
Campinas concentra 7,5 mil dos 14.771 sem paternidade na certidão na região
A ajudante de cozinha de Piracicaba (SP), Maria Aparecida Pereira, ficou mais de 50 anos sem nenhum sobrenome na carteira de identidade nacional. Adotada na infância, ela descobriu que sua certidão de nascimento não tinha o nome do pai nem da mãe biológicos.
Após procurar aDefensoria Pública do Estado de São Paulo (DPE-SP), ela vai conseguir a atualização. “É bom saber a quem você realmente pertence”, alegra-se.
“Nem tinha sobrenome. Pereira eu tenho porque eu casei. Eu fui procurar a Defensoria porque, para a gente fazer esse DNA, eu com a minha mãe, a gente ia ter que pagar e a gente não tinha condições”, detalha.
Maria Aparecida integra lista de mais de 2,3 mil pessoas sem registro de filiação completo no documento em Piracicaba.
As regiões de Piracicaba (SP) e Campinas (SP) somam quase 15 mil pessoas na mesma condição. Veja dados, abaixo.
Maria Aparecida, de Piracicaba (SP), ficou mais de 50 anos sem registro de sobrenome na carteira de identidade
Reprodução/EPTV
Maria aguarda a regularização dos documentos e pretende aproveitar a oportunidade para mudar de nome.
“É gostoso você saber de onde você veio, a quem realmente você pertence. A minha família é adotiva, me deu amor, carinho, me ensinou a ser quem eu sou. […] Falei: ‘Já que eu vou mudar de vida, vou mudar de nome’. […] Só estou esperando e acredito que até o final do ano a gente vai ter uma resposta”, afirma, otimista.
Durante o atendimento, Maria descobriu outros erros graves no documento: além de não ter filiação, ela havia sido registrada com o sexo masculino.
“Daí, quando viram que o meu registro estava na situação que estava, sem nome de pai, sem nome de mãe, como masculino, a gente viu que precisava resolver aquela situação”, conta a ajudante de cozinha.
Região de Campinas tem 10,6 mil crianças sem nome do pai desde 2016
Reprodução/EPTV
Mutirão ‘Meu Pai Tem Nome’
Em Piracicaba (SP), 2.381 pessoas não têm o nome do pai no registro de nascimento, aponta levantamento da Defensoria Pública de São Paulo. Em Limeira (SP), são 1.738.
Para tentar mudar essa realidade, estão abertas as inscrições para a edição 2026 do mutirão nacional “Meu Pai Tem Nome”. A campanha oferece atendimento gratuito para quem deseja reconhecer a paternidade formalmente, investigar o vínculo familiar ou regularizar o registro civil.
Segundo a coordenadora da Defensoria Pública de Piracicaba, Carolina Brambila Bega, o reconhecimento da paternidade garante acesso a direitos básicos e fortalece os vínculos familiares.
“Juridicamente, a inclusão na certidão de nascimento permite a regulamentação da convivência, permite a possibilidade de cobrar alimentos, também dá direito à herança e tem diversos outros aspectos, por exemplo, previdenciários, como pensão por morte”, frisa.
Região de Campinas
Campinas (SP), Americana (SP), Sumaré (SP) e Artur Nogueira (SP) somam 10.652 registros de nascimento sem o nome do pai desde 2016. Os dados são da Defensoria Pública de São Paulo. Apenas neste ano, até 15 de julho, as quatro cidades contabilizaram 565 novos casos.
Campinas lidera o ranking regional de crianças registradas apenas com o nome da mãe. Veja os números totais desde 2016 e os casos isolados de 2026 (até 15 de julho):
Campinas: 7.571 (410 em 2026)
Sumaré: 1.798 (81 em 2026)
Americana: 974 (60 em 2026)
Artur Nogueira: 309 (14 em 2026)
Histórias por trás dos números
A auxiliar de limpeza Andréia Pereira Barbosa, de Piracicaba, tenta há anos incluir o nome do pai no registro do filho mais velho. Ela conta que o ex-companheiro negou a paternidade assim que soube da gravidez.
Andréia buscou a Defensoria Pública para fazer o exame de DNA, mas o homem não apareceu. Hoje, ela lida com as dúvidas da criança.
“Marcou o exame para fazer pela Defensoria. Aí ele não compareceu. Ele [o filho] questiona, pergunta por que o pai dele não quis registrar ele”,conta a auxiliar de limpeza.
A faxineira Fabiana Fernanda do Prado Rodrigues vive uma situação parecida. Dos quatro filhos, os dois mais novos têm apenas o nome da mãe na certidão. “Eles não quiseram registrar e falaram que não era deles”, relata.
Ela afirma que buscou a Justiça e tentou conversar com os pais das crianças, mas não conseguiu resolver o problema. Agora, espera conseguir o registro completo no mutirão.
“Eu preciso que ele crie o registro do pai porque, na hora que ele crescer, ele vai falar: ‘Eu tenho um pai’, né?”, diz.
Como participar do mutirão
As inscrições terminam em 30 de julho. Os interessados devem acessar a assistente virtual Júlia, no site da Defensoria Pública de São Paulo. O atendimento presencial ocorrerá no dia 1º de agosto, em mais de 60 postos do estado.
Durante o evento, a Defensoria contará com equipes de cartórios e do Instituto de Medicina Social e de Criminologia (Imesc). Veja os serviços oferecidos:
Exame de DNA gratuito na hora;
Reconhecimento voluntário de paternidade (biológica ou socioafetiva);
Acordos de pensão alimentícia, guarda e visitas;
Orientação jurídica para abertura de ações judiciais.
Serviço
Mutirão “Meu Pai Tem Nome”
🗓️ Inscrições: até 30 de julho;
💻 Como se inscrever: pelo site da Defensoria Pública de São Paulo (DPE-SP), com a assistente virtual Júlia;
🤝 Atendimento presencial: 1º de agosto;
📍 Onde: em mais de 60 postos no estado. Na região, haverá atendimento em Americana, Artur Nogueira, Campinas, Limeira, Piracicaba e Sumaré.
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