Uma pesquisa de doutorado da Universidade de São Paulo (USP) propôs um novo sistema para classificar organismos capazes de sobreviver em ambientes com grande concentração de sal. O trabalho foi desenvolvido pela cientista molecular Ana Paula Schiavo, no Instituto de Química da universidade, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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O estudo (leia aqui) analisou microrganismos encontrados em uma região de Diamantina (MG) com solo rico em ferro, considerada um ambiente semelhante a determinadas condições presentes em Marte. A investigação buscou compreender como formas de vida microscópicas podem resistir simultaneamente à alta salinidade e à radiação ultravioleta intensa.
A proposta surgiu diante da falta de um padrão aceito pela comunidade científica para definir diferentes grupos de extremófilos, organismos adaptados a condições consideradas severas para a maioria dos seres vivos. A nova classificação usa critérios estatísticos baseados no crescimento ideal das espécies em diferentes níveis de salinidade.
Novo critério busca organizar estudos sobre organismos halofílicos

Os chamados halófilos fazem parte do grupo dos extremófilos e são organismos associados a ambientes com elevada quantidade de cloreto de sódio. Até então, as categorias utilizadas para diferenciar espécies levemente, moderadamente ou extremamente halofílicas dependiam de faixas de concentração de sal que, segundo a pesquisa, não possuíam uma justificativa científica uniforme.
Para chegar a uma nova proposta, Schiavo reuniu dados de 1.298 espécies descritas como halofílicas ou halotolerantes em artigos publicados entre 1967 e 2021 no International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology. A análise identificou divergências nos critérios adotados por diferentes estudos, inclusive na definição das condições consideradas extremas.
A pesquisadora também observou que alguns trabalhos não determinavam corretamente o ponto ótimo de crescimento dos microrganismos, ou seja, a condição de salinidade na qual cada espécie apresenta maior capacidade de desenvolvimento.
O sistema apresentado pela tese utiliza uma abordagem estatística baseada em quartis, uma ferramenta matemática usada para dividir conjuntos de dados em grupos de acordo com sua distribuição. A referência inicial adotada foi a concentração média de sal encontrada nos oceanos.
A partir desse parâmetro, organismos cujo crescimento ideal ocorre em níveis de sal semelhantes ou inferiores aos do ambiente marinho são classificados como não halofílicos ou halotolerantes. Acima desse limite, os microrganismos são distribuídos entre categorias de halofilia leve, moderada e extrema conforme sua adaptação a concentrações maiores de sal.
De acordo com o microbiologista Rubens Tadeu Duarte, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e especialista na área, a proposta representa uma contribuição relevante por estabelecer critérios mais objetivos para o campo. Ele não participou da pesquisa.
O professor Fabio Rodrigues também destacou a importância do método apresentado no estudo. Para ele, a principal inovação está na substituição de classificações históricas sem fundamentação clara por um modelo baseado em análise quantitativa.
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Pesquisa pode contribuir para estudos sobre vida em Marte

Além de reorganizar a classificação dos halófilos, o trabalho tem relação com a astrobiologia, área dedicada ao estudo da origem, evolução e distribuição da vida no Universo. Marte é um dos principais focos desse campo porque apresenta ambientes com características que podem ajudar a investigar os limites da sobrevivência biológica.
O planeta possui regiões com sais em alta concentração, incluindo compostos considerados prejudiciais aos organismos terrestres, além de receber intensa radiação ultravioleta em sua superfície. A pesquisa considera que, caso tenha existido vida em Marte, uma possibilidade seria sua permanência em ambientes subterrâneos, como aquíferos protegidos e mantidos líquidos pela presença de sais.
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Os microrganismos estudados em Minas Gerais foram utilizados como referência para compreender estratégias de adaptação a múltiplas condições extremas. A expectativa é que uma classificação mais padronizada facilite a comunicação entre pesquisadores que investigam organismos resistentes a ambientes de alta salinidade, inclusive em contextos relacionados à exploração espacial.
A nova proposta também deu origem ao artigo preliminar “Proposal for a New Halophile Classification System Based on the Statistical Rarity Definition of Extremophiles”, que está em processo de avaliação por uma revista científica especializada em extremófilos.
Wagner Edwards
Wagner Edwards é Bacharel em Jornalismo e atua como Analista de SEO e de Conteúdo no Olhar Digital. Possui experiência, também, na redação, edição e produção de textos para notícias e reportagens.
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