O Irã estaria usando golfinhos treinados para ataques kamikazes a embarcações americanas próximas ao Estreito de Ormuz? A pergunta – que parece ter saído de algum roteiro de filme B de Hollywood – foi feita ontem em uma entrevista coletiva do Secretário de Guerra, Peter Hegseth, que estava ao lado do chefe Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, general Dan Caine.

O militar chegou a brincar com a declaração, citando uma imagem da comédia Austin Powers: “É tipo tubarões com feixes laser, não é?”, desdenhou. Mas Hegseth acabou deixando no ar uma dúvida: “não posso confirmar ou negar que nós [os EUA] não temos os ‘golfinhos kamikaze’, mas posso confirmar que eles [o Irã] não têm”, disse, sem alongar demais a resposta.

Leia também: Pentágono diz que levará meses para limpar minas no Estreito de Ormuz

Continua depois da publicidade

Mas de onde veio essa informação? No final do mês passado, uma reportagem do The Wall Street Journal sobre a estratégia do Irã para fechar o Estreito listou todas as possibilidades, em especial a instalação de minas para impedir o fluxo de navios comerciais e militares – e incluiu o uso de golfinhos treinados.

O texto lembrava de uma reportagem feita pela BBC no início dos anos 2000, que falava de o Irã ter comprado da União Soviética golfinhos treinados para operações militares. O armamento iria de arpões colocados nos animais até explosivos para atingir navios considerados inimigos ou suspeitos.

Mas os americanos são considerados os pioneiros nesse tipo de treinamento. A Marinha dos EUA investe desde os anos 1960 no chamado Programa de Mamíferos Marinhos da Marinha, que treina na Califórnia golfinhos-nariz-de-garrafa e leões-marinhos para detectar, localizar, marcar e recuperar objetos em portos, áreas costeiras e em mar aberto.

A explicação é que os golfinhos possuem o sonar natural mais sofisticado conhecido pela ciência, ou seja, minas e outros objetos potencialmente perigosos no fundo do oceano — que são difíceis de detectar com sonar eletrônico – podem ser facilmente encontrados pelos golfinhos.

A NBC informou em 2002 que o programa recebia US$ 14 milhões em financiamento por ano e que contava com o respaldo financeiro do Pentágono até o ano de 2020.

Fato ou ficção?

(Foto: Wikimedia Commons)

Além de evidências do uso de golfinhos para vigilância na Guerra do Vietnã, no começo dos anos 1970, e pelo Bahrein na Guerra dos Petroleiros, em 1987, ficou famosa uma foto do golfinho K-Dog saltando da água próximo ao sargento Andrew Garrett, no Golfo Pérsico, em março de 2003. Na época, os animais estavam sendo usados para limpar minas à frente dos navios da coalizão, durante a invasão do Iraque liderada pelos EUA.

Continua depois da publicidade

Em 2013, a mídia americana trouxe a história de dois golfinhos terem detectado na Califórnia um artefato no fundo mar que se revelou ser era um torpedo Howell praticamente intacto, um dos primeiros torpedos de autopropulsão da Marinha dos EUA. 

Portanto, a resposta é sim, golfinhos são treinados e usados para fins militares há décadas. Mas não há evidências suficiente de que poderiam ser utilizados para explodir navios. Isso ainda parece pertencer à ficção, como no filme de 1973 “O Dia do Golfinho”, que conta a história de extremistas com um plano de explodir um navio onde o presidente dos EUA estaria. Apesar de contar com a direção de Mike Nichols e com o ator ganhador de Oscar George C. Scott, foi um grande fracasso de bilheteria.


Share.
Leave A Reply

Exit mobile version