A ativista e professora Victória Grabois, aos 82 anos, mantém viva a chama da luta pela memória e verdade sobre a ditadura militar brasileira. Em 1973, ela perdeu o pai, Maurício, o irmão, André, e o marido, Gilberto Olímpio, assassinados por agentes do Estado na região da Serra do Araguaia. Demonstrando resiliência, Victória declara: “Não posso parar e faço tudo o que eu puder fazer para divulgar a memória e acabar com o silenciamento.” Passados 53 anos, a esperança de saber o paradeiro dos corpos diminui, mas a convicção de lutar pela verdade e contra o esquecimento permanece inabalável.
O Legado de Resistência Familiar
Maurício Grabois, André Grabois e Gilberto Olímpio atuavam ativamente na guerrilha do Araguaia, defendendo o fim do regime de exceção que assolava o país. Maurício, pai de Victória, foi deputado constituinte em 1946 e deixou um vasto legado de escritos. Victória, que conviveu com ele até seus 29 anos, o descreve como um “grande homem de princípios” que sacrificou sua vida e a do filho pela liberdade e democracia no Brasil. A provável data da morte de seu pai e irmão foi 25 de dezembro de 1973, e seus corpos nunca foram entregues à família.
Retificação de Certidões e Pedidos de Investigação
Nesta terça-feira (31), o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos realizarão um evento na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, para entregar 27 atestados de óbito retificados. Entre eles, está o de Maurício Grabois, baiano de nascimento, cuja causa da morte foi oficialmente alterada para “ação violenta do Estado”. Victória Grabois, cofundadora do movimento Tortura Nunca Mais, reside no Rio de Janeiro e, embora não participe do evento, reforça o pedido para que o Estado vá além da retificação e investigue as circunstâncias da morte das vítimas da ditadura.
Ação do Movimento Tortura Nunca Mais
O movimento Tortura Nunca Mais, do qual Victória é uma das fundadoras, concedeu a medalha “Chico Mendes” em sua 38ª edição anual. Criada como contraponto à medalha do Pacificador do Exército, a condecoração deste ano lembrou o guerrilheiro Francisco Manuel Chaves, desaparecido no Araguaia, e a socióloga Yara Yavelber, também assassinada por agentes estatais. A homenagem estendeu-se também a mães que perderam filhos para a violência policial, como Solange de Oliveira, fundadora do Movimento Mães em Luto da Zona Leste, evidenciando a luta contínua contra violações de direitos humanos no passado e no presente.
O Papel da Arte na Conscientização
A ativista destaca a relevância de filmes brasileiros recentes que abordaram a ditadura e alcançaram reconhecimento no Oscar. Essas produções foram cruciais para “furar a bolha” na sociedade e aumentar a compreensão sobre o período, que completa 62 anos esta semana. Victória observa que as escolas demonstraram maior interesse em explorar essa fase de opressão, e muitas pessoas só recentemente tomaram conhecimento da história das violações graças a essas obras. Ela afirma que “A Guerrilha do Araguaia, por exemplo, passou a ser mais um fato histórico para as pessoas”.
Desafios na Busca por Respostas Completas
Eugênia Gonzaga, presidente da comissão de mortos e desaparecidos, ressalta a importância das retificações de certidões de óbito como medida reparatória. A meta é realizar 434 retificações e entregá-las solenemente, acompanhadas de um pedido oficial de desculpas. Contudo, ela critica a persistente falta de abertura completa dos arquivos das Forças Armadas. Apesar da revelação de muitos documentos, as informações definitivas sobre as circunstâncias das mortes e os locais de sepultamento de inúmeros corpos ainda são desconhecidas.
Essa lacuna representa, para Eugênia, uma falha do sistema de justiça brasileiro em fornecer respostas conclusivas às famílias dos mortos e desaparecidos políticos. Além do documento de Maurício Grabois, estão prontas para entrega as certidões de figuras como Carlos Lamarca (ex-militar) e Stuart Edgar Angel Jones (filho da estilista Zuzu Angel), que tiveram suas histórias retratadas em filmes.



