O 9 de julho é um feriado estadual em São Paulo desde 1997, marcando a Revolução Constitucionalista de 1932. Este movimento representou um levante militar do estado contra o governo provisório de Getúlio Vargas. Para historiadores, a consagração da data reflete o crescimento e a transformação da identidade paulista.
As Origens da Insatisfação Paulista
A insatisfação paulista emergiu após a Revolução de 1930, que destituiu Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes, candidato apoiado pelas elites locais. O governo de Getúlio Vargas, que assumiu o poder, encerrou a Política do Café com Leite, isolando as elites agrárias e industriais de São Paulo do centro do poder. Segundo o professor Arão Davi Oliveira, essas elites buscaram mobilizar a população para confrontar o governo provisório de Vargas, construindo uma narrativa legalista para defender seus interesses.
Intervenção Federal e Oposição Acirrada
O governo Vargas nomeou interventores federais para os estados. Em São Paulo, a designação de João Alberto Lins de Barros, militar ligado a movimentos anteriores e imposto sem apoio local, gerou forte oposição. Intelectuais, políticos e a imprensa, incluindo partidos como o PRP e PD, criticavam as medidas do governo. A intensa pressão resultou na substituição de João Alberto por Pedro de Toledo, um civil visto como figura de conciliação, em março de 1932.
O Estopim: As Mortes do MMDC
Em 23 de maio de 1932, um protesto de cerca de 300 pessoas, iniciado na Faculdade de Direito, dirigiu-se à sede do Partido Popular Paulista, apoiador de Vargas. O confronto resultou no incêndio de parte do prédio e na intervenção de uma guarnição federal, que abriu fogo contra os manifestantes e a população que tentava impedir a ação dos bombeiros. A autoria dos disparos permaneceu indefinida, conforme inquérito e processo arquivados em 1954.
Essa noite trágica ceifou a vida de Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Antônio Americo de Camargo Andrade e, dias depois, Dráusio Marcondes de Sousa. O acrônimo M.M.D.C. foi criado em homenagem a eles, tornando-se símbolo do movimento subsequente. Orlando de Oliveira Alvarenga, ferido na mesma ocasião, faleceu em agosto.
O Início da Revolução Constitucionalista
As mortes do MMDC intensificaram a comoção pública. Em 9 de julho, Pedro de Toledo rompeu com o governo federal e foi proclamado governador de São Paulo, desencadeando a mobilização separatista. Apesar da expectativa de apoio de outros estados descontentes com Vargas, o movimento paulista enfrentou os combates isoladamente contra as tropas federais e foi derrotado em cerca de três meses, culminando na rendição em 2 de outubro de 1932.
O Legado e a Promulgação da Constituição de 1934
Mesmo com a derrota militar, as elites paulistas continuaram a se opor, de forma mais moderada, ao governo Vargas. A promulgação da Constituição Federal em 1934 foi vista por eles como uma vitória, pois atendia à principal reivindicação do levante. Vargas, contudo, permaneceu no poder, e o 9 de julho foi posteriormente consolidado como feriado cívico em São Paulo, celebrando a memória do movimento.


