Phantom Blade Zero é um dos jogos de ação mais fascinantes e caprichados dos últimos anos. Com kung fu, capoeira, mitologia chinesa e magia, o game combina combates intensos, visual impressionante e dezenas de horas de aventura para construir uma jornada que ganha personalidade aos poucos.
O fio condutor dessa aventura de pouco mais de 20 horas é a rivalidade entre Soul e Zuo Shang, irmãos de criação e espadachins de elite que cresceram e treinaram juntos em uma ordem secreta de guerreiros. Acusado pela morte do líder do grupo, Soul enfrenta o antigo companheiro em um duelo quase fatal. Os corações de ambos são atacados, mas um curandeiro misterioso consegue salvá-los temporariamente. Cabe então a Soul partir em busca de uma cura definitiva.
A história segue a tradição wuxia, gênero que combina artes marciais e odisseias fantásticas em cenários inspirados na China antiga. No videogame, essa fórmula ganha combates desafiadores, chefões variados e um arsenal impressionante. O estúdio chinês S-Game batizou essa mistura de kungfupunk, conceito que combina elementos tradicionais com violência estilizada, componentes mecânicos e robóticos e outros estilos de luta, como a capoeira brasileira.
O universo ganha vida especialmente nas animações das batalhas, que contam com a participação de Donnie Yen. Conhecido pelos filmes da série Ip Man e por Star Wars: Rogue One, o ator e artista marcial participou das sessões de captura de movimentos para dar vida aos personagens.
Os combates são desafiadores e exigem estratégia. O sistema incentiva a alternar comandos e equipamentos para manter sequências de ataques e quebrar a defesa dos adversários e a profundidade fica ainda mais evidente contra os chefões, com defesas resistentes e repertórios variados de golpes. Algumas lutas podem se tornar repetitivas e cansativas, mas isso não chega a comprometer os demais atrativos do jogo.

Soul pode equipar duas armas principais, que vão de espadas e lanças a lâminas menores para duas mãos e até pequenos canhões. Há ainda dois espaços para Armas-Fantasmas, itens especiais de uso limitado que provocam efeitos poderosos e assumem formas variadas, de machados e foices a escudos e instrumentos musicais.
É tentador classificar Phantom Blade Zero como mais um ‘soulslike’, herdeiro da tradição de Dark Souls, série influente criada pelo estúdio japonês FromSoftware. A comparação faz sentido pelos combates desafiadores e pela mitologia própria, mas não conta a história toda. Aqui, o foco está menos na dificuldade como um fim em si mesma e mais na jornada. O combate é o eixo da experiência, é muito mais sobre como o combate é a alma desse universo, faz a história andar e tudo crescer junto.
Essa jornada atravessa cenários grandiosos, com florestas, rios, vilas nas montanhas, cavernas de gelo e uma metrópole imensa, repleta de torres e túneis. O cuidado da equipe de desenvolvimento aparece na riqueza das paisagens, das construções e dos ornamentos dos personagens. Alguns lugares têm tantos detalhes e enfeites que mais de uma vez me peguei imaginando quanto tempo foi necessário para criar cada cenário.

A exploração recompensa a curiosidade com recursos para evoluir Soul e suas habilidades, além de documentos, animações e missões opcionais que aprofundam a história. Também chama a atenção a variedade de estilos visuais adotados pela S-Game. Enquanto as cenas principais usam computação gráfica realista, outras recorrem ao anime, a grafismos saturados e até a ilustrações feitas à mão, de aparência mais rústica.
O esmero técnico se estende ao som. A trilha combina instrumentos chineses tradicionais com arranjos modernos, incluindo rock e música eletrônica, para intensificar momentos da história e dos combates. Mas o destaque está também no design sonoro: os efeitos das lutas ajudam a identificar o que acontece durante os confrontos, enquanto sons ambientes, como o vento e a água dos rios, dão mais vida aos cenários.
Phantom Blade é uma enorme tapeçaria que se inspira em culturas e elementos do mais diversos para contar uma fábula deslumbrante e única. Seus combates são o coração de uma experiência que se destaca pelo cuidado com a construção de mundo, a narrativa e a apresentação audiovisual. As opções de configuração permitem ajustar o desafio a diferentes expectativas, enquanto o conteúdo opcional convida quem se envolver com a história a explorar ainda mais esse universo.
Fonte: Abril


