Ambientalistas, acadêmicos e entidades civis uniram-se em Brasília neste domingo (15) para protestar em defesa da Serrinha do Paranoá. O ato, realizado no Eixo Rodoviário Sul, teve como objetivo exigir a retirada desta área de reconhecida relevância ecológica e hídrica do Distrito Federal do controverso projeto de socorro financeiro ao Banco de Brasília (BRB).

A Essencial Importância Ecológica da Serrinha do Paranoá

Localizada entre as regiões administrativas do Varjão e do Paranoá, a Serrinha é uma extensa área de cerrado nativo fundamental para o ecossistema local. Reconhecida oficialmente por abrigar zonas de recarga hídrica e escarpas com alta concentração de nascentes, a região é classificada como ambientalmente sensível, crucial para a saúde ambiental do DF.

A área contém pelo menos 119 minas d'água que alimentam diretamente o Lago Paranoá, um manancial estratégico para o abastecimento da população. O próprio governo distrital, por meio da Secretaria de Agricultura (Seagri-DF), já havia iniciado em janeiro um projeto para plantar 22 mil mudas nativas, visando a conservação do solo e o aumento da produção hídrica, evidenciando o reconhecimento de sua vitalidade.

O Controverso Projeto de Socorro ao BRB

Apesar da importância ambiental, a Câmara Legislativa aprovou, e o governador Ibaneis Rocha sancionou, um projeto de lei que autoriza o GDF a contratar até R$ 6,6 bilhões em empréstimos emergenciais para reforçar o caixa do BRB. Como garantia, foram oferecidos até nove imóveis públicos, incluindo a Gleba A, uma área de 716 hectares na Serrinha do Paranoá, avaliada em cerca de R$ 2,2 bilhões. Esta medida avançou mesmo com recomendações técnicas contrárias por parte da Câmara Legislativa.

A crise do BRB decorre de problemas de confiança e liquidez, resultantes de prejuízos bilionários com a aquisição de carteiras de crédito e ativos de baixa liquidez do Banco Master. O cenário se agrava com a investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de fraude na compra de cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos da instituição, cujo banqueiro, Daniel Vorcaro, está detido por suspeitas de crimes financeiros, suborno e monitoramento ilegal de autoridades.

As Vozes em Defesa da Preservação Ambiental

Risco de Impermeabilização e Impacto no Abastecimento

Lúcia Mendes, presidenta da Associação Preserva Serrinha, alertou para o grave risco que a impermeabilização da área representa. Segundo ela, a construção de condomínios comprometeria as nascentes da região e, consequentemente, o abastecimento de uma parcela significativa da população. Um mapeamento realizado em 2015 já havia indicado que a área não comporta tais empreendimentos. Mendes criticou o GDF por, segundo ela, tentar minimizar o impacto, ignorando estudos científicos em favor do interesse especulativo imobiliário.

Mendes compara a Serrinha a uma 'caixa d'água' que acumula água no lençol freático, essenciais para as nascentes. Ela defende a regularização das chácaras existentes, que contribuem para a preservação do cerrado nativo, em oposição a um processo de urbanização que, segundo ela, desconsidera a importância ecológica da região.

Apoio Federal à Preservação Integral

César Victor do Espírito Santo, engenheiro florestal, membro do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e da Fundação Pró-Natureza (Funatura), destacou o apoio de uma instância federal ao movimento. Uma moção aprovada pela maioria dos conselheiros do Conama reconheceu a Gleba A como uma "importante área de recarga de aquífero e de proteção da biodiversidade", enfatizando que a preocupação com a Serrinha do Paranoá transcende os interesses locais, abrangendo a necessidade de sua preservação integral.

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