A recente descoberta de uma molécula de açúcar no meio interestelar pode representar um avanço importante na compreensão da evolução química da Via Láctea e da origem da vida na Terra. O achado, publicado na revista científica Nature Astronomy, identificou a presença da eritrulose, um açúcar de quatro átomos de carbono, no espaço profundo.

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Segundo o Observatório Nacional (ON), a descoberta é resultado de pesquisas na área de Astrobiologia, ciência que investiga como a vida surgiu, evoluiu e se distribui pelo Universo. O tema estará em debate durante a VI Escola de Astrobiologia do Observatório Nacional (AstrobiON), que será realizada entre 14 e 17 de setembro. As inscrições para o evento permanecem abertas até 4 de setembro.

Astrobiologia conecta química espacial e origem da vida

Para o pesquisador do Observatório Nacional e coordenador da VI AstrobiON, Marcelo Borges Fernandes, a descoberta reforça a importância da astroquímica para compreender o surgimento da vida.

“A descoberta de ingredientes químicos complexos no espaço profundo está intimamente ligada ao propósito da Astrobiologia e ao conteúdo que preparamos para esta edição do AstrobiON”, destaca o pesquisador.

Segundo ele, o objetivo da escola é aproximar estudantes e pesquisadores das pesquisas mais recentes sobre o tema. “Queremos mostrar como a astroquímica e a evolução da Via Láctea se conectam diretamente com o surgimento da vida no cosmos. Convidamos estudantes e pesquisadores a se inscreverem para a escola, que acontece de 14 a 17 de setembro, onde debateremos juntos essas novas fronteiras”, acrescentou.

Por que a descoberta é considerada tão importante?

  • A molécula identificada pelos cientistas foi a eritrulose, um açúcar formado por quatro átomos de carbono;
  • Na Terra, essa substância é conhecida por estar presente em frutas, como a framboesa. No espaço, porém, sua importância é muito maior;
  • Segundo o Observatório Nacional, pesquisadores que estudam a origem da vida procuram compreender como a química do Universo pode levar à formação da ribose, açúcar composto por cinco átomos de carbono que integra a estrutura do RNA e do DNA;
  • A identificação da eritrulose demonstra que a química existente no espaço é capaz de construir cadeias de carbono cada vez mais longas e complexas de forma totalmente abiótica, ou seja, sem participação de organismos vivos;
  • De acordo com o ON, esse processo representa um passo importante no caminho químico que pode levar ao surgimento da vida.


Como os cientistas detectaram açúcar no espaço?

Embora o meio interestelar seja extremamente frio e rarefeito, enormes nuvens moleculares localizadas na região central da Via Láctea funcionam tanto como berçários de estrelas quanto como grandes laboratórios naturais onde ocorrem reações químicas.

Para identificar a eritrulose, a equipe liderada pela astroquímica Izaskun Jiménez-Serra, do Centro de Astrobiologia da Espanha, utilizou dois radiotelescópios apontados para o centro da galáxia. A técnica empregada baseou-se na espectroscopia por transições moleculares rotacionais.

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Embora o meio interestelar seja extremamente frio e rarefeito, enormes nuvens moleculares localizadas na região central da Via Láctea funcionam tanto como berçários de estrelas quanto como grandes laboratórios naturais onde ocorrem reações químicas – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT/Olhar Digital)

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As moléculas giram e vibram constantemente e, durante esse processo, emitem ou absorvem radiação em frequências específicas. Essas frequências funcionam como uma espécie de “impressão digital” única para cada substância química.

Os pesquisadores detectaram essa radiação proveniente da nebulosa e compararam o sinal com medições obtidas anteriormente em laboratórios terrestres, onde a eritrulose já havia sido estudada.

Segundo o Observatório Nacional, o resultado mostrou correspondência perfeita entre a assinatura eletromagnética registrada no espaço e a da molécula conhecida.

Descoberta também revelou novo mistério

Apesar da confirmação da presença da eritrulose, a pesquisa levantou um paradoxo que ainda desafia os modelos atuais de astroquímica.

Os radiotelescópios identificaram claramente o açúcar de quatro carbonos, mas não encontraram quantidades significativas de açúcares menores, compostos por apenas três átomos de carbono, que teoricamente deveriam ser mais abundantes.

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Para Fernandes, essa ausência representa um importante desafio científico. “Esse ‘vazio’ molecular é um desafio para a compreensão de como a matéria orgânica se acumula e evolui no espaço.”

Segundo o pesquisador, as teorias atuais indicam que moléculas menores deveriam aparecer com maior frequência. “Em tese, moléculas menores deveriam ser mais abundantes. Esse paradoxo é o tipo de problema real e instigante que adoramos levar para discussão no AstrobiON. Ele mostra que o meio interestelar tem mecanismos de síntese molecular que ainda estamos tentando decifrar.”

Açúcares podem ter chegado à Terra por meteoritos

A confirmação de que moléculas complexas de açúcar podem se formar no espaço antes mesmo do nascimento de estrelas e planetas também altera a compreensão sobre a origem dos ingredientes necessários para a vida.

Segundo o Observatório Nacional, estudos estimam que a Terra primitiva tenha recebido até 50 milhões de toneladas desses açúcares durante o período conhecido como intenso bombardeio tardio, quando meteoritos e cometas atingiram o planeta com frequência.

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Para os pesquisadores, se compostos fundamentais para a formação do RNA e do DNA estão presentes em nuvens moleculares distribuídas pela Via Láctea, aumenta a possibilidade de que a chamada “receita da vida” esteja sendo levada também para outros sistemas planetários em formação.

A descoberta reforça a importância da Astrobiologia para compreender como moléculas orgânicas complexas surgem no Universo e de que forma podem contribuir para o aparecimento da vida em diferentes regiões da galáxia.

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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