Um conjunto de mensagens escritas por Daniel Vorcaro e enviadas na forma de print de celular para o WhatsApp do ministro Alexandre de Moraes revelam uma intensa troca de informações entre o magistrado e o banqueiro nos dias que antecederam a prisão do dono do Banco Master.
A PF conseguiu recuperar os prints no celular de Daniel Vorcaro, mas não conseguiu obter as mensagens enviadas por Moraes ao banqueiro. Com isso, é possível acompanhar as dúvidas e reações de Vorcaro de acordo com o que ele recebia de informações na conversa.
A troca de mensagens começa com Vorcaro aparentemente sendo informado de alguma coisa que estaria para acontecer na Justiça. “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que de para bloquear?”, pergunta o banqueiro, diante da mensagem de Moraes no dia 4 de novembro de 2025.
Minutos depois, ele volta a mandar mensagem a Moraes: “Porque, se conseguem alguma medida contra agora, vai tudo por água abaixo. Essa é minha maior preocupação”, diz Vorcaro três minutos depois da primeira mensagem.
Depois de oito minutos, nova mensagem de Vorcaro a Moraes. O banqueiro pergunta se um interlocutor do magistrado não conseguiria “segurar isso” para que ele tivesse tempo para “falar com Paulo”, o chefe da PGR Paulo Gonet.
“Foda que não sei nem do que se trata pra poder tentar atuar. Se vier algo Bacen entrará na hora. (sic) Já me avisaram isso. FGC também. Ele não consegue segurar isso? Ou passar de onde seria pra podermos tentar falar com Paulo”, diz Vorcaro a Moraes.
Um minuto depois, nova mensagem: “Estou nos Emirados Árabes tratando com investidor. Se tiver algo, perco tudo aqui também”.
Mais quinze minutos se passam e Vorcaro questiona Moraes sobre uma aparente ação que se desenhava contra o banqueiro. Novamente, um terceiro informante aparece como alguém que poderia atualizar Moraes sobre a situação de Vorcaro: “Médio a grave seria busca ou quebra de sigilo? Só vai saber quando ele chamar, né”.
Diante da possível resposta de Moraes, Vorcaro avisou três minutos depois: “Vou ficar acordado, então, aqui pra te aguardar”.
Uma hora e meia se passam até que Vorcaro volta a Moraes, agora atormentado e preocupado com o que aconteceria em relação ao seu banco, diante de investigações aparentemente em curso. O banqueiro pede que Moraes “deixe uma mensagem após falar com ele”, uma suposta fonte que informaria supostamente sobre o que seria a investigação contra o Master
“Vou dormir por aqui, que amanhã cedo tenho uma reunião importante. Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda a maldade. Como eu disse, não temos nada, nem o Banco Central abriu sequer um processo administrativo, e eles me auditam todos os dias. Estou pronto pra ir em qualquer um explicar qualquer coisa, mas uma medida drástica agora literalmente quebra o banco de modo irreversível. Se puder, me deixe uma mensagem após falar com ele”, diz Vorcaro.
No dia 5 de novembro pela manhã, Vorcaro retoma as mensagens com Moraes por volta de 11h16. Ele responde ao ministro estar “perdido” porque não sabe “nem qual inquérito é”. A mensagem mostra que o banqueiro ficou sabendo, por Moraes, das investigações e inicia uma busca, com seus advogados para entender com “Paulo”, o chefe da PGR, o que ocorreria.
“Estou com o Pier e o Podval, falaram com o Paulo ambos, mas foi dito que nem número tinha ainda, que estava designando a pessoa que iria cuidar”, diz Vorcaro a Moraes, sobre as informações que seus advogados teriam obtido com a PGR.
Cerca de vinte minutos depois, Vorcaro reforça a Moraes: “Se fosse possível saber o que é, entramos imediatamente”.
No fim da tarde do mesmo dia 5, Vorcaro escreve um texto longo a Moraes. Diz que o advogado Pierpaolo “tava querendo fazer uma petição” para buscar eventuais inquéritos e consulta Moraes se o ministro do STF “acha que vale a pena”.
