Quem acompanha eclipses pode já ter ouvido falar de Fred Espenak. Nascido nos EUA, o astrofísico, que trabalhou por décadas no Centro Espacial Goddard, da NASA, tornou-se uma das maiores autoridades mundiais no assunto graças aos cálculos e previsões detalhadas desses fenômenos. Não por acaso, ganhou o apelido de “Sr. Eclipse”.

Continua após a publicidade

A paixão de Espenak começou em março de 1970, quando observou seu primeiro eclipse solar total aos 16 anos. A experiência foi suficiente para despertar um interesse que definiria sua carreira. Oito anos depois, ele passou a produzir boletins sobre eclipses para a NASA e, desde então, publicou diversas obras consideradas referência na área.

Hoje, astrônomos, fotógrafos e entusiastas consultam frequentemente o EclipseWise.com, site criado por Espenak que reúne mapas, previsões e informações sobre eclipses solares e lunares. O portal se tornou uma das principais fontes de consulta para quem deseja acompanhar esses eventos em qualquer parte do planeta.

Embora Espenak seja o nome mais conhecido atualmente, ele não foi o primeiro a dedicar a vida ao estudo dos eclipses. Quase um século antes, outro pesquisador realizou um feito extraordinário que ainda impressiona historiadores da ciência e astrônomos.

Esse cientista era Theodor Ritter von Oppolzer, considerado por muitos o verdadeiro “Sr. Eclipse” do século 19. Sem calculadoras eletrônicas ou computadores, ele conseguiu determinar as datas e características de mais de 13 mil eclipses utilizando apenas papel, lápis e milhares de contas matemáticas.

Uma ilustração do livro de 1887 “Canon of Eclipses” (esquerda) escrito por Theodor von Oppolzer (direita). Crédito: Wikimedia Commons/Domínio Público

Quem foi Theodor Ritter von Oppolzer: o primeiro “Sr. Eclipse”

Oppolzer nasceu em 26 de outubro de 1841, em Praga, cidade que atualmente faz parte da República Tcheca. Ainda criança, mudou-se com a família para Viena, na Áustria, onde rapidamente chamou atenção pela facilidade com números e pelo talento para resolver problemas matemáticos.

Seu pai, um renomado cirurgião, desejava que o filho seguisse a carreira na medicina. Oppolzer chegou a concluir um doutorado na área aos 23 anos, mas nunca abandonou sua verdadeira vocação. Desde muito jovem, dedicava boa parte do tempo ao estudo da astronomia.


Aos 21 anos, publicou seu primeiro trabalho científico sobre a órbita do cometa Thatcher, descoberto em 1861. Atualmente, os astrônomos sabem que esse cometa é o responsável pela origem da chuva de meteoros Líridas, observada todos os anos durante o mês de abril.

Em 1866, Oppolzer passou a lecionar astronomia teórica e geodésia na Universidade de Viena. Paralelamente, construiu um observatório particular equipado com instrumentos avançados para a época, incluindo um telescópio refrator de sete polegadas, um buscador de cometas e um círculo meridiano.

Além das observações do céu, o pesquisador ficou conhecido pela extraordinária capacidade de realizar cálculos complexos. Relatos da época afirmam que ele havia memorizado cerca de 14 mil valores de logaritmos, habilidade que facilitava a resolução de operações matemáticas extremamente demoradas.

Continua após a publicidade

Folha de rosto da edição de 1887 do Canon of Eclipses (à esquerda), publicada alguns meses após a morte prematura de Oppolzer, aos 45 anos. À direita está a folha de rosto da reimpressão em inglês, publicada pela Dover Publications em 1962. Crédito: Joe Rao

O interesse específico pelos eclipses surgiu em 1868, durante uma expedição científica à cidade de Áden, no atual Iêmen, para acompanhar um eclipse solar. A experiência despertou a curiosidade sobre eventos semelhantes registrados ao longo da história, mas havia um obstáculo: praticamente não existiam registros organizados sobre eclipses antigos.

Foi então que Oppolzer decidiu produzir o catálogo mais completo já criado até aquele momento. A proposta era muito mais ambiciosa do que simplesmente reunir datas. Ele queria calcular com precisão quando e onde cada eclipse poderia ser visto, abrangendo tanto eventos passados quanto futuros.

Continua após a publicidade

Para isso, utilizou como base os estudos do astrônomo Peter Andreas Hansen, responsável por desenvolver tabelas muito precisas sobre o movimento da Lua. Esses cálculos serviram de fundamento para o gigantesco trabalho que Oppolzer iniciaria nos anos seguintes.

A tarefa era tão extensa que os cinco primeiros voluntários desistiram antes da conclusão. Em 1882, o pesquisador contratou cinco auxiliares e passou a pagar um florim por cada eclipse solar calculado. O valor correspondia aproximadamente ao custo de um almoço e foi suficiente para manter a equipe até o fim do projeto.

Depois de anos de trabalho, o manuscrito ficou pronto em outubro de 1885. A obra recebeu o nome Canon der Finsternisse e reuniu cerca de 8 mil eclipses solares e 5,2 mil eclipses lunares, cobrindo um período superior a 33 séculos, entre 1208 a.C. e 2161 d.C.

Em 1882, Theodor von Oppolzer reuniu uma equipe para calcular eclipses solares, pagando um florim por previsão concluída. Três anos depois, o trabalho resultou no Canon der Finsternisse, catálogo com cerca de 8 mil eclipses solares e 5,2 mil lunares, cobrindo mais de 33 séculos. – Crédito: Imagem gerada por IA/Gemini

Continua após a publicidade

Todo o catálogo foi produzido manualmente. Os cálculos ocuparam 242 grandes volumes e somaram mais de 10 milhões de números escritos à mão. Décadas mais tarde, especialistas classificaram o trabalho como um dos maiores feitos computacionais da era pré-eletrônica.

Leia mais:

O enorme esforço, porém, teve um preço. Oppolzer morreu em 1886, aos 45 anos, pouco depois de revisar as últimas provas do livro. A publicação ocorreu no ano seguinte e rapidamente se tornou a principal referência mundial sobre eclipses, posição que manteve por quase 80 anos.

Em 1962, a obra foi traduzida para o inglês e republicada, permitindo que novas gerações de pesquisadores tivessem acesso ao material. Mesmo apresentando pequenas limitações em alguns detalhes da faixa de totalidade dos eclipses solares, os cálculos continuam sendo considerados extraordinariamente precisos.

Continua após a publicidade

Fred Espenak pode ser o nome mais lembrado no estudo de eclipses, mas, ainda assim, a contribuição de Theodor von Oppolzer permanece entre as mais impressionantes da história da astronomia e mostra como a dedicação e a matemática foram capazes de antecipar milhares de eclipses muito antes da era dos computadores.

Agosto traz eclipse solar total mais importante dos últimos tempos

Na próxima quarta-feira (12), milhões de pessoas em pontos privilegiados do mundo poderão acompanhar um dos espetáculos mais impressionantes da astronomia: um eclipse solar total. O fenômeno reúne características que o tornam um dos eclipses mais importantes da década – clique aqui e saiba mais.





Share.
Leave A Reply

Exit mobile version