Imagine um peixe de apenas 10 centímetros construindo sozinho uma figura geométrica de quase dois metros no fundo do oceano. Durante anos, mergulhadores no Japão encontraram esses misteriosos círculos desenhados na areia sem saber quem os produzia. A resposta revelou um comportamento surpreendente: machos de uma espécie de baiacu constroem essas estruturas para se reproduzir.

Qual peixe desenha círculos no fundo do mar?
O responsável é o baiacu-de-manchas-brancas, Torquigener albomaculosus, encontrado em águas próximas à ilha japonesa de Amami-Oshima. Os círculos começaram a ser observados por mergulhadores na década de 1990, mas somente em 2011 pesquisadores conseguiram identificar o pequeno peixe responsável pelas estruturas.
Um estudo publicado em 2013 na revista científica Scientific Reports, conduzido por Hiroshi Kawase, Yoji Okata e Kimiaki Ito, descreveu detalhadamente o fenômeno. Os pesquisadores acompanharam os animais durante o período reprodutivo e descobriram que cada macho constrói seu próprio círculo.

Como um peixe tão pequeno constrói algo tão grande?
Usando principalmente as nadadeiras e o próprio corpo, o macho movimenta a areia repetidas vezes. Ele nada em direção ao centro a partir de diferentes pontos e abre sulcos no fundo marinho. Aos poucos, surgem picos e vales distribuídos radialmente, formando uma estrutura extremamente organizada.
As observações científicas mostram que a construção pode levar aproximadamente sete a nove dias. Um estudo publicado em 2018 na Scientific Reports demonstrou ainda que o desenho complexo pode surgir da repetição de movimentos relativamente simples executados pelo peixe.
- O baiacu mede aproximadamente 10 centímetros de comprimento.
- O círculo construído pelo macho pode chegar a cerca de dois metros de diâmetro.
- Sulcos e elevações são produzidos pelo movimento das nadadeiras e do corpo.
- A região central recebe desenhos menores e uma camada de areia mais fina.
Por que os machos fazem esses desenhos geométricos?
Os círculos são, na verdade, ninhos ligados à reprodução. Durante as observações realizadas no Japão, pesquisadores verificaram que as fêmeas visitavam as estruturas e avaliavam o local antes da desova. Características do círculo parecem participar da escolha feita pela fêmea.
O trabalho publicado em 2013 também mostrou que os sulcos não têm apenas função visual. A disposição das elevações e depressões modifica o fluxo da água e ajuda a transportar partículas finas de areia para o centro, justamente a área utilizada durante a reprodução.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Ciencianautas Legendas mostrando o baiacu-de-manchas-brancas fazendo sua obra de arte no fundo dos oceanos.
O que acontece depois que a fêmea escolhe o círculo?
Quando uma fêmea aceita o local, a desova acontece na parte central da estrutura. Depois disso, é o macho que permanece responsável pelos ovos. Pesquisas posteriores sobre a espécie registraram esse cuidado paternal, que continua até a eclosão dos filhotes.
O esforço impressiona ainda mais porque o elaborado desenho não é simplesmente restaurado para a próxima reprodução. Os machos podem construir novos círculos em ciclos seguintes, repetindo um trabalho que envolve centenas de movimentos sobre uma área muitas vezes maior do que seu próprio corpo.
Por que esses círculos ainda interessam aos cientistas?
Em 2022, pesquisadores publicaram modelos tridimensionais dessas estruturas na revista Scientific Data. As análises reforçaram que o formato dos sulcos direciona a água e partículas finas para a região central. A eficiência da construção despertou até interesse em biomimética, área que procura soluções inspiradas em estruturas naturais.
O que parecia ser apenas um misterioso desenho na areia acabou revelando uma extraordinária estratégia reprodutiva. Na próxima vez que uma formação geométrica perfeita parecer obra humana, vale lembrar desse pequeno arquiteto submarino: com poucos centímetros de comprimento, ele transforma o fundo do mar inteiro em uma demonstração de habilidade para conquistar uma parceira.

