A minha avó materna teve duas filhas. Em 2026, esse número soa até alto, dado que a taxa de fecundidade no país está em torno de 1,55, segundo dados do Censo brasileiro de 2022. A questão é que a minha avó deu à luz na década de 1940 do século passado, quando a taxa de fecundidade era muito maior, com mais de seis nascimentos por mulher. O que leva as mulheres a não ter filhos ou a decidir ter um ou mais filhos?
As explicações são diversas e variam entre países. No artigo “Understanding Latin America’s Fertility Decline: Age, Education and Cohort Dynamics” (Entendendo o declínio da fecundidade na América Latina: idade, educação e dinâmica geracional), escrito por Milagros Onofri, Inés Berniell, Raquel Fernández e Azul Menduiña, as autoras argumentam que a tradicional discussão —associada ao Nobel de Economia Gary Becker— sobre o dilema entre ter mais filhos ou investir mais na educação e no desenvolvimento de cada um (quantidade x qualidade) pode ter perdido espaço para a perspectiva mais recente de Claudia Goldin, também laureada pelo prêmio.
O conflito entre carreira e família, a busca por trabalhos mais ambiciosos e jornadas mais longas, além da sobrecarga feminina nos cuidados, ajudam a explicar a queda da fecundidade nas últimas seis décadas.
No artigo, as autoras analisam a queda da taxa de fecundidade em diversos países da América Latina, incluindo o Brasil. Uma das evidências é a redução dos nascimentos entre as coortes mais jovens, como adolescentes e mulheres de até 24 anos. Segundo o IBGE, em 2022, a idade média em que as mulheres brasileiras têm filhos foi de 28,1 anos.
De acordo com os dados harmonizados das Perspectivas da População Mundial das Nações Unidas, utilizados pelas autoras, entre 2000 e 2022, a redução de filhos entre as mulheres com menos de 30 anos explica a maior parte da queda na taxa de fecundidade no Brasil, sendo o grupo de 20 a 24 anos o que mais contribuiu, responsável por 39% da redução total nesse período, seguido por 28% atribuídos às mães adolescentes entre 15 e 19 anos. O mesmo padrão é observado em diversos países latino-americanos analisados no estudo.
A composição etária, no entanto, não conta toda a história. O artigo também analisa a relação entre a queda da taxa de fecundidade e o nível de escolaridade das mães, utilizando dados de censos ou de estatísticas vitais. O Brasil, por causa do atraso no acesso aos microdados do Censo de 2022, que, até o momento não foram divulgados, não entra na análise.
Entre os países analisados estão os Estados Unidos, Chile, Panamá, México, Costa Rica, Colômbia e Argentina. Somente na Costa Rica há aumento nos nascimentos por 1.000 mulheres com ensino superior. Em todos os demais países e faixas de escolaridade, há uma queda nos nascimentos por 1.000 mulheres, especialmente entre as de menor escolaridade.
Por fim, para tentar compreender os efeitos comportamentais de longo prazo, as autoras utilizam dados de mulheres com ciclo de fecundidade completo, provenientes de coortes que nasceram entre meados dos anos 1950 e 1970.
Os resultados mostram que sucessivas coortes de mulheres na região tiveram, em média, menos filhos. Isso significa que a queda da fecundidade que observamos não se limita a um adiamento dos nascimentos e sugere quedas que persistem entre diferentes coortes.
No Brasil, mulheres nascidas em meados dos anos 1950 tiveram, em média, mais de três filhos, enquanto, na geração de 1979–1983, menos de dois. Assim, entender por que as mulheres, em sucessivas gerações, estão optando por ter menos filhos é fundamental para pensar políticas públicas de cuidado, de mercado de trabalho e de previdência.
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