Na eleição presidencial mais disputada desde a redemocratização, os dois principais candidatos chegam ao primeiro turno, que será realizado neste domingo 4 de outubro, tecnicamente empatados. Segundo a última pesquisa do Datafolha, divulgada na noite de ontem, 1º, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) tem 42% das intenções de voto no primeiro turno, contra 38% do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Como a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, o empate ocorre no limite da margem, já que ambos podem estar com 40% das intenções. Desde o início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV, em 28 de agosto, um grupo de eleitores tem tudo para decidir a eleição – e não são os indecisos.
Com a disputa polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro praticamente desde o início, o empate técnico se estende para o segundo turno – e, como é esta rodada que selará o destino do país nos próximos quatro anos, as mudanças de intenção de voto nesta etapa são as mais relevantes. Ao se comparar a pesquisa de segundo turno realizada pelo Datafolha em 24 de agosto – antes, portanto, do início oficial das campanhas – com a de ontem, a primeira conclusão é que o número de indecisos é quase irrelevante para o desfecho da corrida presidencial.
O grupo representava 2% dos entrevistados em agosto e recuou para 1% em outubro. A redução de 1 ponto percentual é incapaz de explicar, sozinha, como Lula passou de 47% para 48% das intenções nesse intervalo (alta de 1 ponto percentual), e como Flávio subiu de 43% para 45% (alta de 2 pontos). Assim, somando-se as duas candidaturas, houve uma alta de 3 pontos.
A diferença veio de outro grupo de eleitores que está mudando rapidamente de posição nas últimas semanas. Trata-se daqueles que declararam que votarão em branco ou anularão o voto no segundo turno a ser realizado em 25 de outubro. Tais eleitores representavam 9% dos entrevistados em agosto e recuaram 3 pontos percentuais, para 6%, agora.
Isso significa que, diante da forte polarização das eleições, muitos brasileiros dispostos a anular o voto estão mudando de ideia e se engajando na disputa. O movimento é mais positivo para Flávio Bolsonaro que para Lula. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro atraiu dois em cada três eleitores que decidiram não anular mais o voto e escolher alguém no segundo turno. Já Lula ficou com apenas um eleitor em cada três.
Quando se considera a faixa de renda do entrevistado, a mudança mais relevante é vista na camada que ganha de 2 a 5 salários mínimos – isto é, de 3 242 reais a 8 105 reais mensais. Entre esses eleitores, 10% afirmaram em agosto que votariam em branco ou anulariam o voto no segundo turno. Agora, o percentual é de apenas 5%, o que demonstra um crescente engajamento dessa camada na eleição, após o impacto da propaganda eleitoral gratuita de rádio e de TV e da maior exposição ao tema na mídia em geral. O número de indecisos nessa faixa de renda também recuou de 2% para 1%
Novamente, trata-se de uma má notícia para Lula. Entre os que ganham de 2 a 5 salários mínimos, a fatia de brancos, nulos e indecisos recuou de um total de 12% para 6% – uma redução de 6 pontos percentuais. As intenções de voto no petista, contudo, cresceram apenas 1 ponto percentual nesse estrato do eleitorado, passando de 37% para 38%. Seu adversário, Flávio Bolsonaro, capitalizou o restante, avançando de 51% para 56% das menções entre esse público.
O mau desempenho de Lula nessa camada é ainda mais emblemático, quando se lembra que a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 000 reais mensais (cerca de 3 salários mínimos) beneficia parte desse eleitorado que está trocando o voto em branco pelo apoio ao seu rival. Em vigor desde 1º de janeiro deste ano, a isenção era uma das apostas do presidente para agradar a classe média e garantir sua quarta temporada no Palácio do Planalto.




