O bom humor do mercado com o resultado do primeiro turno da eleição presidencial pode se estender, caso o próximo governo implemente de fato um ajuste fiscal capaz de conter a escalada da dívida pública. Ao fazê-lo, o futuro presidente permitiria dois movimentos favoráveis dos agentes econômicos. De um lado, uma política fiscal contracionista esfriaria a demanda e, com isso, a pressão inflacionária. Ao mesmo tempo, o controle das contas públicas levaria os investidores a exigirem taxas menores de juro para financiar a União. Tudo somado, o Banco Central poderia reduzir a taxa básica de juros, a Selic, que baliza toda a economia. Para o mercado de ações, seria a conjuntura ideal, pois estimularia a migração de recursos da renda fixa para a renda variável. O Itaú BBA, banco de investimentos do Itaú, calcula que um “ajuste fiscal gradual” poderia injetar 270,2 bilhões de reais na bolsa brasileira.
Os investidores estrangeiros aportariam 45% desse total – o equivalente a 121,6 bilhões de reais. Para chegar a este valor, o Itaú BBA considerou que cada aumento de 1 ponto percentual da fatia do Brasil no MSCI Emerging Markets Index pode atrair 79,3 bilhões de reais para a bolsa. Elaborado pela americana MSCI, uma das maiores referências na confecção de índices para o mercado financeiro, o Emerging Markets é um índice composto atualmente por ações de 1 165 companhias sediadas em 24 países emergentes. Com isso, o Brasil representa 4,1% de sua composição, o que o coloca em quinto lugar, atrás de Taiwan (28,9%), Coreia do Sul (21,4%), China (19,8%) e Índia (10,7%).
O índice é uma importante referência para a indústria global de fundos, tais como os Exchange Traded Funds (ETFs), conhecidos no Brasil como fundos de índice, e que replicam o desempenho de benchmarks. Grandes gestoras globais, como a BlackRock e a Artemis possuem ETFs que espelham o MSCI Emerging Markets. Assim, sempre que o índice é atualizado, os gestores precisa comprar ou vender papéis para ajustar a composição de seus fundos. Por isso, uma eventual melhora fiscal do Brasil pode incentivar a MSCI a elevar seu peso no Emerging Markets, induzindo os grandes fundos a adquirirem mais papéis na bolsa brasileira e contribuindo para sua valorização.
Os demais 55% – cerca de 148,6 bilhões de reais – que poderiam irrigar o mercado acionário viriam dos investidores brasileiros. Segundo o relatório do Itaú BBA, assinado pelos analistas Daniel Gewehr, Matheus Marques e Raphael Matutani e enviado nesta quarta-feira 7 aos clientes, atualmente as ações representam apenas 7,6% do patrimônio total dos fundos nacionais. O trio estima que cada aumento de 1 ponto percentual desta fatia equivalha a um acréscimo de 113,2 bilhões de reais.
Embora, em nenhum momento, o Itaú BBA se refira explicitamente à eleição presidencial, nem cite nominalmente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), que passaram ao segundo turno com 47% e 45% dos votos, respectivamente, a menção ao ajuste fiscal faz eco à preocupação geral do mercado de que o grande problema do próximo governo, qualquer que seja o vencedor, será promover um forte acerto nas contas, a fim de conter a escalada da dívida pública que saltou de 72% para 83% do produto interno bruto durante o terceiro mandato de Lula.
O Itaú BBA avaliou diversos cenários para o próximo governo e concluiu que, no pior cenário, em que se mantenha a atual tendência de gastos, a taxa real de juro – isto é, descontada a inflação – ficaria em 8,5%. Em uma situação de ajuste intermediário, a taxa recuaria para a faixa de 6,5% a 7%. Já no cenário mais otimista, o juro real baixaria para 5% ao ano.


