Segundo a manchete principal do Drudge Report, antes dos resultados, Donald Trump pode fugir para a Rússia depois da derrota republicana nas eleições para o Congresso — esta, indubitavelmente, histórica. Parece piada, mas para um site que tem até um bilhão de visualizações e pauta em vários sentidos o resto da mídia, a coisa é séria. Parece ter havido uma brasilianização de alguns órgãos de imprensa, assumindo que quanto mais fake, melhor a notícia.
O Drudge é um agregador: foi buscar a história da “fuga para a Rússia” num site obscuro, o Raw Story, que encontrou uma “especialista” no mundo acadêmico para dar uma falsa credibilidade à informação totalmente inventada, de teor nada menos que surrealista.
Outras especulações absurdas: o presidente daria um golpe. Com que meios, os carrinhos de golfe de Mar-a-Lago? Paralelamente, circulou via Daily Mail, outra potência da mídia, que Trump estaria “considerando” um ataque nuclear tático contra a Montanha da Picareta, esconderijo de uma parte importante do programa nuclear iraniano. Fonte: um ex-agente da CIA, John Kiriakou, que desde sua saída, no longínquo ano de 2004, vive de vender livros e denúncias contra o serviço de inteligência.
O que é para valer: surpreendentemente, Trump anunciou de última hora que a ajuda americana a Israel vai acabar no fim do ano, uma guinada de enormes consequências.
O estilo beligerante de Trump leva muitos comentaristas a perder o sangue-frio e, mesmo longe do campo das maluquices, exagerar nas consequências da perda do controle republicano na Câmara e no Senado. Os números falam por si: Senado, 54 democratas contra 42 republicanos; Câmara, 224 a 135. Os dois candidatos contra quem Trump mais se empenhou: John Talarico, suave e sem nada do estilo caubói texano, foi eleito senador pelo estado do boi e da bala; e o islamista Abdul El-Sayed, simpatizante da Irmandade Muçulmana, tornou-se senador pelo Michigan.
CAPITAL QUEIMADO
É uma derrota arrasadora, mas faz parte do jogo democrático, não pode ser apresentada como um preâmbulo do fim do mundo.
Nada menos que 15 dos 19 presidentes desde 1900 viram seus partidos perder a maioria durante pelo menos uma parte de seus mandatos. Desses, quatro foram minoritários durante todo o mandato: Richard Nixon, Gerald Ford, Ronald Reagan e George Bush pai. Nixon só foi obrigado a renunciar porque senadores republicanos iriam votar contra ele por causa da teia de mentiras tecida em torno do caso Watergate. Reagan está sempre na lista dos dez melhores presidentes americanos e Bush presidiu, na medida certa, com contenção e equilíbrio, o fim da Guerra Fria.
Trump levou uma tremenda pancada? Certamente. Ele queimou o capital político exibido em 2024 entre faixas importantes do eleitorado. Só para lembrar: teve, na eleição presidencial, a maioria categórica na faixa dos homens jovens brancos de 18 a 29 anos e conseguiu 49% do eleitorado hispânico masculino.
Uma pesquisa feita pelo New York Times mostrou que agora sete em cada dez homens da faixa dos 18 aos 29 anos desaprovam Trump.
DESACASALAMENTO
As maiores causas da decepção são conhecidas: o custo de vida alto, prejudicando os bons resultados do crescimento de 3,7% do PIB, e a extrema impopularidade da guerra no Irã. Que além de aumentar o preço da gasolina ainda teve resultados inconclusivos, aumentando a boataria de que, passada a eleição, Trump vai demitir o secretário da Guerra, Pete Hegseth, por não entregar a prometida vitória “em cinco semanas”.
Faz parte do jogo. Assim como faz parte que o assunto dominante passe a ser a eleição presidencial de 2028. Os pré-candidatos democratas ganham maior destaque. Os nomes mais cotados são Gavin Newson, governador da Califórnia, com serviços a mostrar (PIB crescendo acima de uma média nacional já alta, lembrando que o estado é a quarta maior economia do mundo, com 4,5 trilhões de dólares, 60% maior do que o Brasil); e Kamala Harris, com a vantagem de ser o nome mais conhecido. Mais uma porção de esperançosos, incluindo uma estrela em ascensão, Jon Ossof, reeleito senador pela Geórgia. A vitória tem muitos pais e muitos deles estão sonhando com a Casa Branca.
Entre os republicanos como JD Vance e Marco Rubio, tem que haver uma complexa dança de desacasalamento com Trump e o efeito tóxico que ele passou a ter. “Façam de conta que eu estou na cédula”, apelou o presidente durante a campanha. Milhões de americanos fizeram isso e votaram contra ele, acentuando o caráter plebiscitário dessa eleição.
E agora? “Eles vão mandar coisas insanas e eu vou vetar”, resumiu Trump sobre o tipo de legislação que espera da nova maioria e como pretende reagir. Também faz parte do jogo. Durante seus dois mandatos, Barack Obama vetou 12 projetos de lei mandados pela Câmara. É um bocado de vetos.
Fonte: Abril


