O primeiro artigo assinado que fiz sobre teatro, em 1957, comparava Cacilda Becker a Sarah Bernhardt e Fernanda Montenegro a Eleonora Duse, como foram vistas por Bernard Shaw. Parafraseei. Cacilda, de saudosa memória, um clichê que não cansa, era sempre ela própria, mas com momentos de gênio criador únicos em nosso teatro. Basta lembrar quando, dopada de heroína em Longa Jornada de um Dia para Dentro de Noite, de O’Neil, procurava a companhia da empregada (Kleber Fernandes). A solidão humana estava ali, em síntese, para nós, felizardos, que estávamos vivos para vê-la. Já Fernanda, como Duse, faz a personagem completa, seja a solteirona vocacional de A Profissão da Sra. Warren, de Shaw, aos Feydeaus hilariantes e aos Pirandellos a que ela deu vida em Vestir os Nus, em tantas peças que até me é difícil lembrá-las. Lembro-me de uma noite, de que Fernanda não sabe, que discuti horas com minha velha amiga Bárbara Heliodora, também crítica de teatro, sobre um prêmio, que Fernanda terminou levando depois que dei uma de deputado baiano, mais uma vez até deputado baiano acerta (…), dizendo que precisávamos preservar este, Fernanda, o maior patrimônio nacional do nosso teatro. Ela é tão bacana como pessoa que deve esconder horrores, diz meu ceticismo. Não, talvez seja a exceção que confirma a regra. Conhecê-la é amá-la. Castamente, castamente. Vê-la no palco é garantir que pode haver teatro no Brasil.




















