Durante o Acampamento Terra Livre (ATL) em Brasília, o artesão Tapurumã Pataxó, do povo Pataxó, alertou sobre o impacto do desmatamento na produção de cocares ancestrais. A diminuição da população de aves, como maritacas e araras, nos territórios indígenas ameaça a continuidade dessa prática cultural vital.
Ameaças aos Territórios e à Biodiversidade
Lideranças indígenas denunciam que a crescente escassez de aves resulta de desmatamento, queimadas e uso indiscriminado de agrotóxicos por invasores e grileiros. Esse cenário afeta diretamente a disponibilidade de penas, matéria-prima essencial para os cocares.
O Alerta de Tapurumã Pataxó
Tapurumã Pataxó, da Aldeia Barra Velha (Porto Seguro, BA), lamenta a destruição ambiental que se estende para além dos territórios indígenas, ressaltando que o desmatamento ocorre desde 1500. Ele recorda a abundância de araras em sua infância e menciona que a comunidade busca reintroduzir aves no ecossistema através de projetos ambientais. Os artesãos utilizam exclusivamente penas que caem naturalmente dos animais, método cada vez mais desafiador devido às queimadas criminosas.
A Busca por Penas: Um Sinal de Desespero
Ahnã Pataxó, da Aldeia Velha (Porto Seguro, BA), revela que a carência de penas a leva a recorrer a zoológicos. Ela expressa profunda tristeza ao constatar que animais antes livres agora estão em cativeiro por causa da destruição ambiental. Espécies como o gavião real, a arara e o papagaio, outrora comuns, estão se tornando raras, exigindo ações urgentes de conscientização ambiental.
Impacto das Mudanças Climáticas
Keno Fulni-ô, de uma aldeia em Águas Belas (PE), observa que as mudanças climáticas alteram o comportamento das aves, como gaviões, caracarás, garças e anus. Em eventos como o ATL, artesãos trocam penas, considerando a diversidade de aves em cada habitat e a resiliência variada das espécies aos impactos ambientais.
O Profundo Significado Cultural dos Cocares
Os cocares transcendem a função de adorno, representando um elemento central da identidade e da resistência dos povos indígenas, carregando um simbolismo multifacetado que se manifesta em diversas esferas da vida comunitária.
Identidade, Proteção e Luta
Tapurumã Pataxó enfatiza que o cocar simboliza a resistência do seu povo, oferecendo proteção e força na luta por direitos, educação e demarcação territorial. Ele solicita aos não-indígenas que adquiram a peça que a tratem com respeito, emoldurando-a, em vez de usá-la de forma inadequada, como um adereço.
Símbolo de Aliança e Unidade
Ahnã Pataxó descreve o cocar como um símbolo de aliança em casamentos tradicionais, substituindo anéis de metal. A costura das penas representa a união do povo. Keno Fulni-ô reforça o pedido por respeito, instando os não-indígenas a não usarem os cocares em contextos desrespeitosos, como festas ou carnaval.
A Arte da Confecção e Sua Transmissão Geracional
A união do povo Fulni-ô facilitou a transmissão da arte de fazer cocares, como exemplificado por Aalôa, de 21 anos, da mesma aldeia em Águas Belas, que aprendeu a técnica aos 14. Sua habilidade na confecção de peças, como um cocar de penas de papagaio, que pode ser finalizado em menos de 30 minutos, é admirada. O processo envolve limpeza, tingimento e costura meticulosa das penas. Para Aalôa, a confecção é uma forma de relaxamento e uma maneira de dar voz ao seu povo, reforçando o sentimento de pertencer a uma só família.

















