As forças de segurança do Irã coordenaram assassinatos, tortura, estupros e outras formas de violência sexual durante a repressão aos protestos liderados por mulheres em 2022, segundo um relatório divulgado nesta quarta-feira, 16, pela Anistia Internacional. A organização afirma ter identificado uma cadeia de comando que envolvia autoridades de diferentes níveis do Estado e documentado 377 mortes relacionadas às manifestações, incluindo 56 crianças.
A investigação, que levou quatro anos e reúne mais de mil páginas, analisa a resposta do governo iraniano aos protestos desencadeados pela morte de Mahsa Amini, uma jovem curda de 22 anos que morreu sob custódia da polícia da moralidade em setembro de 2022. A Anistia afirma que as forças de segurança receberam ordens para adotar uma resposta “firme e severa” e que um documento vazado determinava que os agentes respondessem de forma “impiedosa” e chegassem ao ponto de causar mortes.
Segundo a organização, a maioria das 377 pessoas cuja morte foi documentada foi morta pelas forças de segurança durante operações para dispersar os protestos entre setembro e dezembro de 2022. Outras morreram sob custódia, após serem libertadas ou em circunstâncias que, segundo as evidências reunidas, indicam responsabilidade estatal.
Tortura e violência sexual
A Anistia também documentou casos de tortura e violência sexual cometidos contra manifestantes detidos. A organização afirma ter reunido evidências de 45 casos de estupro e outras formas de violência sexual praticados por integrantes das forças de segurança, envolvendo mulheres, homens, meninas e meninos.
Os abusos descritos no relatório incluem estupros com objetos e outras formas de violência física e psicológica. A organização afirma ainda que mulheres e meninas foram submetidas a revistas invasivas, agressões, retirada forçada de roupas e outras formas de abuso durante a detenção.
Cadeia de comando
A investigação da Anistia identificou 87 autoridades iranianas que, segundo a organização, deveriam ser investigadas por possíveis crimes contra a humanidade. Entre os nomes estão o então líder supremo, Ali Khamenei, e integrantes de alto escalão das Forças Armadas e do Ministério do Interior.
A organização afirma que documentos oficiais, ordens internas, registros de reuniões e depoimentos de testemunhas revelam uma estrutura coordenada para reprimir as manifestações. Segundo a Anistia, diferentes unidades da Guarda Revolucionária, da polícia e das forças Basij participaram das operações sob estruturas hierárquicas de comando.
A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, afirmou que a investigação mostra “diversas camadas de comando e coordenação” por trás da repressão. A entidade pede que a ONU crie um mecanismo internacional de Justiça para investigar e responsabilizar os envolvidos.
Repressão voltou a escalar
Segundo a Anistia, a falta de responsabilização pelos crimes cometidos em 2022 contribuiu para a manutenção da estrutura repressiva no país. A organização relaciona esse cenário à repressão aos protestos antigovernamentais de janeiro de 2026, que, segundo estimativas citadas pelo Guardian, deixaram milhares de mortos.
A Anistia afirma que autoridades envolvidas na repressão de 2022 continuaram ocupando posições de poder e que alguns dos mesmos mecanismos de segurança foram utilizados posteriormente. A organização pede que os responsáveis por crimes contra a humanidade sejam investigados internacionalmente para evitar novos episódios de violência em larga escala.
O relatório é divulgado quatro anos após a morte de Mahsa Amini, episódio que desencadeou o movimento conhecido como “Mulher, Vida, Liberdade”. A Anistia afirma que a investigação reuniu evidências de assassinatos, tortura, estupros, desaparecimentos forçados, prisões arbitrárias e perseguição política, de gênero e étnica durante a repressão.


