Na Austrália, surfistas passaram a aplicar adesivos que imitam grandes olhos na parte inferior das pranchas como uma possível forma de reduzir encontros perigosos com tubarões. A ideia deu origem ao Shark Eyes, recurso visual criado pelo surfista e mergulhador Shanan Worrall para fazer o predador acreditar que foi percebido antes de iniciar uma aproximação.

Como funcionam os olhos colocados embaixo da prancha?
Os adesivos são instalados na área da prancha que permanece voltada para o fundo do mar. Dessa forma, um tubarão que se aproxima por baixo encontra duas figuras grandes e contrastantes que simulam um olhar direcionado a ele.
A proposta utiliza a biomimética, isto é, adapta uma estratégia encontrada na natureza para solucionar um problema humano. Manchas semelhantes a olhos aparecem em peixes, borboletas e outros animais, podendo confundir predadores ou alterar a direção de um ataque.
- Os desenhos precisam ficar visíveis na parte inferior da prancha;
- O contraste ajuda o padrão a ser percebido dentro da água;
- O material é produzido para resistir ao contato com água salgada;
- A técnica não utiliza produtos químicos nem eletricidade;
- Os adesivos também são aplicados em equipamentos de mergulho e caiaques.
Por que um tubarão desistiria ao perceber que foi visto?
O princípio está relacionado ao comportamento de predadores de emboscada. O tubarão-branco pode se aproximar de uma possível presa por baixo, aproveitando o contraste entre a silhueta escura e a superfície iluminada. Quando acredita ter sido percebido, o animal pode perder o elemento surpresa e buscar outra oportunidade. Essa é a teoria apresentada pelo projeto australiano Shark Eyes.
O contato visual já foi associado a mudanças no comportamento de outros predadores, como grandes felinos e aves. No entanto, cada espécie reage de forma própria, e a resposta observada em um animal terrestre não comprova automaticamente que todos os tubarões serão afastados pelo mesmo estímulo.
Quem criou o Shark Eyes na Austrália?
O recurso foi desenvolvido por Shanan Worrall, surfista de ondas grandes, mergulhador de apneia e profissional ligado à coleta de abalone. Reportagens sobre sua trajetória relatam que ele esteve envolvido em três episódios relacionados a ataques de tubarão, incluindo um caso fatal com um amigo, e passou meses afastado da água após desenvolver estresse pós-traumático.
Ao retornar ao oceano, Worrall começou a testar olhos grandes em roupas e equipamentos de mergulho, baseado em relatos de profissionais que observavam mudanças no comportamento dos tubarões quando mantinham o animal em seu campo de visão. O conceito foi posteriormente adaptado para adesivos destinados às pranchas.
Quais cuidados continuam necessários mesmo com os adesivos?
Os olhos artificiais devem ser tratados como uma camada complementar de precaução. Um caso registrado na Austrália, em que um tubarão-branco partiu a prancha de um surfista ao meio, mostra como uma aproximação pode acontecer rapidamente e com grande força.
Para diminuir a exposição ao risco, continuam importantes medidas como:
- Respeitar interdições, bandeiras e avisos das autoridades locais;
- Evitar entrar na água quando houver avistamentos recentes;
- Não permanecer perto de cardumes, animais mortos ou áreas de pesca;
- Preferir locais acompanhados por salva-vidas e monitoramento aéreo;
- Sair da água com calma ao perceber comportamento incomum da fauna;
- Evitar confiar exclusivamente em qualquer dispositivo repelente.
Os adesivos podem ajudar, mas não oferecem proteção garantida
A hipótese que sustenta o Shark Eyes é biologicamente plausível, mas ainda existem poucas pesquisas independentes capazes de medir sua eficácia em ataques reais. Especialistas observam que padrões visuais podem produzir respostas diferentes conforme a espécie, a distância, a visibilidade da água e o estágio da aproximação. Também não existe repelente pessoal capaz de eliminar completamente o risco.
Por isso, os olhos na prancha não devem criar uma sensação de segurança absoluta nem substituir monitoramento, informação e decisões prudentes. A iniciativa australiana mostra como o conhecimento sobre o comportamento dos predadores pode inspirar soluções simples e não letais, mas sua utilidade precisa continuar sendo avaliada por estudos controlados e independentes.