É soldada ou soldado? Generala existe?
A entrada de mulheres em novos espaços dentro do Exército Brasileiro — da base ao alto comando — acende um debate para além dos quartéis: afinal, o correto é dizer “soldada” ou “a soldado”? “Generala” ou “a general”?
➡ No final de abril, 181 mulheres passaram a integrar, pela primeira vez, o efetivo de soldados do Comando Militar do Planalto (CMP). Até então, esse nível da carreira não contava com participação feminina.
➡ No topo da hierarquia, a presença feminina também avançou. No início do mesmo mês, o Exército promoveu a primeira mulher ao posto de general na história da corporação. Cláudia Cacho assumiu a direção do Hospital Militar de Área de Brasília.
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Apesar das mudanças no perfil da tropa, a forma de tratamento segue um padrão institucional. Ao g1, o Exército informou que o uso do artigo feminino é obrigatório, mas as patentes permanecem no masculino.
Assim, a orientação é utilizar expressões como “a soldado”, “a sargento”, “a tenente” e “a general” .
O que diz a língua portuguesa?
Pilota da Aviação do Exército no Brasil
Reprodução/TV Vanguarda
Do ponto de vista gramatical, a história é um pouco mais flexível. Segundo a professora Denize Elena Garcia da Silva, do Departamento de Linguística da Universidade de Brasília (UnB), formas como “soldada”, “generala”, “coronela” e “sargenta” são possíveis dentro do sistema da língua.
“Podemos considerá-las aceitáveis, uma vez que se tratam de formas linguistas que evidenciam o morfema ‘a’, marcador de gênero feminino”, explica.
Apesar disso, essas formas ainda causam estranhamento em parte dos falantes. “Uma mudança no sistema da língua não ocorre em tempo real de curta duração”, afirma a especialista.
A linguista destaca que há diferença entre o que é possível na gramática e o que se consolida no uso cotidiano. Segundo ela, novas formas costumam surgir primeiro no discurso social e só depois se estabilizam na língua.
Esse processo ajuda a explicar porque termos como “capitã” são mais aceitos, enquanto outros, como “generala”, ainda enfrentam resistência.
A discussão sobre o feminino de cargos públicos também aparece na legislação brasileira. Uma lei federal de 1956 determina que nomes de funções públicas devem variar de acordo com o gênero da pessoa que ocupa o cargo.
A norma afirma que o gênero gramatical deve obedecer “aos tradicionais preceitos pertinentes ao assunto e consagrados na lexicologia do idioma”.
Organismo dinâmico
🔍No Brasil, houve uma discussão parecida durante o primeiro mandado de uma mulher na presidência da República. Quando eleita, Dilma Rousseff começou a orientar funcionários e assessores para que a chamassem de presidenta.
🔍 Já a ministra Cármen Lúcia, ao ser eleita eleita para presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), disse que prefere ser chamada de “presidente” do STF em vez de “presidenta”.
Para a professora Denize Elena Garcia da Silva, o histórico das Forças Armadas também pesa nessa escolha.
“Não só influenciam como mostram a semântica que corre na memória histórica de uma sociedade patriarcal, sobretudo em se tratando da carreira militar que tem patentes tão rígidas”, afirma.
Ela avalia que, por enquanto, formas como “a general” tendem a ser mais aceitas, por seguirem o padrão já consolidado em outras patentes.
Com o aumento da presença feminina nas Forças Armadas, esse cenário pode mudar, mas não de forma imediata. A especialista explica que a língua acompanha as transformações sociais, mas em um ritmo próprio, mais lento.
“A língua é um organismo dinâmico, que evolui com a sociedade”, afirma a professora. “Pode ser que ‘a general’ dure bastante tempo. que haja outro sufixo formador de substantivo que não seja esse ‘ala’ como está sendo proposto na atualidade.”
Segundo a especialista, a dinâmica está tanto na língua quanto na sociedade. “A língua está acompanhando a mulher na sua evolução através do gênero feminino nos cargos que ela ocupa”, diz.
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