O Líbano vivencia um cenário de intensa destruição e sofrimento em decorrência do escalonamento do conflito entre Israel e o grupo político-militar Hezbollah. Milhares de pessoas estão desabrigadas, enfrentando condições adversas enquanto abandonam suas residências em diversas cidades libanesas. Em menos de três semanas, o confronto resultou no deslocamento de mais de um milhão de habitantes do sul do país, além de registrar mil mortos e 2,5 mil feridos. Em meio a essa crise humanitária, cidadãos brasileiros compartilham experiências marcadas por raiva, medo e profunda incerteza.

Relatos do Front: A Vida de Brasileiros sob Fogo Cruzado

Hussein Melhem: Fuga e Perdas em Tiro

Hussein Melhem, libanês naturalizado brasileiro de 45 anos, mora com sua família em Tiro (Tyre), no litoral sul do Líbano, uma das regiões mais afetadas. Ele e sua esposa foram despertados na madrugada de 2 de março por tremores no prédio, causados pela passagem de mísseis. “Estava dormindo e a minha esposa me acordou assustada. Parece um terremoto os mísseis passando por cima do prédio direto para Israel. Aí saímos de casa imediatamente apenas com um pouco de roupa”, narra. A família conseguiu fugir da cidade, mas se deparou com uma realidade de incertezas e perdas.

Melhem descreve a situação como um misto de raiva, tristeza e preocupação constante. Sua casa foi bombardeada, e sua padaria em Tiro está inoperante devido ao conflito, impedindo-o de trabalhar. “Estamos gastando tudo que a gente tem. Não posso voltar para trabalhar. Não consigo dormir direito por causa da preocupação. O pessoal está muito bravo com tudo isso”, afirma. Ele também lamenta a vasta destruição de infraestrutura, incluindo doze pontes que comprometem o acesso ao sul do Líbano.

Pai de três filhas, Hussein testemunha o drama nas ruas, com inúmeras famílias forçadas a abandonar suas casas. “As ruas, nem te falo, é muita tristeza. Você chora vendo as barracas, as pessoas embaixo da chuva, no frio”, relata. Atualmente, ele e a família estão em uma residência emprestada, mas o futuro é incerto, pois precisarão desocupar o local ou arcar com o aluguel em poucos dias. “Não sei o que eu vou fazer depois, estou perdido”, desabafa.

Aly Bawab: Medo Constante em Beirute

Aly Bawab, brasileiro-libanês de 58 anos, que reside em Manaus (AM), chegou ao Líbano em 28 de fevereiro para visitar sua família, coincidindo com o início dos ataques entre Israel, Estados Unidos e Irã. Originário do sul do país, Bawab decidiu se deslocar para Beirute após presenciar o desabamento de um edifício atingido por um míssil israelense. Em Beirute, os bombardeios são diários, ocorrendo a qualquer hora.

“É dia e noite, não tem horário. Hoje tivemos alguns momentos de paz durante o dia, apesar dos aviões militares do inimigo ficarem ultrapassando a velocidade do som para fazer um tipo de explosão no ar e assustar as pessoas”, relata Aly. Casado e pai de três filhos, ele tenta manter a calma para transmitir segurança à família, mas admite que o medo é inevitável. “Medo com certeza, mas você tem que manter a calma. Mas as crianças em volta sentem. No último bombardeio, que atingiu dois apartamentos em um prédio alto aqui próximo, o corpo sentiu a vibração da explosão. O corpo treme sem você ter controle”, descreve.

Bawab também lamenta a perda de amigos e familiares no conflito, e a impossibilidade de muitos deixarem as áreas mais afetadas do Sul. “É bastante traumatizante, você vê essa situação em que você se encontra, em que as pessoas não sabem o que fazer ou quanto tempo vai durar essa guerra”, completa, evidenciando a profunda incerteza que paira sobre a população civil.

A Escalada do Conflito e Análise Geopolítica

A historiadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Beatriz Bissio, analisa a estratégia de Israel no Líbano como um espelhamento das ações na Faixa de Gaza. “É mais ou menos uma versão libanesa do genocídio em Gaza. O que Israel está propondo é repetir o genocídio, particularmente no sul do Líbano, uma vez que frustrou-se a expectativa da liderança israelense de ter aniquilado o Hezbollah”, afirma a especialista.

Os bombardeios israelenses contra o Líbano se intensificaram com a expansão da guerra na região, especialmente após o Hezbollah retomar ataques contra Israel em 2 de março. O grupo alegou retaliação por ações israelenses recentes e pela suposta morte do líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, evidenciando uma perigosa escalada do conflito no Oriente Médio. O sul do Líbano encontra-se devastado, com aldeias destruídas e colheitas paralisadas, gerando um sofrimento indescritível para a população civil.

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