Uma formiga do sul da Europa está realizando algo que parecia impossível fora da ficção científica: suas rainhas produzem clones masculinos de outra espécie. O mecanismo permite que colônias da formiga-cortadeira ibérica continuem gerando operárias, mesmo quando não existem populações próximas da espécie da qual elas dependem para se reproduzir.

Rainhas produzem machos de uma espécie diferente
As rainhas de Messor ibericus conseguem pôr ovos que originam machos de Messor structor, uma espécie evolutivamente distante. A descoberta foi publicada em 3 de setembro de 2025 na revista científica Nature e representa o primeiro caso conhecido de um animal que produz outra espécie como parte normal de seu ciclo de vida.
Jonathan Romiguier, biólogo evolucionista da Universidade de Montpellier e coautor do estudo, afirmou ao Live Science que o fenômeno parecia inicialmente um paradoxo. A equipe chegou a suspeitar de erros de amostragem, mas identificou 69 regiões onde colônias de M. ibericus prosperavam sem populações próximas de M. structor.
As operárias dependem de uma reprodução incomum
As operárias dessas colônias são híbridas, formadas pela combinação genética das duas espécies. Quando uma rainha de M. ibericus acasala com um macho da própria espécie, os descendentes se desenvolvem principalmente como novas rainhas, e não como operárias inférteis responsáveis por alimentar, proteger e organizar o formigueiro.
Os pesquisadores associam esse desequilíbrio a genes egoístas presentes nos machos de M. ibericus. Esse DNA favoreceria o nascimento de fêmeas férteis, chamadas de “trapaceiras reais”, garantindo sua transmissão às gerações seguintes. Para produzir operárias, portanto, a rainha precisa utilizar material genético de M. structor.
Como os cientistas comprovaram a clonagem?
Para investigar o fenômeno, a equipe coletou 132 machos de 26 colônias ibéricas. Entre eles, 58 eram peludos e pertenciam a M. ibericus, enquanto 74 não tinham pelos e apresentavam genoma nuclear de M. structor. Outros testes foram necessários para determinar quem havia produzido esses indivíduos.
- Análise genética de machos encontrados nos formigueiros
- Sequenciamento do DNA mitocondrial transmitido pela mãe
- Exame de ovos produzidos por 16 rainhas isoladas
- Identificação de Messor structor em 9% dos ovos
- Monitoramento de uma rainha durante 18 meses
O DNA mitocondrial revelou que machos das duas espécies tinham a mesma origem materna. Em laboratório, os cientistas também observaram diretamente uma única rainha produzindo indivíduos de M. ibericus e M. structor. Isso demonstrou que ela clonava os machos estrangeiros sem transmitir seu próprio DNA nuclear.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube 7 Days of Science mostrando mais sobre a formiga que queboru a biologia com sua capacidade de clonagem.
O sistema recebeu o nome de xenoparidade
Os pesquisadores chamaram o processo de xenoparidade, expressão que significa nascimento de uma espécie diferente. O mecanismo exato ainda é desconhecido, especialmente o momento em que o DNA nuclear materno é removido. O sistema pode ter surgido em algum ponto dos últimos 5 milhões de anos de evolução.
Denis Fournier, biólogo evolucionista da Universidade Livre de Bruxelas que não participou do estudo, classificou a descoberta como “quase ficção científica”. Segundo ele, o caso desafia a ideia de que as fronteiras entre espécies são rígidas, pois essas formigas cruzam essa divisão regularmente como parte de sua reprodução.
A descoberta pode mudar o estudo da reprodução animal
A clonagem permite que M. ibericus mantenha uma reserva própria de machos de M. structor, garantindo a produção de operárias mesmo em regiões isoladas. A colônia transforma, assim, outra espécie em parte essencial de seu sistema reprodutivo, criando uma relação marcada por dependência, cooperação e possível conflito genético.
Para Fournier, o resultado é um lembrete de que a ciência precisa permanecer aberta ao inesperado. Agora, pesquisadores poderão reexaminar dados antigos e casos biológicos sem explicação em busca de mecanismos semelhantes. Investigar essas formigas com urgência pode revelar quantas outras regras da natureza ainda aguardam ser quebradas.