
Variação térmica na cidade de SP
Gabriela Biló/Estadão Conteúdo e Renato S. Cerqueira/Futura Press/Estadão Conteúdo
Você já ouviu aquela máxima: “São Paulo é imprevisível, tem as quatro estações do ano no mesmo dia”? Segundo especialistas, a frase, mais do que um dito popular, descreve uma característica peculiar da cidade.
O meteorologista César Soares explica que as mudanças de tempo em um curto período estão relacionadas à posição geográfica de São Paulo. Por estar na região Sudeste, o estado sofre com a atuação frequente de diferentes sistemas meteorológicos, como frentes frias, entradas de brisa marítima, corredores de umidade vindos da Amazônia e a formação de grandes massas de ar seco.
São Paulo também é marcada por uma ampla amplitude térmica, ou seja, uma diferença significativa entre as temperaturas registradas ao longo do mesmo dia. Por isso, não é incomum que a cidade registre manhãs mais frias e tardes quentes, ou que uma mudança na atuação das massas de ar provoque uma queda acentuada de temperatura em poucas horas.
É por causa dessa “confusão meteorológica” que muitas pessoas acabam saindo de casa preparadas para enfrentar praticamente qualquer situação ao longo do dia — de um frio que congela o rosto a um sol forte que faz aquela paradinha para aproveitar o ar-condicionado do banco parecer uma excelente ideia.
Nesse processo, o calor vindo do Norte e do Nordeste, as massas de ar frio do Sul e a umidade do litoral contribuem para a sensação de que São Paulo tem “as quatro estações do ano em um único dia”. É possível, por exemplo, ter uma manhã de sol, seguida por uma queda acentuada de temperatura, chuva e vento em poucas horas.
Historicamente, as estações do ano em São Paulo são bem definidas: o verão é a época mais quente, o inverno, a mais fria, enquanto outono e primavera são períodos de transição.
No entanto, com o avanço da crise climática, essas características estão se perdendo. Segundo César, São Paulo está em uma condição muito favorável ao excesso de calor.
Posição geográfica explica por qual motivo SP tem as quatro estações em um dia
Arte/g1
Terra da garoa ou cidade das tempestades?
Além das rápidas mudanças de tempo, São Paulo é famosa por ser a “terra da garoa”, termo popularizado por Tonico e Tinoco na canção “São Paulo da Garoa”. Mas, com aumento na temperatura média da cidade, os dias de garoa estão ficando para trás.
De acordo com o professor Humberto Ribeiro da Rocha, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP), enquanto a temperatura média do planeta subiu cerca de 1,2°C desde 1900, a capital paulista registrou aumento de 2,4°C nas máximas diárias e de 2,8°C nas mínimas.
Com esse aquecimento, São Paulo em breve será conhecida como a cidade das tempestades. César explica que grandes volumes de chuva serão cada vez mais comuns.
Agora, com mais calor, é natural que os temporais estejam mais presentes. Então a gente passa a ter uma condição de temperaturas mais altas por conta desse aquecimento residual, proporcionado pelas mudanças climáticas, e aí isso acaba afetando diretamente nas condições de tempestades que a gente têm observado.
Alagamentos, inundações, grandes problemas associados à chuva, o caos urbano, tudo está associado a essas grandes mudanças que a gente tem observado. Então, São Paulo, ela deixa de ter as quatro estações do mesmo dia para ser considerada a cidade do calor e do temporal de fim de tarde.
Chuva deixou a capital paulista em estado de atenção
GloboNews
Bombeiros usam bote para resgatar pessoas de uma rua alagada na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo, após forte chuva na capital paulista
Rahel Patrasso/Reuters
Exatamente por conta de ter a presença da circulação de umidade proveniente do mar e a presença de uma atmosfera mais fria é que se tinha com mais frequência a formação de uma nebulosidade que trazia a garoa.
Segundo o meteorologista, a chuva fina que cobria a cidade era comum em qualquer época do ano, mas elas foram substituídas por temporais de fim de tarde que antes eram característicos do verão e agora podem acontecer em todas as estações, sem um período definido.
Ainda há tempo de recuperar o clima em São Paulo?
A ciência diz que não há mais nada que o ser humano possa fazer para recuperar o clima característico da cidade. O climatologista e professor, Carlos Nobre, diz que o planeta vai ficar 1,5 grau mais quente até 2030, por isso, mesmo com esforços para repor o que foi perdido na natureza, voltar aos padrões normais não é mais uma opção
A corrida contra o tempo agora é para que o planeta não fique 2,5ºC mais quente até 2050.
O gás carbônico permanece cerca de 150 anos na atmosfera, o que inviabiliza soluções rápidas de engenharia e torna inevitável que o planeta atinja 1,5°C de aquecimento até 2030. Se não houver um corte drástico nas emissões de gases de efeito estufa, a temperatura pode subir até 2,5°C em 2050, transformando definitivamente o clima de regiões subtropicais [como São Paulo] em tropicais, explica.
O professor alerta que, para evitar esse cenário mais grave, é urgente não apenas zerar as emissões oriundas de combustíveis fósseis, o desmatamento e a agropecuária, mas também implementar um projeto global de restauração florestal de 6 milhões de quilômetros quadrados para absorver o CO2. Contudo, mesmo adotando essas medidas extremas, os estudos indicam que a temperatura ainda atingiria um pico de 1,7°C em 2045 antes de começar a recuar.
* Sob supervisão de Cíntia Acayaba


