Menções a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula (PT) nas investigações sobre o escândalo de fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) têm desgastado o governo e provocado embates com a oposição.
As investigações, conduzidas pela Polícia Federal por meio da Operação Sem Desconto, chegaram ao filho do presidente por meio de um lobista preso no âmbito do caso, o Careca do INSS, e de uma empresária próxima a Lulinha.
Embora não seja indiciado, Lulinha teve seus sigilos bancário, fiscal e telemático quebrados por ordem do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), a pedido da própria PF. A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) mista do INSS, instalada no Congresso, também aprovou a quebra.
Entenda a ligação de Lulinha com o escândalo do INSS e o que se sabe sobre o caso até agora.
O que é o escândalo do INSS?
A Operação Sem Desconto, conduzida pela PF em parceria com a CGU (Controladoria-Geral da União), apura um esquema de fraudes que teria desviado cerca de R$ 6,3 bilhões de beneficiários do INSS entre 2019 e 2024. A fraude consistia em descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões —cobranças feitas por entidades de fachada que não prestavam os serviços prometidos, como convênios médicos ou auxílio funerário.
O modelo que permitiu a fraude está previsto em lei desde 1991, mas cresceu de forma desproporcional a partir de 2019. O cenário se agravou em 2022, quando o Congresso eliminou a exigência de revalidação periódica da autorização dos beneficiários —o que permitiu que cobranças irregulares fossem mantidas por tempo indeterminado.
O ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto foi preso preventivamente em novembro. Ele é investigado por ter mantido em cargos estratégicos servidores ligados ao grupo suspeito, mesmo após denúncias internas. A prisão foi autorizada por Mendonça, relator do inquérito no STF. Stefanutto nega participação direta no esquema.
O que a PF investiga sobre Lulinha?
A PF apura citações feitas a Lulinha nas investigações da operação. Uma das linhas de investigação é a possibilidade de que ele tenha sido sócio oculto do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS e apontado como um dos operadores centrais do esquema de fraudes.
O nome de Lulinha também apareceu na CPI do INSS após reportagem do portal Poder360 mostrar que uma testemunha contou em depoimento à PF que o filho do presidente recebia mesada de R$ 300 mil do Careca do INSS.
Além disso, o empresário teria recebido, segundo essa mesma testemunha, a quantia de 25 milhões (não se sabe em qual moeda) do Careca do INSS e feito viagens com o lobista para Portugal. A testemunha é Edson Claro, ex-funcionário do Careca.
Quem é o Careca do INSS?
Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, é o lobista apontado pela PF como um dos operadores centrais do esquema de fraudes nos descontos de aposentadorias. Ele foi preso pela PF em setembro passado.
Em mensagem apreendida pela PF, Antunes pede a um operador que transfira R$ 300 mil a uma empresa em nome de Roberta Luchsinger, empresária próxima de Lulinha. Ao ser questionado sobre o destinatário do dinheiro, Antunes responde que seria “o filho do rapaz”. A corporação investiga se a expressão se referia a Fábio Luís.
No total, a empresária teria recebido R$ 1,5 milhão do lobista, em parcelas. A PF aponta que a empresa que fez os repasses, a Brasília Consultoria Empresarial Ltda., é “empresa de fachada do grupo de Antônio Camilo Antunes”.
A defesa de Antonio Carlos Camilo Antunes afirma que ele é inocente.
Quem é Roberta Luchsinger?
Roberta Moreira Luchsinger é empresária, sócia da RL Consultoria e Intermediações, e figura como um dos elos entre Lulinha e o Careca do INSS nas investigações. Segundo a PF, a empresária teria recebido, em parcelas, R$ 1,5 milhão do lobista. Ela foi alvo de busca e apreensão em seu endereço no bairro de Higienópolis, em São Paulo, em dezembro.
A PF descreve sua atuação como “essencial para a ocultação de patrimônio, movimentação de valores e gestão de contas bancárias e estruturas empresariais utilizadas como instrumentos da lavagem de capitais”. Em mensagens apreendidas, por exemplo, ela orienta Antunes a descartar telefones após uma busca e apreensão.
Luchsinger é herdeira de um ex-acionista do antigo banco Credit Suisse. É amiga de Lulinha. Em 2017, anunciou que faria uma doação milionária a Lula, então investigado pela Operação Lava Jato. Ela se candidatou a deputada estadual em São Paulo pelo PT em 2018, mas não se elegeu.
