A eleição que os americanos disputam nesta terça-feira, 3, será acompanhada com especial atenção pelo Palácio do Planalto. Embora Donald Trump não esteja nas urnas, o resultado das eleições legislativas dos Estados Unidos poderá alterar a correlação de forças em Washington e abrir novas possibilidades para a diplomacia brasileira. A avaliação de interlocutores do governo Lula é que uma vitória dos democratas, especialmente se o partido conquistar o controle da Câmara dos Representantes, poderá aumentar a pressão sobre a Casa Branca e facilitar as negociações para reduzir as tarifas impostas aos produtos brasileiros.
O interesse brasileiro encontra respaldo nas pesquisas americanas. Levantamento Reuters/Ipsos divulgado na última semana de outubro mostrou que 47% dos eleitores registrados preferiam candidatos democratas para o Congresso, diante de 36% que optavam pelos republicanos. O partido de Trump mantém maiorias estreitas nas duas Casas, mas corre o risco de perder parte de seu poder legislativo. Para o Planalto, essa possibilidade ganha importância porque o governo americano ainda não reconheceu formalmente a reeleição de Lula e porque as negociações comerciais continuam sem uma solução definitiva.
O principal interesse é econômico. Os Estados Unidos devem apresentar em novembro uma proposta formal para avançar nas discussões sobre as tarifas que atingem exportações brasileiras. O documento, prometido pelo representante comercial americano, Jamieson Greer, deverá estabelecer os temas que Washington pretende incluir em um eventual acordo. A mudança na composição do Congresso poderá influenciar o ambiente político dessas conversas. Um relatório atualizado pelo serviço de pesquisa do Legislativo americano em 29 de outubro menciona expressamente a possibilidade de os parlamentares proporem alterações ou a revogação das tarifas sobre o Brasil, além de estabelecer objetivos para negociações envolvendo minerais críticos.
A discussão vai além do comércio. Parlamentares democratas já questionaram as sanções adotadas por Washington contra autoridades brasileiras e a atuação do governo Trump durante a eleição presidencial. A deputada Pramila Jayapal declarou que, caso seu partido conquiste a maioria na Câmara, pretende investigar o apoio americano a Flávio Bolsonaro e a participação de empresas de tecnologia no processo eleitoral brasileiro. Uma mudança no comando das comissões legislativas poderá ampliar a fiscalização sobre decisões da Casa Branca, inclusive aquelas que afetam diretamente a relação com Brasília.
Isso não significa, porém, que uma derrota republicana provocará o fim imediato do tarifaço. Trump continuará na Presidência, com poder de veto sobre leis aprovadas pelo Congresso e ampla capacidade de conduzir a política comercial por instrumentos do Executivo. Especialistas ouvidos pela Reuters avaliam que uma maioria democrata poderá multiplicar investigações, audiências e votações contrárias às tarifas, mas dificilmente reunirá os dois terços necessários para derrubar um eventual veto presidencial. O efeito mais imediato poderá ser político, com o aumento dos custos internos de medidas comerciais consideradas excessivas.
É justamente essa possibilidade que interessa ao Planalto. O governo Lula procura retomar o diálogo com Washington sem transformar as negociações econômicas em concessões sobre questões políticas brasileiras. Com a expectativa de uma proposta americana ainda em novembro e a possibilidade de novos encontros diplomáticos antes da cúpula do G20, em dezembro, o resultado das eleições legislativas poderá influenciar os próximos movimentos dos dois governos. Para Brasília, a esperança não é que o Congresso americano passe a negociar diretamente pelo Brasil, mas que Trump encontre mais resistência dentro de seu próprio país para manter a atual política de pressão.
Fonte: Abril

