A intervenção no Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, transformou-se em uma crise financeira e política para o presidente Santiago Peña. A instituição, que afirma ter aproximadamente 3 milhões de clientes, entrou em um processo de resolução determinado pelo Banco Central paraguaio depois que seu índice de solvência caiu para menos da metade do mínimo exigido pela legislação. O episódio ocorre em um momento em que o país tenta se consolidar como destino de investimentos estrangeiros, inclusive brasileiros.
A decisão foi tomada na segunda-feira, 2, e anunciada no dia seguinte. O problema, segundo o regulador, foi identificado após ajustes nas demonstrações financeiras do banco durante um processo de regularização. Com a medida, clientes ficaram temporariamente sem acesso aos recursos depositados na instituição, enquanto autoridades passaram a administrar o processo de resolução.
A dimensão do problema vai além dos correntistas. O Ueno Bank informou manter entre 800 milhões e 850 milhões de dólares em recursos públicos, incluindo aproximadamente 380 milhões de dólares vinculados ao fundo estatal de previdência e saúde. A crise também provocou a saída de Carlos Carvallo da presidência do Banco Central e levou o Ministério Público a investigar suspeitas de irregularidades na administração da instituição.
A situação é particularmente delicada para Peña. Até março de 2025, o presidente manteve relações empresariais com o Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank. A proximidade entre integrantes do governo e o conglomerado já havia provocado questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses. Agora, oposicionistas passaram a defender a investigação da responsabilidade política pelo episódio.
Para os depositantes, a principal preocupação é a recuperação do dinheiro. O sistema de garantia paraguaio prevê cobertura de até 228,3 milhões de guaranis por pessoa, equivalente a aproximadamente 38 mil dólares. Segundo estimativas preliminares, esse limite seria suficiente para proteger integralmente cerca de 97% dos depositantes. O Banco Central anunciou um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis, mas clientes com saldos superiores ao limite garantido ainda enfrentam incertezas.
O caso também lança uma sombra sobre a imagem do Paraguai como destino de negócios. O país vinha atraindo investidores com uma combinação de tributação relativamente baixa, crescimento econômico e estabilidade financeira. Não há, até agora, evidência apresentada pelas autoridades de contágio sobre outros bancos ou de perdas específicas para investidores brasileiros. Ainda assim, a crise do Ueno Bank representa um teste importante para a capacidade das instituições paraguaias de preservar a confiança no sistema financeiro.
Fonte: Abril


