A combinação de um medicamento com a hormonioterapia demonstrou reduzir em aproximadamente 20% o risco de morte de pacientes com câncer de mama RH+/HER2- em estágio inicial, em comparação com a hormonioterapia isolada. Os resultados foram divulgados recentemente no congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), em Madri.
O estudo de fase 3, batizado de NATALEE, acompanhou cerca de 5 mil pacientes provenientes de 20 países, incluindo o Brasil. Todas elas tinham um subtipo de câncer de mama que corresponde a aproximadamente 60% a 70% dos casos da doença no país e no mundo.
As participantes foram divididas em dois grupos. Um deles recebeu apenas hormonioterapia, tratamento que bloqueia a produção ou a ação de hormônios no organismo para impedir o crescimento de células cancerígenas.
Já o outro, além da hormonioterapia, recebeu também o Kisqali, nome comercial do ribociclibe, um remédio que bloqueia o ciclo celular, processo responsável pela duplicação do DNA e pela divisão das células, impedindo a proliferação dos tumores.
Os resultados apontam que a combinação da hormonioterapia com o ribociclibe reduziu em 19,1% o risco de morte em comparação com a hormonioterapia isolada.
Segundo o oncologista Carlos Barrios, um dos principais investigadores internacionais do estudo global, o principal destaque do tratamento foi o benefício observado na sobrevida global das pacientes.
Barrios explica que há dois grandes cenários para pacientes com câncer de mama: a doença localizada, na qual existe possibilidade de cura, e a doença metastática, já disseminada para outras partes do corpo, considerada incurável.
A maior parte dos casos, de acordo com o médico, felizmente se encontra no primeiro cenário. Ainda assim, para diminuir o risco de a doença voltar em outras partes do corpo, como no fígado ou nos pulmões, muitas pacientes recebem hormonioterapia por um período de cinco a dez anos após o tratamento inicial, que pode incluir cirurgia e outras modalidades terapêuticas.
“Apesar de ser chamada de hormonal, a hormonioterapia é, na realidade, anti-hormonal, porque não deixa que os hormônios que possam existir no corpo da paciente estimulem as células que têm receptores para hormônio, uma vez que os hormônios fazem com que as células cresçam”, explica Barrios, que também é diretor e pesquisador principal do Centro de Pesquisa em Oncologia do Hospital São Lucas da PUCRS.
Esse tratamento, de caráter preventivo, faz parte da prática clínica há mais de uma década. “Desde então, a gente não tinha, nesse cenário, nenhum outro medicamento que melhorasse ainda mais os resultados das pacientes, daí vem a importância do ribociclibe”, contextualiza.
Os dados apresentados no congresso demonstraram que a combinação de ribociclibe com a hormonioterapia não apenas reduziu as recorrências ou metástases, como também produziu uma diferença na sobrevida das pacientes após aproximadamente 5 ou 6 anos de acompanhamento.
A abordagem aumentou a chamada sobrevida livre de doença invasiva, termo usado na oncologia para se referir ao tempo em que o paciente permanece sem nenhum sinal de recidiva do câncer ou de novos tumores invasivos. Na pesquisa, essa taxa saiu de 4,1% em cinco anos para 5,3% em seis anos.
O benefício também foi observado mesmo anos após o término do tratamento. Segundo o estudo, as pacientes estão sem utilizar Kisqali há uma mediana de três anos e já ultrapassaram o período de cinco anos de tratamento com hormonioterapia especificado no protocolo, o que, segundo Barrios, reforça o valor a longo prazo da abordagem.
O especialista afirma que poucos tratamentos demonstraram benefício de sobrevida nesse cenário. “O resultado é importante não só para as pacientes, mas também do ponto de vista biológico”, avalia. Para ele, os dados avaliados pelo estudo indicam que bloquear o ciclo celular com ribociclibe pode ser útil não só para o câncer de mama como também para outros tipos de tumores.
Segundo o pesquisador, outro medicamento já havia demonstrado benefício semelhante para aproximadamente 10% a 15% das pacientes, enquanto o estudo NATALEE com ribociclibe abrange mais do que o dobro desse grupo, ampliando potencialmente o número de pacientes que poderiam se beneficiar do tratamento.
Além disso, segundo o estudo, menos pacientes tratadas com a droga em combinação com a hormonioterapia apresentaram recorrência de metástase em comparação com aquelas que receberam apenas hormonioterapia. As pacientes continuarão sendo monitoradas por pelo menos dez anos.
Acesso é desafio
Segundo a Novartis, farmacêutica responsável pelo desenvolvimento do Kisqali, o medicamento foi aprovado para o tratamento do câncer de mama por autoridades regulatórias em mais de 100 países em todo o mundo, incluindo a Agência de Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) e a Comissão Europeia.
No Brasil, a incorporação do remédio ao Sistema Único de Saúde (SUS) está em avaliação pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde).
Segundo Barrios, garantir o acesso ao medicamento no país é especialmente relevante, uma vez que o sistema público dispõe de opções limitadas dessa classe terapêutica, os inibidores de CDK4/6. “Quando você tem um tratamento que melhora a sobrevida, ou seja, diminui a morte por câncer, temos que fazer tudo que seja possível para que as pacientes tenham acesso a ele”, defende.
O especialista também reforça que, apesar dos avanços no tratamento, o diagnóstico precoce continua sendo um dos principais fatores para aumentar as chances de cura do câncer de mama. Identificar a doença em estágios iniciais permite iniciar o tratamento antes que o tumor se espalhe para outros órgãos, ampliando as possibilidades terapêuticas e reduzindo o risco de complicações.
Por isso, diz ele, é fundamental que as mulheres conheçam seu próprio corpo, estejam atentas a alterações nas mamas e mantenham o acompanhamento de saúde e os exames de rastreamento recomendados para sua faixa etária e perfil de risco.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil estima 78. 610 novos casos de câncer de mama por ano para cada ano do triênio de 2026 a 2028. A mamografia, principal método para a detecção precoce do câncer de mama, é indicada principalmente para mulheres a partir dos 40 anos de idade.
Mulheres com histórico familiar importante de câncer de mama ou ovário, especialmente antes dos 50 anos, ou portadoras de mutações genéticas (como BRCA1 ou BRCA2) devem iniciar o rastreamento mais cedo.
Fonte: Abril

