Marina encarava a tela do laptop com a visão turva. No seu apartamento em Pinheiros, o som de uma goteira na cozinha compassava sua ansiedade. O prazo para a entrega de sua coluna no Jornal da Metrópole venceria em duas horas. No colo, seu gato de estimação exigia uma atenção que ela não podia dar; o animal andava prostrado, e a preocupação com a saúde dele, somada a uma pilha de boletos e uma gripe mal curada, drenava qualquer resquício de criatividade. O tema que ela havia escolhido — “A Permanência da Poética de João Cabral de Melo Neto no Caos Urbano” — parecia, naquele momento, uma tarefa hercúlea.
Do outro lado da cidade, Ricardo, colunista do concorrente Diário Nacional, vivia um colapso simétrico. Entre uma obra barulhenta no andar de cima e o fim traumático de um relacionamento que ainda ecoava em notificações no celular, ele não conseguia alinhar três frases coerentes. Ironicamente, ele escolhera o mesmo assunto para a edição de domingo: o rigor de João Cabral diante da desordem moderna. Era uma efeméride literária que ambos não podiam ignorar, mas a mente de Ricardo estava seca como o sertão do poeta pernambucano.
Exaustos e operando no modo de sobrevivência, ambos tiveram a mesma ideia, quase que por instinto de preservação profissional. Marina abriu uma aba de inteligência artificial. Ricardo fez o mesmo.
Marina digitou: “Escreva uma coluna de 2.500 caracteres sobre a influência da poesia de João Cabral de Melo Neto na estética contemporânea, focando a precisão técnica contra o excesso de informação digital. Use um tom sofisticado e melancólico.”
Ricardo, buscando o mesmo atalho, formulou um comando assustadoramente similar: “Crie um texto de opinião com cerca de 2.500 caracteres discutindo como o rigor seco de João Cabral de Melo Neto dialoga com o barulho da era digital. O tom deve ser intelectual e levemente nostálgico.”
A IA processou os pedidos em segundos. Para Marina, entregou um texto intitulado “A Faca Só Lâmina no Ruído de Fundo”. Para Ricardo, gerou um ensaio chamado “A Arquitetura do Silêncio em Tempos de Algoritmo”. Apesar de os títulos sugeridos serem diferentes, o corpo do texto era uma construção matemática baseada nos mesmos bancos de dados e nas mesmas probabilidades sintáticas.
Sem tempo para revisões profundas, Marina apenas ajustou um parágrafo, mudou uma vírgula de lugar e enviou o arquivo. Ricardo fez uma leitura diagonal, deu um “copiar e colar” e despachou o e-mail para o editor.
Na manhã de domingo, o desastre se materializou no papel e no pixel.
Nas bancas e nos feeds, as colunas dos dois maiores jornais do país eram espelhos perfeitos. O primeiro parágrafo de Marina começava: “Em um mundo saturado por estímulos visuais, a secura de ‘Morte e Vida Severina’ ressurge não como arcaísmo, mas como antídoto…” O de Ricardo, palavra por palavra, dizia o mesmo. As citações sobre o “engenheiro do verso” apareciam nos mesmos pontos. A conclusão sobre a necessidade de “esculpir o vazio” era idêntica.
O escândalo foi instantâneo nas redes sociais.
Como você acha que os leitores reagiriam se descobrissem que ambos os textos foram gerados por IA?
P.S.: Coluna gerada por IA a partir de um prompt (que não mencionava João Cabral).
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