O espírito de Dostoiévksi baixou em Gilberto Schwartsmann. E o médico e escritor gaúcho solta o verbo e a voz do autor de Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov para mostrar o que continuamos a aprender com uma das maiores obras da literatura universal.
Em Fiódor, que acaba de sair pela editora Sulina, somos a plateia de um monólogo narrado por ninguém mais ninguém menos que a alma de Dostoiévksi – exemplo e emblema da “alma russa”.
Com a paixão e o conhecimento de quem se dedicou durante anos aos livros do escritor, Schwartsmann percorre seus títulos desde a estreia com Gente Pobre até clássicos consagrados como Os Demônios e Os Irmãos Karamázov. Um trajeto marcado por sofrimentos – exílios, doenças, mortes em família… -, e grandes dúvidas e aspirações espirituais que transbordam da vida real a milhares de páginas.
“Os meus personagens são angustiados, questionam o mundo em que vivem, querem saber quem eles próprios são, constroem teorias sobre os fenômenos e – muito importante – são doentes”, narra Fiódor.
Mas por que martelar tanto no credo e na cruz da humanidade? Porque “uma sociedade que nega ou foge do sofrimento desaprende a lidar com a realidade”… Porque nós “precisamos de propósito, mesmo que saibamos que ele é ilusório”, responde o espírito.

Eis um dos máximos expoentes da “alma russa”, tema inclusive de uma exposição organizada pelo autor de Fiódor, Russkaya dusha, que ocorre até o dia 14 de novembro no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Ali, além de Dostoíevski, outras obras e espíritos iluminam (e assombram) o visitante, entre eles Pushkin, Gogol e Tolstói.
Mas sejamos guiados por quem foi possuído pelo ardor e o saber destes russos. Com a palavra, Gilberto Schwartsmann.
Como Dostoiévski entrou em sua vida e de que forma surgiu o insight de incorporá-lo como voz narrativa de um livro? Desde o final da adolescência, interessei-me pela obra de Dostoiévski. Fiquei inicialmente muito impressionado com a sua segunda obra, intitulada O Duplo, publicada em 1846, um ano após a sua obra de estreia, Gente Pobre. Era a história de um indivíduo que encontra um “duplo”, que era idêntico ao personagem, mas com todas as virtudes que lhe faltavam. Eu li depois Noites Brancas, a história de um encontro de dois jovens numa ponte em São Petersburgo, durante as chamadas “noites brancas”, em que quase não escurece por três a quatro dias, publicado em 1848, um texto muito comovente. Eu fiquei fascinado por Dostoiévski. Mas o seu melhor viria com a leitura, anos depois, de Memórias do Subsolo (1864), Crime e Castigo (1866), Os Demônios (1872), O Idiota (1869) e a sua obra mais impressionante, Os Irmãos Karamázov (1880), a qual Freud considera o melhor romance já escrito.
Qual seria o legado do autor mais urgente ou precioso para os tempos atuais? As obras de Dostoiévski, em especial Memórias do Subsolo, O Idiota, Crime e Castigo, Os Demônios e Os Irmãos Karamázov mergulham na temática dos nossos valores éticos, morais, o papel da religião nas nossas vidas, a existência ou não de Deus e as consequências de um mundo baseado na razão, em que o ser humano prescinda da fé. Dostoiévski antecipa em sua obra os movimentos radicais que surgiriam na Rússia a partir da segunda metade do século XIX e das primeiras décadas do XX, decorrentes das correntes com forte visão niilista e racionalista – muito violentos e radicais. Se eu pudesse recomendar um texto apenas de Dostoiévski, para que o leitor pudesse desfrutar da obra deste grande autor, eu sugeriria a parábola O Grande Inquisidor, da obra Os Irmãos Karamázov. Há poucas reflexões tão profundas na literatura, sobre as nossas questões morais e religiosas, em especial sobre o preço de nossas escolhas, o chamado “livre-arbítrio”.
