O Bitcoin (BTC) entrou em junho no pior momento do ano. Depois de recuar 3,5% em maio e fechar o mês próximo de US$ 73.500, a criptomoeda aprofundou a queda já nos primeiros dias de junho e passou a operar abaixo de US$ 70 mil. Por volta das 1h desta terça-feira (2), a criptomoeda era negociada a US$ 67.700, o menor preço desde a primeira semana de abril, acumulando perda de 22% no ano.
O recuo de maio não veio do nada. Ao longo do mês, os ETFs de Bitcoin nos Estados Unidos registraram saídas líquidas em 11 sessões consecutivas a partir de 15 de maio, totalizando cerca de US$ 3,45 bilhões até segunda-feira (1º), segundo estimativas do JPMorgan. Trata-se da maior e mais longa sequência de resgates desde o lançamento dos fundos em janeiro de 2024, superando o recorde anterior de oito pregões negativos registrado em fevereiro de 2025. Apenas na última sessão, os investidores retiraram US$ 484 milhões, com o IBIT, da BlackRock, respondendo por cerca de 91% do total.
No cenário externo, a situação no Oriente Médio pesou sobre o apetite a risco ao longo do mês. Com a alta permanente do petróleo, o mercado de juros passou a precificar com maior probabilidade ao menos mais uma alta de 25 pontos-base pelo Federal Reserve ao longo de 2026, cenário que historicamente reduz o apetite por ativos de risco como criptomoedas.
Oportunidade com segurança!
O gatilho mais recente para a queda foi a divulgação, na segunda-feira, de que a Strategy (MSTR) vendeu 32 Bitcoins entre 26 e 31 de maio por US$ 2,5 milhões, a um preço médio de US$ 77.135, para cobrir distribuições a detentores de ações preferenciais. A operação representa uma fração ínfima dos mais de 843.700 Bitcoins ainda em carteira da companhia, e analistas de Wall Street foram unânimes em classificá-la como economicamente irrelevante para a tese de acumulação da empresa. Ainda assim, o efeito psicológico foi imediato.
“Michael [Saylor] disse que planejava vender Bitcoin, então está cumprindo o que havia dito”, afirmou Tom Lee, presidente da Bitmine, em entrevista ao CoinDesk. “No fim das contas, ele ainda tem 99,99% dos seus Bitcoins e só ganha dinheiro se o Bitcoin subir.”
Até onde queda pode ir?
Para a consultoria Vault Capital, a venda da Strategy amplificou uma fragilidade que já existia. Em análise distribuída nesta terça, a casa destacou que o movimento acelerou a liquidação de posições compradas alavancadas, mecanismo de long squeeze que já havia sido sinalizado como risco. Com a perda do suporte de US$ 72 mil e do nível de US$ 70.800, a consultoria projeta que o próximo alvo relevante é o cluster entre US$ 65 mil e US$ 68 mil, região onde espera uma reação mais expressiva dos compradores.
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As perspectivas para o curto prazo seguem divididas. Tom Lee enquadra o momento atual como comportamento típico de fundo de ciclo. “É o que se espera no fundo. As pessoas vendem no fundo, certo?”, disse o executivo, acrescentando que os planos de acumulação da Bitmine permanecem inalterados.
A casa de análise quantitativa CryptoQuant, por sua vez, alertou em seu relatório semanal que a acumulação por ETFs e tesourarias corporativas desacelerou de forma significativa nos últimos meses, o que pode indicar enfraquecimento de uma das principais fontes de demanda que sustentou a alta anterior. Do lado positivo, dados apontam que investidores de longo prazo seguem comprando: cerca de 2.600 Bitcoins foram adicionados por detentores de longo prazo, movimento que se repete há aproximadamente três meses e meio.
Ethereum pode finalmente andar?
Outro tema que começa a ganhar espaço entre gestores é a migração de fluxo do Bitcoin para o Ethereum (ETH). Geoff Kendrick, chefe de pesquisa de ativos digitais do Standard Chartered, destacou em nota a clientes que o ETH superou o Bitcoin no pregão em que a venda da Strategy foi anunciada e acumulou alta de 5% em relação ao Bitcoin desde então. “Vejo esse momento como o início da superperformance do ETH em relação ao BTC”, escreveu Kendrick, que mantém preço-alvo de US$ 4.000 para o ETH até o fim de 2026.
O banco britânico argumenta que, enquanto o modelo das tesourarias de Bitcoin depende de valorização do ativo e de captações no mercado de capitais para honrar obrigações, o Ethereum pode ser colocado em staking para gerar renda de cerca de 3% ao ano, reduzindo a necessidade de liquidar posições para cobrir despesas.
Por ora, o Bitcoin segue sem catalisador claro de reversão, com ETFs ainda em modo de resgate e o cenário macro pressionado. Os próximos dias, segundo analistas, serão decisivos para avaliar se a correção será absorvida ou se a deterioração geopolítica e inflacionária continuará pesando sobre os ativos digitais.