A defesa de Roberta afirma que as transferências recebidas não têm relação com o INSS, mas decorrem de um projeto na área de canabidiol desenvolvido com o lobista. Segundo a defesa, as tratativas foram apenas iniciais, não chegaram a prosperar e ocorreram antes das revelações sobre os desvios nas aposentadorias.
Por que o sigilo bancário de Lulinha foi quebrado?
A quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF, a pedido da própria PF —que enviou o requerimento cerca de um mês antes de ele se tornar público. A medida foi motivada pelas citações a Lulinha nas investigações da operação, em especial a possibilidade de sociedade oculta com o Careca do INSS.
No último dia 26, a CPI mista do INSS também aprovou a quebra de sigilos fiscal e bancário de Lulinha, em sessão contestada pelos governistas, que acusaram o presidente da comissão, o senador Carlos Viana (Podemos-MG), de ter conduzido a votação de forma irregular. A bancada governista protocolou pedido de anulação.
O ministro Flávio Dino, do STF, decidiu suspender a quebra de sigilo. As informações de movimentação financeira, porém, vazaram antes.
O que a quebra do sigilo revelou?
Segundo as informações recebidas pela CPI, que foram divulgadas pelo portal Metrópoles e confirmadas pela Folha, Lulinha movimentou R$ 19,5 milhões em quatro anos. Ao todo, foram R$ 9,774 milhões em entradas e R$ 9,758 milhões em saídas de uma conta de Lulinha no Banco do Brasil entre 3 de janeiro de 2022 e 30 de janeiro deste ano.
Entre os valores recebidos estão R$ 721 mil de seu pai, o presidente Lula. Desse total, R$ 384 mil foram pagos em 22 de julho de 2022. Outras duas transferências aconteceram em 27 de dezembro de 2023.
A maior parte do dinheiro que entrou na conta de Lulinha vem dos rendimentos de duas empresas que ele possuí, a LLF Tech Participações e G4 Entretenimento e Tecnologia. Foram R$ 2,3 milhões em movimentações com a primeira e R$ 772 mil com a segunda.
O dono do sítio em Atibaia frequentado por Lula, Jonas Suassuna Filho, recebeu R$ 704 mil em parcelas mensais de R$ 10 mil.
A defesa de Lulinha afirmou que “o vazamento [da quebra do seu sigilo] configura crime grave, que está sendo imediatamente comunicado a todas as autoridades competentes”. “Não pouparemos esforços para apurar e punir os responsáveis”, afirmou.
O que o STF decidiu sobre a quebra de sigilo?
O ministro Flávio Dino suspendeu, em caráter liminar (provisório), a quebra de sigilo aprovada pela CPI do INSS contra Roberta Luchsinger. A decisão se baseou no fato de a comissão ter aprovado 87 requerimentos de uma só vez, em votação “em globo”, sem apresentar fundamentação individualizada para cada medida.
Para Dino, “não é cabível o afastamento de direitos constitucionais no atacado”. A medida suspendeu os efeitos da decisão da CPI e impediu o compartilhamento dos dados com outros órgãos.
Horas depois da decisão, a defesa de Lulinha aproveitou o precedente e pediu a extensão do benefício ao filho do presidente, com os mesmos argumentos. Ao menos outros cinco pedidos semelhantes foram apresentados por investigados no mesmo dia.
Segundo a liminar de Dino, a CPI poderá refazer a análise dos pedidos, desde que apresente fundamentação concreta e votação individualizada para cada requerimento. A decisão foi enviada para referendo do plenário do STF.
O que Lula disse sobre o caso?
O presidente Lula adotou publicamente uma postura de não interferência. Em entrevista em dezembro, afirmou que “ninguém ficará livre” de investigação se estiver envolvido —incluindo o próprio filho. “Se tiver filho meu metido nisso será investigado. Se tiver o Haddad vai ser investigado, o Rui Costa com essa seriedade vai ser investigado”, disse.
O presidente também relatou ter chamado Lulinha a Brasília para cobrar explicações pessoalmente. Segundo relatos, a conversa ocorreu em dezembro. Lulinha disse ao pai estar “100% tranquilo” e ironizou rumores sobre suposta evolução patrimonial. Lula recomendou que o filho se defendesse.
Nos bastidores, auxiliares do presidente reconhecem preocupação com o impacto político do caso na campanha à reeleição. A blindagem de familiares de Lula era considerada estratégica pelos governistas na CPI —estratégia que não se sustentou.




















