Elena, uma amiga querida, nasceu em Kramatorsk, atual front de guerra do Donbass, no leste ucraniano de língua majoritariamente russa. Mudou-se com a família para Odessa, a bela cidade portuária do Mar Negro cujas escadarias foram imortalizadas por Serguei Eisenstein em O “Encouraçado Potemkin” (1925), onde o russo também predomina. Depois, foi trabalhar na Itália, casou-se com um brasileiro e, hoje, mora na Cidade do Cabo. Culta, cosmopolita, ela dividiu-se entre seu amor por uma língua e sua lealdade a uma nação.

Quando Putin deflagrou sua segunda invasão da Ucrânia, no início de 2022, Elena contou-me que não falaria mais o russo, seu idioma natal, mas apenas o ucraniano, segundo idioma. Seus amigos de Odessa, explicou, faziam a mesma transição. A Rússia seria, dali em diante, o inimigo.

Sua especialidade não é relações internacionais ou história, mas ela sabe, tanto quanto eu, que Putin mente ao apontar na aspiração ucraniana de acesso à Otan a causa da guerra de conquista. A lenda – repetida por Lula, JD Vance e o arauto trumpista Tucker Carlson – destina-se à propaganda do Kremlin no Ocidente. A invasão, Putin escreveu, tem a finalidade de reconstituir a nação russa, da qual a Ucrânia seria parte. Elena não falaria mais o russo para protestar contra a ideia de que inexistem uma nação e uma língua ucranianas.

Segundo a narrativa mítica, Rússia e Ucrânia nasceram juntas, no Rus de Kiev, em 1054. Mas, já no século 17, surgiram as sementes de um nacionalismo ucraniano, na forma de um Estado cossaco. A ideia de uma Ucrânia soberana ressurgiu no século 20, por oposição à Rússia bolchevique, em versão anarquista (o Exército Negro de Nestor Makhno, entre 1918 e 1921) e, depois do Holodomor, por oposição à URSS stalinista, em versão fascista (a milícia de Stepan Bandera, em 1941).

O colapso da URSS propiciou a independência da Ucrânia, reconhecida pela Rússia em troca da entrega de seu arsenal nuclear, em 1994. Depois, em 2004-05 e 2013-14, duas revoluções populares exprimiram a aspiração ucraniana de conservar a soberania nacional diante do expansionismo putinista. A resistência à invasão tem raízes amplas e profundas.

Meses atrás, no terceiro aniversário da invasão, Elena voltou a falar russo —e, cheia de dúvidas, pediu minha opinião sobre o assunto. A língua natal é, para ela, um instinto e uma memória, não o poder de um Estado ou a pompa de um palácio. É sua família, sua infância, o cheiro de casa, sua comunicação, o princípio da sociabilidade. Lá em Odessa, sob bombardeios cada vez mais frequentes, seus amigos também retomavam o idioma russo —mas, como ela, seguiam odiando o invasor.

Saudei a reconciliação dela com sua língua natal. Poupei-a do que ela sabe. Que, ao contrário da crença dos ultranacionalistas, idioma não é identidade nacional. Que ucranianos de língua ucraniana e de língua russa combatem, lado a lado, no front e nas cidades, para salvar a independência de seu país. Que a dualidade de línguas faz a Ucrânia mais culta – e, portanto, mais forte. Que Putin não é proprietário de Púchkin, Dostoiévski ou Maiakóvski – ou seja, da cultura russa.

Elena, agora, é mãe. A filhinha dela, meio brasileira, meio sul-africana e meio ucraniana, aprende em casa, além do português e do inglês, o russo e o ucraniano. Slava Ukraini.


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