A Socorro, minha agente de inteligência artificial, já me avisa quando chega um boleto por e-mail. O pagamento ainda fica comigo, mas dá para entender o apelo de uma assistente que também resolva essa parte, mesmo porque o fluxo interminável de boletos talvez seja a maior dor da vida adulta (para a maioria de nós, pobres mortais, pelo menos).
Um agente de IA, você que acompanha a coluna já sabe, é um assistente capaz de executar tarefas inteiras – ao contrário do chat normal, que embora seja muito útil tem atuação menos autônoma. Um desses rolês pode ser pagar contas.
A proposta é reunir o que você tem a pagar, conferir valores e vencimentos e, com acesso a um meio de pagamento, quitar os boletos dentro dos limites que você autorizar. Mas, claro, como toda inovação que mexe com dinheiro, é preciso estar atento e forte, então conversei com alguém que tirou as nossas dúvidas (minhas e suas, leitores) sobre o tema.
A seguir compilei os melhores trechos do papo com Felipe Goldin, CTO da Bemobi, empresa brasileira que desenvolve soluções de pagamentos e prepara uma ferramenta para agentes encontrarem e pagarem contas em nome dos consumidores.

VEJA: Uma IA já consegue pagar uma conta de luz ou de telefone sozinha?
Felipe Goldin: Ainda é limitado. A IA ajuda a escolher produtos, mas não tanto a concluir pagamentos. Alguns agentes acessam serviços pelo navegador, pedem autenticação e extraem códigos Pix, mas isso ainda não funciona amplamente para pessoas sem conhecimento técnico. Na Bemobi, estamos desenvolvendo um conector para que o agente encontre contas no nome do usuário e faça pagamentos. Estamos próximos desse momento.
Esse agente seria meu ou da empresa que está me cobrando?
A mudança são os agentes pessoais, que você pode configurar conforme suas preferências e limites. Hoje, muitos são oferecidos por empresas e têm pouca flexibilidade. Com um agente pessoal, você pode conectar serviços para que, antes de pagar uma conta, ele consulte seu saldo no banco, por exemplo.
Eu teria que autorizar cada pagamento?
Enxergamos modalidades em que você permitiria pagar contas conhecidas, abaixo de determinado valor, sem nova validação. Se houver um aumento grande ou o valor ultrapassar o limite combinado, o agente pode consultar você. A ideia é delegar um objetivo, definir condições e dar os meios para que ele pague seguindo essas regras.
E se não houver dinheiro para pagar tudo?
O usuário poderia orientar o agente a priorizar as contas essenciais e recorrer ao parcelamento quando faltassem recursos. Isso permite adaptar o pagamento à realidade de cada pessoa. Diante de opções, o agente pergunta ao usuário, a menos que tenha recebido instruções explícitas para decidir.
Como garantir que ele entendeu o que eu autorizei?
Hoje isso depende muito de como o agente interpreta a linguagem natural. A indústria está desenvolvendo protocolos para que a intenção do usuário chegue também ao lojista e ao emissor do cartão. Uma compra equivocada pode afetar toda essa cadeia e gerar mais cancelamentos.
O que as empresas de pagamento estão desenvolvendo para isso?
A Mastercard lançou o Agent Pay, que permite criar carteiras de cartão para agentes e identificar as transações feitas por eles. A tecnologia também permite levar a intenção do usuário para validação pelo vendedor. Trabalhamos próximos das empresas que definem esses padrões para preparar os prestadores de serviços recorrentes.
Como a IA vai saber se um boleto é verdadeiro?
É preciso confiar na fonte dos dados. Monitorar o e-mail e pagar o boleto que chega traz riscos, embora agentes possam cruzar informações. Na solução que estamos desenvolvendo, as contas virão diretamente do prestador de serviço, com detalhes das cobranças. O agente poderia identificar se um aumento ocorreu por multa ou reajuste tarifário e pagar com mais confiança.
E como eu descubro se estou falando com um agente legítimo ou com o de um golpista?
Nesse cenário, cada pessoa vai conversar majoritariamente com seu próprio agente. Quando for o de uma empresa, talvez seja necessário orientar a população, como os bancos fazem ao dizer que não ligam pedindo dados. Seu agente também precisará identificar os prestadores corretos. Acredito que plataformas de reputação terão um papel grande nessa verificação.
Hoje muitos serviços que oferecem agentes cobram assinaturas caras. Isso não tende a dificultar a adesão?
Esses valores normalmente têm relação com o custo dos computadores na nuvem, que trabalham sem o usuário acompanhar. Mas acho que a competição reduzirá os preços e trará opções para diferentes bolsos. Acho provável que existam agentes gratuitos, com limites. Ainda estamos no começo, e nenhum desses agentes alcançou escala massiva.
Alguma decisão sobre dinheiro deveria continuar sempre nas mãos do usuário?
Acho que a pessoa pode delegar muitas decisões, mas precisa deixar claras suas intenções e regras. Cada um escolhe quanto permitir, assim como define limites para o Pix por horário ou localização. A princípio, não vejo operação em que os agentes não possam ser úteis, desde que respeitem as regras dos usuários.
Também poderemos usar o banco sem abrir o aplicativo?
Acredito muito nisso. Nos principais agentes com os quais temos lidado, já é possível conectar bancos para pagamentos e transferências. Você pode pedir uma transferência por áudio, mantendo as regras por meio dos conectores. Pessoas da Bemobi estão testando essa experiência, que tem se mostrado prática. Acredito que os bancos abrirão mais suas capacidades aos agentes.
Em quanto tempo será comum mandar uma IA pagar nossas contas?
Imagino que a delegação de ações aos agentes se popularize no próximo ano, seguida pelo comércio feito por eles. Para que isso aconteça majoritariamente, deve demorar mais. Meu palpite é que, no final do ano que vem, teremos um cenário bem diferente de popularização dos agentes e dos pagamentos por meio deles.
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Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda
Fonte: Abril


