Durante o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985), empresas suíças lucraram significativamente com a estabilidade autoritária do regime e a política de achatamento salarial. Uma pesquisa da Universidade de Lausanne, na Suíça, liderada por Gabriella Lima, revela como multinacionais se beneficiaram de um cenário que suprimiu direitos trabalhistas e sindicatos.

A Perspectiva Empresarial Suíça e as Vantagens do Regime

Em 1970, Anton Von Salis, então presidente da Câmara de Comércio Suíço Brasileira (Swisscam), justificou salários mais baixos no Brasil, citando 'necessidades totalmente diferentes' e um clima sem frio, que reduziria gastos. Em entrevista à RTS, a emissora pública suíça, Von Salis explicitou que o golpe militar garantia estabilidade, mão de obra barata e um ambiente propício para o capital suíço prosperar.

O levantamento de Gabriella Lima comparou salários de 14 grandes multinacionais suíças em 1971. A pesquisa demonstrou que trabalhadores brasileiros sem qualificação recebiam um quinto do que seus pares suíços na mesma função. Para mão de obra profissionalizada, a remuneração no Brasil correspondia a 57% do salário pago na Suíça, evidenciando uma vantagem substancial para os empregadores.

A pesquisadora, autora do livro 'Don’t Miss The Bus', afirma que empresas suíças 'aproveitaram tudo que a ditadura tinha a oferecer'. Isso incluía isenção de impostos nos primeiros dez anos de instalação no Brasil, ausência de tributos sobre remessa de lucros, e a 'paz social' resultante de um movimento operário enfraquecido e da criminalização de sindicatos e da oposição. Esses fatores, segundo ela, geravam confiança no parceiro brasileiro.

O Achatamento Salarial como Estratégia de Lucro

Marco Antônio Rocha, professor do Instituto de Economia da Unicamp, destaca que a política de valorização do salário mínimo foi um dos catalisadores do golpe de 1964. Uma das primeiras medidas militares foi modificar a indexação do salário mínimo frente à inflação, resultando numa rápida defasagem. Em um a dois anos, o poder de compra do salário mínimo reduziu-se em cerca de 50%.

Gabriella Lima quantificou os ganhos das empresas suíças com essa política de baixos salários. Ela estimou que, apenas em 1971, as 14 maiores multinacionais suíças no Brasil faturaram aproximadamente 80 milhões de francos suíços com a mão de obra brasileira.

Suíça: Um Investidor Proeminente na Opressão

Entre 1964 e o final da década de 1970, a Suíça figurou entre os quatro maiores países investidores no Brasil, atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha, e alternando o terceiro lugar com o Japão. Contudo, em termos proporcionais, a Suíça foi o maior investidor per capita no período, com uma média de 187,8 dólares por habitante, oito vezes superior ao investimento per capita da Alemanha.

O Investimento Estrangeiro Direto (IED) suíço no Brasil atingiu 1,1 bilhão de francos suíços em 1973, quase três vezes o PIB brasileiro daquele ano. Em 1977, esse valor mais que dobrou, alcançando 2,3 bilhões de francos suíços. Empresas suíças estavam presentes em diversos setores como alimentação, metalurgia, petroquímica, laboratórios farmacêuticos e o sistema financeiro, incluindo seus famosos bancos. Von Salis, questionado sobre denúncias de prisões e torturas que sustentavam a 'estabilidade', minimizou tais fatos.

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