Nesse ponto da conversa, uma nova face da relação de Vorcaro e Moraes aparece. Além de possível informante, o ministro se mostra um possível estrategista para o banqueiro: “Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo”.
O nome do chefe da PGR surge novamente na conversa: “Estamos no escuro. O Paulo só disse que tava olhando pessoalmente e que não teria sacanagem. Mas ontem ligou o alerta vermelho, né? Uma ação desmedida coloca em risco milhões de clientes”, disse Vorcaro a Moraes.
Cerca de quatro horas depois dessa mensagem, Vorcaro pergunta a Moraes, novamente, preocupado: “Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade e sacanagem?”
A conversa é retomada apenas no dia seguinte, dia 6 de novembro de 2025, por volta de 19h26. Vorcaro parece ter recebido uma informação de Moraes e busca tirar a dúvida: “Isso e Brasília? Sabe o tema? Estou seguro ou tem que entrar agora urgente?”
Uma série de mensagens mostram Vorcaro preocupado com a certeza de que a investigação estava em curso. Ele tenta durante vários dias conseguir um encontro pessoal com Moraes para “atualizar de tudo”, como diz na mensagem de 12 de novembro.
A conversa entre Moraes e Vorcaro, segundo mensagens do banqueiro, é marcada para as 14h30 do dia 14 de novembro, uma sexta-feira. Vorcaro seria preso na segunda-feira pela Polícia Federal, enquanto tentava deixar o Brasil e depois de ter trocado várias mensagens como Moraes sobre “bloquear” ações contra ele.
No dia da conversa pessoal com Moraes, no entanto, ele mostra que saiu tranquilizado do encontro. “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você”, escreve Vorcaro a Moraes.
No dia seguinte, 15 de novembro, Vorcaro parece mais preocupado. Novamente faz perguntas a Moraes, como se tivesse dúvida diante de informações que recebera do magistrado. “Que loucura. Bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda já tenho que estar fora?”, escreve Vorcaro a Moraes no dia 15 de novembro de 2025, por volta de 21h22 da noite.
Um minuto depois, Vorcaro escreve a Moraes de novo: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?”
No dia 16 de novembro, véspera da prisão, Vorcaro pede a Moraes para ver o ministro rapidamente: “Passo na sua casa ou prefere na minha?”
“Muita sacanagem isso. Estou perplexo e indignado. Esses caras vão destruir todo o negócio e sem volta. De repente até melhor eu encarar de frente. Temos que dar um jeito de desarmar isso meu Deus”, escreve Vorcaro a Moraes.
Com o avançar do relógio para a operação que prenderia Vorcaro, o banqueiro se mostra inquieto nas conversas com Moraes e faz várias perguntas:
“Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei dá pra segurar?”, escreve Vorcaro pedindo opinião de Moraes.
“É o Galipolo quem está pressionando isso para fazer intervenção?”, diz Vorcaro em outra mensagem minutos depois, acompanhada de um pedido para que Moraes tentasse marcar um encontro do banqueiro com o presidente do Banco Central.
“Tentar que o Galipolo me receba e eu apresente o que vamos protocolar essa semana. Vamos resolver tudo”, escreve Vorcaro a Moraes.
As horas se passam e Vorcaro manda uma mensagem perguntando a Moraes se “por aí estava tudo bem” e dizendo que estava em viagem e que se o chefe da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, pudesse “atrasar para oura semana” o banco dele não quebraria.
“Se o Andrei conseguir atrasar para outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, diz Vorcaro a Moraes. Não há no relatório da PF informações sobre o que fez o ministro do STF.
O fato é que Vorcaro acabou preso. As mensagens dele mostram que ele sabia o que estava para acontecer, só não tinha certeza sobre quando. “Você acha que pode acontecer amanhã de manhã”, pergunta a Moraes.
As conversas se seguem no dia da prisão, 17 de novembro de 2025, com Vorcaro perguntando a Moraes se ele havia “conseguido bloquear.




