A seleção haitiana de futebol, ao participar da Copa do Mundo, não exibirá em seus uniformes a ilustração de um marco histórico nacional: a Revolução do Haiti (1791-1804), que culminou na abolição da escravidão e na independência do país. A alteração ocorreu após o veto da Federação Internacional de Futebol (Fifa), que classificou a imagem como uma manifestação política, proibida por seu regulamento.

O Veto da Fifa e a Batalha de Vertières

A ilustração vetada representava um grupo de pessoas com uma bandeira vermelha e branca, aludindo à Batalha de Vertières, de 1803. Esse confronto foi crucial para a derrota francesa e a subsequente independência haitiana. A data da batalha, 18 de novembro, também marcava a classificação da seleção para a Copa do Mundo em 2025, adicionando um valor simbólico de orgulho nacional à escolha da imagem.

Silenciamento Histórico e o Precedente Olímpico

Gabriel Léccas, professor e mestre em história pela UERJ e pesquisador da Revolução Haitiana, contextualiza o veto da Fifa como parte de um padrão. Ele recorda que, em fevereiro deste ano, o Comitê Olímpico Internacional (COI) também proibiu uma imagem de Toussaint Louverture, líder revolucionário, no uniforme haitiano para os Jogos de Inverno, sob a mesma justificativa de 'elemento político'. Para Léccas, tais atos são demonstrações do 'silenciamento histórico e político da memória da revolução e dos sujeitos que a construíram', uma prática que remonta ao século XIX, impulsionada por discursos escravistas e temores de novas revoltas. Ele acrescenta que esse processo reflete discursos racistas que desconsideram o protagonismo de indivíduos não brancos na luta por direitos e na contestação de hierarquias raciais.

Entenda a Revolução do Haiti: Um Marco Histórico

Para compreender a relevância da Revolução do Haiti e da Batalha de Vertières, é fundamental analisar seu contexto histórico, desde a colonização da ilha caribenha até a eclosão do movimento libertário.

A Colonização e o Sistema Escravista

Conforme detalhado pelo historiador Marco Morel em 'A Revolução do Haiti e o Brasil Escravista' (2017), a ilha, originalmente chamada Haïti pelos Taíno (ou Arawak), foi rebatizada como Hispaniola por Cristóvão Colombo em 1492. A população indígena original foi drasticamente reduzida por doenças, massacres e trabalho forçado imposto pelos espanhóis. Para compensar a perda de mão de obra, em 1517, o rei Carlos V autorizou a importação de africanos escravizados. A parte ocidental da ilha, posteriormente cedida à França em 1697, tornou-se Saint-Domingue, uma próspera colônia baseada na exportação de cana-de-açúcar, café e anil. Em 1789, Saint-Domingue era vital para o comércio francês e o maior mercado de tráfico negreiro europeu. A sociedade era rigidamente estratificada entre brancos, negros libertos e a vasta maioria de africanos e seus descendentes escravizados, submetidos ao rigoroso Code Noir de 1685, que impunha castigos severos e tentava coibir revoltas.

A Eclosão da Revolução

C.L.R. James, em 'Os Jacobinos Negros: Toussaint L'ouverture e a Revolução de São Domingos', aponta que o declínio do poder francês e a difusão de ideais iluministas de liberdade e igualdade na ilha catalisaram a revolta. A rebelião foi orquestrada por líderes de ascendência africana como Toussaint Louverture, Jean-Jacques Dessalines e Henri Christophe. James os denominou 'jacobinos negros', comparando-os aos jacobinos da Revolução Francesa (1789–1799) por sua representatividade das camadas populares e pela defesa intransigente da liberdade.

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