Investigações da PF sobre corrupção eleitoral crescem quase 20 vezes desde 2016
O Brasil registrou uma explosão no número de investigações sobre corrupção eleitoral na última década. Levantamento exclusivo da GloboNews com base em dados da Polícia Federal, obtidos via Lei de Acesso à Informação, revela que o volume de inquéritos abertos disparou quase 20 vezes entre as eleições municipais de 2016 e 2024.
Enquanto em 2016 foram abertas 117 investigações, o total saltou para 2.283 no último pleito. Nos últimos dez anos, a Polícia Federal iniciou mais de 7.600 inquéritos sobre compra de votos, o que representa uma média de duas novas investigações por dia.
Os dados fazem parte da série de reportagens “O valor do voto”, que vai ao ar nesta semana na GloboNews e que revela casos inéditos de compra de votos.
Um crime que atravessa décadas
Infográfico – Inquéritos sobre crimes eleitorais abertos pela Polícia Federal saltaram de 117 em 2016 para 2.283 em 2024.
Arte/GloboNews
Embora o sistema eleitoral tenha se modernizado com a urna eletrônica e a biometria, o “velho problema” da compra de votos atravessou o século. Registros históricos dos anos 80 mostram que a prática de trocar o voto por vantagens é um vício antigo na democracia brasileira.
Em 1982, eleitores em Belém (PA) trocavam seus títulos por “cartões de Natal” na casa de candidatos.
Em 1986, as moedas de troca iam de 50 cruzeiros a óculos, remédios e materiais de construção. No final daquela década, o assistencialismo já era descrito como um “costume” para parte dos eleitores.
Nos últimos dez anos, a Polícia Federal iniciou mais de 7.600 inquéritos sobre compra de votos.
Reprodução/GloboNews
De dinheiro a botijão de gás em troca de voto
As investigações detalham um “mercado” que utiliza a carência da população para negociar o apoio nas urnas. Além do pagamento direto em dinheiro, o crime assume diversas formas.
Entre as vantagens oferecidas estão consultas médicas, atendimento odontológico, exames e serviços oftalmológicos. Bens materiais como sacos de cimento, botijões de gás, cestas básicas, gasolina e até “caixinhas de cerveja” também entram na negociação. Promessas de empregos, funções públicas e vagas em creches completam o rol de ilegalidades identificadas nos processos.
Compra de votos é mais frequente no interior
Mapa – Inquéritos sobre crimes eleitorais foram abertos em 1.557 municípios nos últimos anos.
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A análise dos dados da PF aponta que o crime de compra de votos está concentrado fora dos grandes centros urbanos, com apenas 15% dos casos registrados em capitais. A maioria dos inquéritos foca em cidades do interior e regiões metropolitanas, atingindo quase 30% dos municípios brasileiros na última década.
Segundo a procuradora Nathalia Mariel, da Procuradoria-Geral Eleitoral, essa prevalência se dá pela proximidade física e social entre candidatos e eleitores em cidades menores. “Quanto mais localizada é a eleição, mais próximas são as pessoas e é mais fácil a negociação e o oferecimento de vantagem”, explica.
Além disso, a fiscalização torna-se mais complexa pela dificuldade de instrução de processos em comunidades onde há ligações íntimas e dependência direta entre os envolvidos e as vítimas.
Casos vão de dinheiro em livros a uso do CRAS
Candidata à vereadora oferecia ‘diárias’ de R$ 100 para famílias vulneráveis, inclusive na fila de entrega de leite.
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Dois casos retratados pela reportagem da GloboNews ocorreram no Paraná.
Em Goioerê, o vereador Walter Fernandes Martins, conhecido como Tenente Martins, teve o mandato cassado após o Ministério Público identificar um fluxo atípico em seu comitê.
A investigação descobriu que ele utilizava livros de legislação brasileira com buracos entre as páginas para esconder dinheiro. Mensagens de celular revelaram que o político gerenciava pedidos de gasolina, alimentos e assistência jurídica em troca de apoio.
Já em Moreira Sales, a vereadora mais votada em 2024, Priscilla Albano, foi condenada por utilizar a estrutura do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) em benefício próprio.
Com o auxílio da assistente social Edina Frasson, a candidata oferecia “diárias” de R$ 100 para famílias vulneráveis, inclusive na fila de entrega de leite.
Ambas foram condenadas à cassação e inelegibilidade.
Para a cientista política Rita Biason, coordenadora de pesquisas do Instituto Não Aceito Corrupção, a venda do voto traz consequências diretas para o eleitor.
“O voto não tem preço, ele tem consequência. Na medida em que você vende o seu voto, as políticas públicas deixam de ser eficazes, afetando diretamente a qualidade da saúde e da infraestrutura do entorno do cidadão”, diz Rita Biason.
Em nota, o ex-vereador de Goioerê Walter Fernandes Martins afirmou que sempre negou as acusações. Ele também lembrou que, apesar de ter tido o mandato cassado, concluiu o sexto mandato enquanto os recursos tramitavam na Justiça.
A reportagem entrou em contato com os advogados da servidora Edina Frasson e da vereadora de Moreira Sales, Priscilla Albano, mas não havia recebido resposta até a última atualização desta reportagem.
Punições para quem compra e para quem vende voto
PF abriu mais 7.600 investigações de crime eleitoral em 10 anos.
Arte/GloboNews
De acordo com o Artigo 299 do Código Eleitoral, tanto o ato de comprar quanto o de vender o voto são condutas criminosas. As punições previstas incluem:
Prisão: Pena de até quatro anos de reclusão.
Multa: Aplicação de penalidade financeira.
Para o político: Além da esfera criminal, a lei prevê a cassação do mandato e a inelegibilidade por oito anos.
A promessa de comprar ou o pedido do eleitor para vender o voto já configuram o crime, mesmo que a transação não seja comprovada.


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