O Rio de Janeiro recebe a exposição 'Coexistir Coabitar', uma iniciativa que reúne a sensibilidade artística de pessoas egressas do sistema prisional e seus familiares. A mostra, através de diversas linguagens como pintura, performance e vídeo, fomenta uma profunda reflexão sobre encarceramento, desigualdades sociais e a eficácia das políticas públicas, marcando um espaço vital para o debate sobre justiça social.
Vozes e Trajetórias Transformadas em Arte
Entre os participantes, destaca-se o artista e biomédico Wallace Costa, de 29 anos, residente em Irajá, zona norte. Sua obra 'Cadeias de Vidro' é composta por três telas em resina que abordam a trajetória de encarceramento de seu pai e as consequências emocionais para a família. Wallace utiliza a arte como ferramenta para elaborar memórias e estimular o diálogo sobre justiça, saúde mental e ressocialização, frente à experiência de seu pai, que passou por múltiplos períodos de detenção, incluindo 11 anos e um retorno ao cárcere em 2019.
A obra de Wallace inclui uma placa central com a réplica de um jornal, que retratou o pai como instigador de uma rebelião em 2004. As laterais são adornadas com fragmentos de vidro, adesivos e canudos encapsulados em resina, simbolizando a fragmentação da identidade e a anulação do indivíduo submetido ao sistema prisional. O artista busca, assim, promover a empatia e o reconhecimento de reflexos distorcidos da própria imagem, explorando a saúde mental de egressos.
A experiência prisional também transformou a jovem Larissa Rolando, de 20 anos, moradora de Bangu, que esteve detida entre fevereiro e maio do ano passado. Mulher trans, Larissa enfrentou o medo de ser alocada em uma unidade masculina, apesar de ter documentos retificados, mas encontrou respeito inesperado. Contudo, as condições precárias de higiene e alimentação impactaram sua vivência, que, paradoxalmente, a levou a uma profunda reflexão pessoal e amadurecimento, direcionando-a para a escultura.
Para a exposição, Larissa criou uma escultura intitulada 'coração empalado', da qual emergem veias que culminam em CDs. Esta obra representa sua trajetória e a presença constante da música em todos os momentos de sua vida, desde a infância até a transição de gênero, servindo como suporte tanto em instantes de alegria quanto de tristeza.
A Curadoria e o Alcance Social da Exposição
A mostra 'Coexistir Coabitar' é o resultado de uma residência artística no Museu da Vida Fiocruz, envolvendo 27 artistas. Este projeto articula arte, saúde e justiça social, empregando a criação artística como uma ferramenta potente para a escuta e a reconstrução de histórias de vida de egressos dos sistemas prisional e socioeducativo, bem como de seus familiares.
O curador Jean Carlos Azuos salienta que as obras têm como ponto de partida as experiências autênticas dos próprios participantes, em vez de temas predefinidos. Ele reitera que 'Arte, justiça social e saúde ampliada atravessam os processos de criação e se tornam matéria e linguagem', reforçando o caráter orgânico e vivencial da exposição.
Além da visitação às obras, a programação inclui atividades educativas como visitas mediadas, oficinas e rodas de conversa. Essas iniciativas visam ampliar o diálogo com o público, oferecendo múltiplos pontos de acesso para a compreensão e interação com as temáticas abordadas.
Serviço
A exposição 'Coexistir Coabitar' está aberta ao público no Largo das Artes, localizado na Rua Luís de Camões, 02, Centro (1º andar). A visitação é gratuita e se estende até 25 de abril de 2026, com horário de funcionamento de terça a sábado, das 10h às 17h.