“Uma sociedade que nega o sofrimento desaprende a lidar com a realidade”: por que o senhor insiste no poder dessa mensagem do autor russo? Dostoiévski discute a questão do sofrimento em várias de suas obras, como por exemplo em Memórias do Subsolo. Nela, o personagem vive alienado, assombrado com o mundo exterior, sofre com seus dilemas existenciais, em meio a sua solidão, a sua baixa autoestima, sensação de invisibilidade e frustração com a sua própria vida. Em sua obra Recordações da Casa dos Mortos, publicada em 1862, Dostoiévski descreve os horrores que viveu pessoalmente e testemunhou durante os seus anos de prisão e trabalhos forçados na Sibéria. Ele dizia que o sofrer nos faz ver certas coisas que não conseguimos enxergar normalmente. Pode ser. Num mundo como o de hoje, em que tudo é espetacularizado e tratado com muita superficialidade, em que até mesmo o luto é banalizado, numa sociedade em que se cultivam as aparências, em que o valor da vida humana é trivializado, a leitura das obras de Dostoiévski se torna muito importante. Ele nos faz questionar o sentido da vida humana.
Como médico, em particular, qual a principal lição que se aprende lendo o escritor russo? Os médicos e os escritores são expostos de forma muito particular aos dilemas da vida humana e aos nossos sentimentos mais profundos, como a dor, a solidão e a morte. Estes são temas centrais na obra de Dostoiévski e influenciaram muitos autores e pensadores que vieram depois, como Faulkner, Nietzsche, Joyce, Sartre, Virgínia Woolf, Hemingway e mesmo a psicanálise de Freud. Pamuk, escritor turco ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, diz que sofreu grande influência de Dostoiévski. Como os filósofos, os médicos e os escritores costumam vivenciar e refletir sobre as nossas questões existenciais, daí a observação de que há muitos médicos escritores. Tchecov, um dos maiores contistas e dramaturgos de todos os tempos, era médico. Bulgákov era médico. O nosso Guimarães Rosa formou-se em medicina, mas não a exerceu. Pedro Nava, Moacir Scliar e vários outros grandes escritores eram também médicos.
Qual a obra de Dostoiévski que mais o tocou até hoje? Sem dúvida, Os Irmãos Karamázov.
Falando sobre a “alma russa”, o que ela tem de semelhança e diferença em relação à alma brasileira? Dostoiévski disse uma vez que a “alma russa” é marcada pelo sofrer, pela necessidade espiritual dos russos de gravitar em torno de Cristo, da sua humildade e da sua opção de morrer na cruz em nome da humanidade. Turguêniev dizia que a “alma russa” tinha algo da ingenuidade de uma criança. Muitos autores dizem que esta “alma” é forjada na imensidão de um país entre dois mundos – a Europa e a Ásia – de fronteiras longínquas e quase impenetráveis, um país que já se viu como “salvador da humanidade” em vários momentos críticos da História, derrotando os exércitos de Napoleão e de Hitler. Os russos têm um sentimento de que são como guardiões da humanidade, ao menos na literatura da chamada Era de Ouro, do século XIX, com Puchkin, Gogol, Turgueniev, Dostoiévski, Tolstói, entre outros. Em sua história, os russos não tiveram o mesmo destino da Europa Ocidental. Os russos ficaram à parte nos séculos iniciais do cristianismo, não viveram as Cruzadas, sofreram a invasão tártaro-mongol, viveram o Cisma do Oriente – o isolamento da Igreja Ortodoxa – não viveram os romances de cavalaria e o amor cortês, passaram ao lado da Renascença, tiveram um destino distinto do resto da Europa Ocidental.
Essa história forjou uma literatura única? O grande intelectual Otto Maria Carpeaux dizia que a literatura russa foi bem mais do que literatura. Foi jornalismo, num país em que não havia imprensa livre. Foi tribuna política, num país em que não havia parlamento. Foi catedral universitária, num país em que as universidades eram vigiadas pela polícia. E foi púlpito, num país em que a própria Igreja estava muda. A censura era fortíssima no período czarista – Puchkin era censurado diretamente pelo czar. E foi pior no período soviético, sobretudo no stalinismo. Stálin sabia até o número de máquinas de escrever que havia no país. Mas, na Rússia, o lançamento de um bom livro sempre foi um acontecimento. O escritor se via como um ser político importante para o povo e os destinos do país. No Brasil, a nossa história e a nossa formação cultural são bem diferentes.
Se o senhor pudesse escolher três obras da literatura russa para indicar ao leitor brasileiro – a fim de tentar captar essa alma russa -, quais seriam elas? Há tantas obras maravilhosas! Eu sugeriria ao leitor começar com a leitura do conto O Capote, de Gogol; depois leria A Morte de Ivan Illich, de Tolstói; e – obviamente – mergulharia na grandeza de Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski.
Fonte: Abril

