITE DA PRODUTIVIDADE

E existe a questão da produtividade —definida, de forma geral, como a quantidade de trabalho realizado por hora.

Estudos demonstram que, quando aumentam as horas trabalhadas, a produtividade inicialmente cresce. Mas, depois de se atingir um limite, ela começa a cair devido à crescente exaustão física e mental.

Considera-se geralmente como “ponto de equilíbrio” uma jornada semanal de 40 horas.

Um estudo recente afirma que “com cerca de 40 horas por semana de trabalho de cinco dias, os trabalhadores aparentemente conseguem manter razoavelmente bem a sua produtividade”.

“Mas, quando os indivíduos ultrapassam esse limite e praticam jornadas mais longas, seu desempenho no trabalho diminui gradualmente, devido à maior fadiga e à falta de cuidado com a saúde.”

Em outras palavras, quando este limite é atingido, o rendimento adicional por hora de trabalho começa a diminuir.

Ainda assim, as empresas sempre terão a tentação de empregar menos pessoas e fazer com que elas trabalhem por mais tempo. Afinal, cada funcionário adicional vem com um custo: eles precisam ser recrutados, treinados (se necessário) e pagos.

Mas as pesquisas indicam que o tiro pode sair pela culatra.

Segundo a Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, a produtividade pode cair tanto que “um funcionário trabalhando 70 horas por semana quase não apresenta diferença de rendimento em relação a outro funcionário que trabalhe 50 horas por semana”.

Este conceito não é novo. Um século atrás, Henry Ford (1863-1947) ofereceu um exemplo que seria seguido por outros industriais importantes. Ele reduziu os horários de trabalho dos funcionários das suas fábricas de automóveis, adotando a semana de trabalho de 40 horas, ao longo de cinco dias.

No Brasil, tramita atualmente no Congresso uma proposta de emenda constitucional (PEC) sobre o fim da escala de seis dias de trabalho por um dia de descanso —conhecida como escala 6×1— e a redução da jornada de trabalho das atuais 44 para 36 horas semanais.

Em dezembro, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou a proposta, que deverá seguir para o plenário da Casa. Dali, ela vai para a Câmara dos Deputados e para posterior sanção ou veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

SEMANAS DE 100 HORAS

No Reino Unido, há quem acredite que as empresas do país poderiam utilizar o mesmo conceito adotado pelas empresas de tecnologia americanas.

O ex-CEO e um dos fundadores da empresa BrewDog, James Watt, é um exemplo. Ele postou um vídeo que foi amplamente compartilhado na internet, dizendo: “Acho que o conceito de equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho foi inventado por pessoas que odeiam seus empregos. Por isso, se você adora o que faz, você não precisa de equilíbrio, mas de integração entre a vida pessoal e o trabalho”.

Em seguida, ele indica um estudo realizado por acadêmicos do King’s College de Londres, demostrando que os britânicos são os que menos acreditam que o trabalho deva sempre vir em primeiro lugar.

Watt declarou que o Reino Unindo é “um dos países menos voltados ao trabalho”.

Em um documentário da BBC, em 2022 (em inglês), Watt foi acusado de comportamento inadequado e abuso de poder no ambiente de trabalho. Ele pediu desculpas a todos os que se sentiram desconfortáveis com o seu comportamento, mas apontou “rumores falsos e desinformação”.

O novo executivo-chefe da BrewDog, James Taylor, declarou no ano passado que a empresa “deixou para trás” suas controvérsias do passado.

A jornada 996 parece muito familiar para algumas pessoas no Reino Unido. Aqui, os empregos nos grandes escritórios de advocacia pagam altos salários, mas podem exigir longas jornadas de trabalho.

Uma pesquisa realizada no ano passado pelo website Legal Cheek indica que não é incomum que o dia normal de trabalho atinja 12 horas ou mais.

Os bancos de investimentos —onde operam os bastidores do setor financeiro, em busca de fusões, aquisições e emissão de ações— também é conhecido pelas longas jornadas de trabalho.

Fontes do setor indicam que 65 a 70 horas de trabalho por semana são relativamente comuns, podendo atingir 100 horas quando estiver sendo finalizado um acordo importante.

‘TRABALHO MAIS INTELIGENTE’?

Mas a legislação permite esta prática?

Em termos de regulamentação de horários de trabalho, as leis britânicas estabelecem que a maioria dos profissionais não deve trabalhar, em média, por mais de 48 horas semanais.

Mas as pessoas podem decidir trabalhar por mais tempo, se assim desejarem. Por isso, a escala 996 é permitida, com o consentimento do funcionário.

Mas o chefe de políticas públicas da associação de profissionais de recursos humanos CIPD, Ben Wilmott, acredita que não se deve acreditar que trabalhar por mais tempo traz melhor desempenho profissional.

“Não parece haver nenhuma correlação entre trabalhar por muitas horas e produtividade”, afirma ele.

“Existem boas evidências de que há riscos de problemas de saúde, se você trabalhar por longas jornadas… existe maior risco de AVC e doenças cardíacas.”

“Por isso, acho que o foco deve ser em trabalhar de forma mais inteligente, não por mais tempo… com aumento da capacidade de gestão, adoção de tecnologia e adoção de IA para aumentar a produtividade, sem se concentrar na ampliação da jornada de trabalho”, destaca Wilmott.

Ativistas acreditam que o Reino Unido pode realmente se beneficiar da redução da jornada de trabalho e da adoção da semana de quatro dias.

Eles indicam os resultados de um projeto-piloto realizado em 2022. Nele, 61 organizações concordaram em reduzir as horas trabalhadas de todos os funcionários por seis meses, sem diminuição de salário.

O estudo concluiu que a medida reduziu significativamente o estresse e as doenças entre os funcionários. E também ajudou as empresas a reter talentos, sem perder a produtividade.

O especialista em recrutamento Adrian Kinnersley acredita que o entusiasmo atual pela jornada 996 ainda está restrito, em grande parte, ao setor de tecnologia —e por uma boa razão, que é a competitividade.

“Podemos discutir se é necessário trabalhar 80 horas por semana, mas acho que você enfrentaria dificuldades para competir no ambiente atual com uma cultura mais flexível, de 35 horas semanais”, defende ele.

Para Magnus Müller, o fundador da Browser-Use, a sua jornada de trabalho e dos seus parceiros do Vale do Silício, na verdade, não são nada surpreendentes.

“Sou de uma minúscula aldeia no sul da Alemanha”, ele conta.

“Ali, os agricultores se levantam às cinco da manhã todos os dias e trabalham mais de 12 horas diariamente, sete dias por semana. E não têm feriados, ou talvez apenas dois ou três dias, quando conseguem alguém para cuidar das vacas.”

“Por isso, acho que existem muitos setores em que as pessoas têm empregos muito mais rigorosos, com dificuldades muito maiores e trabalham muito mais do que nós”, defende ele.

“Eu diria que o que estamos fazendo, em comparação com eles, parece mais o jardim da infância.”

Este texto foi publicado originalmente aqui.


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